Não é não: campanha reforça combate ao assédio contra mulheres no Carnaval
Dados apontam que metade das brasileiras já sofreu assédio na folia, e campanhas como “Não é Não” ganham força com apoio da CUT e ações do poder público
247 - O Carnaval é uma das maiores celebrações populares do Brasil, reunindo milhões de pessoas em blocos, trios elétricos e bailes. No entanto, para muitas mulheres, a festa também se transforma em um período de medo e insegurança, marcado por episódios recorrentes de assédio e violência sexual em espaços públicos e privados.
Segundo reportagem publicada no site da CUT (Central Única dos Trabalhadores), a campanha “Não é Não” volta a ganhar destaque neste Carnaval como instrumento de conscientização e enfrentamento ao assédio contra mulheres, em meio a dados alarmantes sobre a persistência da violência durante a folia.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, citada pelo Instituto Patrícia Galvão, revelou que 86% dos brasileiros reconhecem que ainda existe assédio no Carnaval e defendem que o combate a essas práticas é responsabilidade de toda a sociedade. Entre as mulheres, o índice sobe para 89%.
O levantamento, realizado entre 18 e 22 de janeiro de 2024, ouviu 1.507 pessoas com 18 anos ou mais e também apontou rejeição majoritária a situações que configuram violência. Para 81% dos entrevistados, não há justificativa para que um homem “roube” um beijo de uma mulher sob pretexto de ela estar bêbada ou usando pouca roupa. Entre as mulheres, 86% discordam dessa prática.
Os números, no entanto, tornam-se ainda mais graves quando analisam a experiência feminina. De acordo com o estudo, 50% das brasileiras já sofreram assédio sexual durante o Carnaval. Além disso, sete em cada dez mulheres afirmam ter medo de serem assediadas durante a festa, enquanto 73% relatam receio de enfrentar essa situação novamente ou pela primeira vez.Entre mulheres negras, os índices são ainda mais altos: 52% já foram vítimas de assédio e 75% temem que a violência volte a ocorrer. Para 60% das brasileiras, e 65% entre as negras, o Carnaval não se tornou mais seguro com o passar do tempo.O levantamento também aponta que 97% das mulheres consideram importante a realização de campanhas de combate ao assédio durante o período carnavalesco, e 92% classificam essas iniciativas como muito importantes.
CUT alerta: assédio é crime
A secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, afirma que o aumento dos casos de assédio durante o Carnaval não é casual e está diretamente ligado à combinação entre machismo estrutural, consumo de álcool e permissividade cultural.
“Infelizmente, o que acontece com grande parte dos homens é que eles confundem bebida, cultura machista e a atmosfera festiva como se isso lhes desse algum tipo de autorização para abusar do corpo da mulher. Criam para si um falso direito de invadir, tocar, constranger”, declarou.Segundo ela, muitos agressores se aproveitam do ambiente de multidão para agir com a sensação de impunidade. “É como se, por ser uma festa popular, se sentissem autorizados a fazer o que quiserem com o corpo feminino”, disse.
Amanda também reforça que o assédio não pode ser tratado como exagero ou parte da cultura carnavalesca. “Não é paquera, não é exagero, não é ‘coisa do Carnaval’. É violação. É violência. A importunação sexual é crime, com pena prevista de um a dois anos de detenção”, afirmou.Ela cita situações recorrentes como exemplos claros de crime: “Beijo forçado, toque sem consentimento, abraço indesejado. Tudo isso é crime.”

