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Estados Unidos vão retirar 5 mil soldados da Alemanha

Prazo estipulado é de 6 a 12 meses, após tensão entre Donald Trump e Friedrich Merz sobre o Irã

Veículos militares trafegam durante o exercício Combined Resolve do Exército dos EUA nas instalações de treinamento do Exército dos EUA no sul da Alemanha, em Hohenfels, Alemanha, em 30 de abril de 2026. REUTERS/Angelika Warmuth (Foto: Reuters)

247 - Os Estados Unidos vão retirar 5 mil soldados da Alemanha em um prazo estimado de seis a doze meses, depois de uma escalada na divergência entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o chanceler alemão Friedrich Merz sobre a guerra contra o Irã.

De acordo com a Reuters, a decisão foi anunciada em meio ao desgaste crescente entre Washington e aliados europeus da Otan, especialmente após críticas de Merz à condução americana da guerra. O chanceler alemão havia afirmado que os iranianos estavam humilhando os Estados Unidos nas negociações e questionado a estratégia de saída adotada pela Casa Branca.

A Alemanha abriga uma das maiores estruturas militares americanas fora do território dos Estados Unidos. O país reúne bases estratégicas, centros de comando e unidades de apoio essenciais para operações dos EUA na Europa, no Oriente Médio e na África. Segundo a Associated Press, cerca de 36 mil militares americanos estão estacionados no território alemão, o que significa que a retirada anunciada corresponde a aproximadamente 14% desse contingente.

Um alto funcionário do Pentágono, ouvido sob condição de anonimato, classificou a recente retórica alemã como “inapropriada e contraproducente”. A mesma fonte afirmou que “O presidente está reagindo corretamente a esses comentários contraproducentes”, em referência à reação de Trump às declarações feitas por Merz.

A retirada afetará uma brigada de combate atualmente baseada na Alemanha. Além disso, um batalhão de fogos de longo alcance, planejado pela gestão de Joe Biden para começar a ser deslocado ao país ainda este ano, não será mais enviado, segundo autoridades americanas.

Fissuras na Otan

A medida aprofunda a tensão entre os Estados Unidos e parte da Europa em torno da guerra contra o Irã. Trump tem cobrado maior apoio dos aliados da Otan às operações americanas, incluindo iniciativas ligadas ao Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte global de petróleo. O impasse ocorre em um momento de pressão sobre os mercados de energia e de divergência europeia quanto ao grau de envolvimento no conflito.

Segundo a autoridade do Pentágono citada pela Reuters, "o presidente tem sido muito claro sobre suas frustrações com a retórica de nossos aliados e a falha em fornecer apoio às operações dos EUA que os beneficiam."  A declaração resume o tom adotado por Washington: a Casa Branca considera que aliados europeus se beneficiam da ação americana, mas resistem a oferecer suporte político, naval ou logístico.

A Alemanha, por sua vez, sustenta que não foi consultada antes do início dos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro. Merz também teria expressado diretamente a Trump seu ceticismo quanto ao conflito e à estratégia americana, segundo o relato da Reuters.

A decisão também se encaixa em uma diretriz mais ampla do governo Trump: pressionar países europeus a assumirem maior responsabilidade pela segurança do continente. Washington afirma que a redução levará o efetivo americano na Europa para patamar semelhante ao registrado antes de 2022, ano em que a invasão da Ucrânia pela Rússia levou o governo Biden a ampliar a presença militar dos EUA no continente.

Alemanha é peça-chave 

A presença militar dos Estados Unidos na Alemanha tem papel central na arquitetura de defesa transatlântica. O país abriga o Comando Europeu dos EUA, o Comando dos EUA para a África, a Base Aérea de Ramstein e o centro médico de Landstuhl, que historicamente recebeu feridos de guerras no Afeganistão e no Iraque.

Por isso, a retirada de tropas tem impacto que vai além da relação bilateral com Berlim. Bases em território alemão são usadas como plataformas logísticas, de treinamento, transporte e resposta rápida. Analistas de defesa citados pela AP afirmam que a estrutura americana na Alemanha facilita a projeção de poder dos Estados Unidos para o Mediterrâneo, o Oriente Médio e a África.

A reação no Congresso americano foi imediata. Democratas criticaram a decisão e alertaram para riscos à segurança dos Estados Unidos e à coesão da Otan. O senador Jack Reed, principal democrata no Comitê de Serviços Armados do Senado, afirmou que a retirada sugere que compromissos americanos com aliados podem depender do humor presidencial e pediu a suspensão da medida antes que ela provoque danos duradouros às alianças.

Ideia não é nova

A ideia de diminuir a presença militar americana na Alemanha não é nova. Durante seu primeiro mandato, Trump propôs retirar cerca de 12 mil soldados do país, em meio a críticas aos gastos alemães com defesa e à dependência europeia do apoio militar dos Estados Unidos. O plano, porém, não foi implementado e acabou revertido por Joe Biden em 2021.

Agora, o novo anúncio surge em ambiente de tensão ainda mais amplo. Trump também indicou que poderia considerar a retirada de tropas americanas da Itália e da Espanha, países que demonstraram resistência a apoiar operações relacionadas à guerra contra o Irã. Questionado sobre essa possibilidade, o presidente respondeu “provavelmente”, segundo o relato da Reuters.

A Espanha, governada pelo socialista Pedro Sánchez, recusou o uso de bases e espaço aéreo para ataques contra o Irã. O país abriga instalações militares importantes para os Estados Unidos, como a Estação Naval de Rota e a Base Aérea de Morón. Já a Itália também entrou em rota de atrito com Washington, especialmente após divergências sobre o uso de instalações militares e críticas à condução americana do conflito.

Recuo militar pode acelerar defesa europeia

Embora o corte anunciado seja menor do que o plano discutido por Trump em 2020, especialistas avaliam que a decisão pode aprofundar a percepção europeia de que os Estados Unidos se tornaram um parceiro menos previsível em matéria de segurança. Imran Bayoumi, ex-funcionário do Pentágono e hoje ligado ao Atlantic Council, disse à Reuters que líderes europeus devem intensificar esforços para ampliar os próprios gastos militares, enxergando Washington como cada vez menos confiável.

Essa leitura ganha força porque a Alemanha aprovou recentemente metas importantes para o orçamento de 2027, incluindo compromisso de elevar os gastos com defesa. Ainda assim, a retirada americana envia um sinal político forte no momento em que a Europa lida simultaneamente com a guerra na Ucrânia, a instabilidade no Oriente Médio e a pressão para assumir maior protagonismo dentro da Otan.

Nos bastidores, autoridades militares alemãs citadas pela Reuters demonstraram surpresa com o anúncio, especialmente porque encontros realizados no Pentágono horas antes haviam sido descritos como construtivos. Integrantes do governo alemão argumentam que Berlim ofereceu apoio relevante aos Estados Unidos, incluindo autorização para uso de bases e sobrevoos.

A redução de 5 mil soldados deve ocorrer gradualmente ao longo dos próximos meses. Mesmo após a retirada, a Alemanha continuará sendo um dos principais pontos de apoio militar dos Estados Unidos na Europa, mas a decisão marca uma nova fase de incerteza na relação entre Washington, Berlim e a Otan.

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