Trevisan: “Marco Rubio está procurando espaço para promover sua candidatura”
Professor Leonardo Trevisan afirma que ações contra o Brasil refletem disputa política interna nos EUA e não uma estratégia de Trump
247 - A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações narcoterroristas deve ser compreendida menos como uma medida voltada ao Brasil e mais como parte da disputa política interna norte-americana. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan, em entrevista ao programa Boa Noite 247.
Segundo Trevisan, o principal articulador dessa iniciativa é o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que estaria buscando ampliar sua projeção política para uma eventual disputa pela sucessão de Donald Trump dentro do campo conservador norte-americano.
“Marco Rubio está procurando algum espaço político para impulsionar sua candidatura à sucessão de Trump”, afirmou o professor.
Na análise de Trevisan, muitos observadores interpretam equivocadamente o papel desempenhado por Flávio Bolsonaro nas recentes aproximações com setores da administração norte-americana. Para ele, a relação não deve ser vista como uma influência do senador brasileiro sobre Washington, mas como uma oportunidade utilizada por Rubio para fortalecer sua própria posição política.
“O Flávio Bolsonaro, nesse contexto, ajuda a impulsionar a candidatura de Marco Rubio”, afirmou.
O professor chamou atenção para um episódio ocorrido durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca. Apesar da importância do encontro entre os dois chefes de Estado, Rubio não participou da reunião. Em contrapartida, estiveram presentes figuras centrais do governo Trump, como o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o secretário de Comércio e representantes da área comercial da administração norte-americana.
Para Trevisan, a ausência do secretário de Estado revelou diferenças dentro do próprio governo dos Estados Unidos.
“Imagine o presidente americano recebendo o maior país da América Latina e o secretário de Estado não estar presente. Essa é a questão que precisa ser observada”, disse.
O especialista destacou ainda que, paralelamente às declarações de Rubio, integrantes da área econômica do governo norte-americano vinham sinalizando avanços nas negociações comerciais com o Brasil. Segundo ele, esse contraste evidencia que a política defendida pelo secretário de Estado não necessariamente representa a posição predominante dentro da administração Trump.
Outro elemento apontado por Trevisan é o silêncio do próprio presidente norte-americano após as declarações mais duras de Rubio em relação ao Brasil.
“Trump está em silêncio. Mesmo depois das declarações do secretário de Estado, ele não falou nada”, observou.
Para o professor, esse comportamento não é casual. Ele lembrou que Trump depende politicamente de setores do eleitorado hispânico, especialmente na Flórida, base eleitoral importante para Rubio. Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano evita permitir que seu secretário de Estado acumule protagonismo excessivo.
“Trump é um político muito hábil. Uma coisa é permitir movimentos que dialoguem com determinados eleitores. Outra é dar espaço suficiente para que Marco Rubio faça sombra ao governo”, avaliou.
Trevisan também considera improvável que as declarações de Rubio resultem em medidas mais agressivas contra o Brasil. Ele citou como precedente a classificação de cartéis mexicanos como organizações narcoterroristas, anunciada meses antes pela administração Trump, sem que isso tivesse sido seguido por sanções adicionais ou ações extraordinárias.
Nesse contexto, o professor sustenta que a iniciativa possui alcance limitado e está mais relacionada à construção de uma imagem política doméstica do que a uma mudança efetiva na política externa dos Estados Unidos.
Para ele, o cenário revela uma disputa interna por espaço e influência dentro do campo conservador norte-americano, na qual o Brasil acaba sendo utilizado como elemento de projeção política.
“Marco Rubio representa um tipo de perspectiva política. Ele está procurando espaço para se promover politicamente. É isso que ajuda a entender o que está acontecendo”, concluiu.



