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Analista chinês: declaração de Trump sobre possível envio de militares ao Irã não passa de tática de guerra psicológica

De acordo com Sun Degang, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade Fudan, na China, a determinação do Irã em resistir permanece firme

Sun Degang e Donald Trump (Foto: Universidade de Fudan/Reuters)

247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em entrevista ao New York Post, na segunda-feira, que não descarta enviar tropas terrestres americanas ao Irã “se forem necessárias”, acrescentando que a operação estava “bem adiantada em relação ao cronograma” após a morte de dezenas de altos funcionários iranianos. A sinalização, somada a declarações semelhantes do secretário de Defesa dos EUA, indica uma tentativa de exercer pressão psicológica sobre Teerã e enfraquecer sua disposição de resistir, uma vez que a esperada mudança rápida de regime não se concretizou e Washington ainda pode não ter concluído os preparativos necessários para uma eventual mobilização terrestre diante da escalada das tensões, avalia um especialista chinês, em entrevista ao Global Times.

“Eu não tenho receio em relação a tropas em solo — como todo presidente diz: ‘não haverá tropas em solo’. Eu não digo isso”, afirmou Trump após lançar ataques no sábado com o objetivo de desarticular a liderança militar e política iraniana. “Eu digo ‘provavelmente não vamos precisar delas’ [ou] ‘se forem necessárias’”, segundo o New York Post.

Trump declarou ao Daily Mail, no domingo, que estima que a guerra durará “cerca de quatro semanas”, mas indicou ao New York Post, na segunda-feira, que esse prazo pode ser encurtado. O presidente também disse não estar preocupado com a possibilidade de o Irã recorrer ao terrorismo como forma de retaliação pelos ataques do fim de semana. “Nós vamos eliminar isso. Seja o que for. Como tudo o mais, vamos eliminar”, afirmou.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, também evitou descartar o envio de tropas terrestres durante coletiva de imprensa na segunda-feira, em seus primeiros comentários públicos sobre os ataques ao Irã, realizados no Pentágono, em Washington.

Questionado diretamente sobre a possibilidade de envio de forças americanas ao Irã, Hegseth disse que seria “tolice” esperar que autoridades dos EUA declarassem publicamente “até onde iremos”. “Não vamos entrar no exercício de dizer o que faremos ou deixaremos de fazer”, acrescentou, segundo a revista Time.

As declarações sobre o envio de tropas terrestres configuram mais uma estratégia de guerra psicológica para pressionar o Irã do que uma opção concreta de política externa, já que os Estados Unidos não teriam realizado os preparativos suficientes para uma operação desse porte, afirmou Sun Degang, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade Fudan, ao Global Times, na terça-feira.

Segundo Sun, a determinação do Irã em resistir permanece firme, e o país já lançou ataques de retaliação contra Israel e contra países da região que abrigam forças americanas, provocando baixas entre militares dos EUA e forçando Israel a adotar postura defensiva. Na avaliação do especialista, Washington busca um desfecho rápido e decisivo por meio de ataques dissuasórios e eliminações seletivas, na expectativa de estimular a oposição interna a desafiar a liderança iraniana. No entanto, a situação política do país teria se estabilizado com a formação de uma nova estrutura de comando, e a esperada mudança acelerada de regime não ocorreu.

O conselho interino de liderança do Irã, composto por três membros, foi formado e já iniciou suas atividades, afirmou no domingo o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, em mensagem de vídeo transmitida pela emissora estatal IRIB TV. O líder supremo Ali Khamenei, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad e vários outros altos funcionários morreram nos ataques de grande escala lançados pelos EUA e por Israel.

Também na segunda-feira, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, declarou que o país está preparado para um conflito prolongado. “O Irã, ao contrário dos Estados Unidos, preparou-se para uma guerra longa”, escreveu Larijani na rede social X.

“Como nos últimos 300 anos, o Irã não iniciou esta guerra, e nossas valentes Forças Armadas não realizaram ataques senão em defesa. Defenderemos ferozmente a nós mesmos e nossa civilização de seis mil anos, independentemente dos custos, e faremos os inimigos se arrependerem de seu erro de cálculo”, afirmou.

De acordo com a revista Time, ao menos seis militares americanos morreram até o momento em ataques de retaliação iranianos, e 11 pessoas em Israel foram mortas em ofensivas subsequentes com mísseis e drones lançadas por Teerã.

Sun observou ainda que, com a aproximação das eleições legislativas de meio de mandato, o governo Trump enfrenta crescente pressão política interna e o receio de que um conflito prolongado possa gerar desgaste para os republicanos. Os sinais contraditórios — ameaças combinadas com disposição para negociar — refletem, segundo ele, a ansiedade diante da evolução dos acontecimentos e a incerteza sobre os desdobramentos do conflito.

O New York Post também citou uma pesquisa CNN/SSRS divulgada na segunda-feira, indicando que 41% dos entrevistados aprovam o mais recente ataque dos EUA, enquanto 59% desaprovam.

“Acho que as pesquisas são muito boas, mas não me importo com pesquisas. Tenho que fazer a coisa certa. Tenho que fazer a coisa certa. Isso deveria ter sido feito há muito tempo”, afirmou Trump, segundo o New York Post.

Segundo líderes democratas no Congresso, a justificativa apresentada por Trump é questionável, especialmente diante de suas declarações anteriores de que teria “obliterado completamente” as capacidades nucleares do Irã em bombardeios americanos realizados em junho passado, conforme reportagem do Los Angeles Times. O jornal também citou o deputado Jim Himes, que afirmou que “tudo o que ouvi da administração antes e depois desses ataques ao Irã confirma que esta é uma guerra de escolha, sem um objetivo estratégico final”.

A reportagem acrescenta que o debate em torno dos recentes ataques ao Irã remete a discussão semelhante — ainda que menos imediata — sobre a decisão do presidente George W. Bush de iniciar a guerra no Iraque após os atentados de 11 de setembro de 2001, igualmente baseada na alegação de que “armas de destruição em massa” representavam ameaça iminente. Posteriormente, diversas investigações concluíram que o Iraque não possuía tal arsenal, o que alimentou críticas de ambos os partidos por anos.

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