O casal que ganhou indenização de mais de R$ 1 milhão por ser proibido de aquecer comida
O casal alegou ter sido alvo de discriminação racial, microagressões e retaliações institucionais
247 - Uma discussão iniciada em torno de um prato de comida em um micro-ondas universitário terminou com um casal de estudantes indianos recebendo uma indenização de US$ 200 mil — o equivalente a pouco mais de R$ 1 milhão — de uma universidade nos Estados Unidos. O caso reacendeu o debate internacional sobre o chamado “racismo alimentar” e a discriminação cultural enfrentada por imigrantes em ambientes acadêmicos ocidentais. A história foi revelada originalmente pela BBC, que acompanhou o processo movido por Aditya Prakash e sua noiva, Urmi Bhattacheryya, contra a Universidade do Colorado Boulder.
O casal alegou ter sido alvo de discriminação racial, microagressões e retaliações institucionais após um episódio ocorrido em setembro de 2023.Segundo a ação judicial, o conflito começou quando Prakash, então doutorando em Antropologia, foi impedido por um funcionário da universidade de esquentar seu almoço — um prato tradicional indiano chamado palak paneer — em um micro-ondas do campus. O argumento apresentado foi de que a comida exalava um odor considerado “pungente” e violaria uma suposta regra interna sobre alimentos com cheiro forte.
De acordo com Prakash, a regra nunca esteve afixada no local e não era aplicada de forma uniforme. Ao questionar quais alimentos seriam considerados inadequados, ele afirma ter ouvido que sanduíches eram permitidos, mas curry não. Para o estudante, o episódio marcou o início de um tratamento diferenciado que afetou diretamente sua trajetória acadêmica.Após o incidente, Prakash e Bhattacheryya relatam ter enfrentado uma sequência de retaliações, incluindo a perda de bolsas de pesquisa, funções de docência e até mesmo o afastamento de orientadores com os quais trabalhavam havia meses. Ambos eram doutorandos na instituição à época dos fatos.Em maio de 2025, o casal entrou com uma ação por direitos civis, alegando um “padrão crescente de retaliação” e discriminação racial.
O processo foi encerrado em setembro do mesmo ano, após um acordo extrajudicial. Pelos termos acertados, a universidade concordou em conceder os diplomas aos estudantes, negou qualquer responsabilidade formal e determinou que eles não poderão estudar ou trabalhar na instituição no futuro.Procurada pela BBC, a Universidade do Colorado Boulder afirmou que não comentaria “circunstâncias específicas” do caso por razões legais, mas declarou estar comprometida com a promoção de um ambiente inclusivo. Em nota, a instituição afirmou: “Quando essas alegações surgiram em 2023, nós as levamos a sério e aderimos a processos estabelecidos e robustos para tratá-las. Chegamos a um acordo com os estudantes em setembro e negamos qualquer responsabilidade neste caso”.
Para Aditya Prakash, o processo nunca teve como objetivo principal a compensação financeira. “Foi sobre mostar que há consequências para quem discrimina indianos por causa da sua ‘indianidade’”, afirmou. Segundo ele, a comida tem sido historicamente usada como instrumento de estigmatização de comunidades marginalizadas. “A palavra ‘curry’ foi associada ao ‘cheiro’ de comunidades marginalizadas que trabalham em cozinhas e nas casas das pessoas, e se tornou um termo pejorativo para ‘indiano’”, disse.
Bhattacheryya também relatou ter sido alvo de retaliações após convidar Prakash para uma palestra em sua aula de antropologia sobre relativismo cultural — conceito que defende que nenhuma cultura é superior a outra. Durante a apresentação, ele compartilhou experiências pessoais de racismo alimentar, sem mencionar nomes ou a universidade.A doutoranda ainda contou que sofreu ataques racistas nas redes sociais após publicar, em 2024, uma série de postagens denunciando o que chamou de “racismo sistêmico” na instituição.
Entre os comentários recebidos, estavam frases como “Voltem para a Índia”, “A descolonização foi um erro” e “Não é só a comida, muitos de vocês não tomam banho e nós sabemos”.O caso teve ampla repercussão na Índia, onde gerou um debate sobre discriminação alimentar tanto no exterior quanto dentro do próprio país. Internautas também destacaram que práticas semelhantes ocorrem em território indiano, especialmente contra pessoas de castas desfavorecidas e habitantes do nordeste do país, frequentemente alvo de preconceito por seus hábitos alimentares.
Desde o encerramento do processo, Prakash e Bhattacheryya retornaram à Índia e afirmam que dificilmente voltarão a viver nos Estados Unidos. Segundo Prakash, a experiência deixou marcas profundas. “Não importa quão bom você seja no que faz, o sistema está constantemente dizendo que, por causa da sua cor de pele ou nacionalidade, você pode ser mandado de volta a qualquer momento. A precariedade é aguda, e nossa experiência na universidade é um bom exemplo disso”, concluiu.