Veja como o relevo e o oceano quente agravaram tragédia em Juiz de Fora
O relevo acidentado da região foi um mecanismo de intensificação das instabilidades atmosféricas
247 - A configuração geográfica de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, contribuiu para potencializar o temporal que atingiu a cidade e resultou em mais de 20 mortes, além de dezenas de desaparecidos no município e em Ubá, localizada a pouco mais de 100 quilômetros. As informações foram publicadas pelo Portal G1 nesta terça-feira (24) e detalham como fatores naturais ampliaram os efeitos das chuvas extremas.
O relevo acidentado da região foi um mecanismo de intensificação das instabilidades atmosféricas. A combinação entre características locais e um cenário meteorológico já propício a tempestades de verão favoreceu a formação de núcleos de chuva mais intensos e concentrados.
Grande parte de Juiz de Fora é composta por morros e serras, com altitudes que variam de aproximadamente 470 metros a quase 1.000 metros. A cidade está situada em uma área semelhante a um vale, cercada por elevações naturais que dificultam a dispersão das nuvens carregadas quando sistemas meteorológicos avançam sobre a região. Esse confinamento contribui para a concentração das precipitações em pontos específicos.
Na segunda-feira (23), o município registrou mais de 190 milímetros de chuva em apenas oito horas. Uma frente fria posicionada no litoral do Sudeste ajudou a direcionar um corredor de umidade vindo da Amazônia. Esse fluxo atravessou o Sudeste, passou por Minas Gerais e forneceu energia para a formação das nuvens que descarregaram grande volume de água sobre a cidade.
Outro fator determinante foi a temperatura do oceano na costa da região, que está até 3 °C acima da média, com águas próximas de 29 °C. O aquecimento intensifica a evaporação e aumenta a quantidade de vapor d’água disponível na atmosfera, funcionando como combustível para tempestades. A chegada de ventos mais frios e úmidos vindos do mar favoreceu o encontro entre massas de ar quente e frio, estimulando o desenvolvimento de nuvens do tipo cumulonimbus, associadas a temporais severos.
O meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Giovani Dolif, explicou que “a interação desse cenário de grande escala com o relevo na pequena escala faz com que, em algumas áreas, haja nuvens mais carregadas”. Ele acrescentou que “ou seja, o relevo acaba fazendo a chuva ser mais intensa e mais concentrada”.
Em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, o acumulado superou 200 milímetros — volume superior ao registrado em Juiz de Fora. Ainda assim, os impactos foram diferentes. Segundo Pedro Camarinha, especialista em desastres e diretor do Cemaden, “essa chuva foi generalizada, ela não ficou concentrada em uma área da cidade, e isso faz com que haja mais impactos”. Ele completou: “o que a gente percebe é que isso pode ter acontecido pela reação do cenário meteorológico com a própria cidade”.
A tragédia evidencia como a combinação entre condições atmosféricas amplas e características geográficas locais pode ampliar a intensidade de eventos extremos, especialmente em áreas com relevo acidentado e elevada vulnerabilidade urbana.


