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“Sem mudanças estruturais, o Brasil não vai sair da crise”, diz Genoino

Ex-presidente do PT afirma que 2026 será decisivo para o futuro do país

José Genoino (Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)

247 - O ex-deputado federal e ex-presidente do PT José Genoino fez um diagnóstico duro sobre a situação brasileira ao afirmar que o país atravessa uma crise profunda que afeta diretamente a qualidade de vida da população. Para ele, episódios recorrentes de chuvas intensas, apagões, falta de água, precarização dos serviços públicos e insegurança urbana não são eventos isolados, mas sinais de um modelo esgotado. Segundo Genoino, o Brasil chega a 2026 diante de uma escolha decisiva entre administrar a crise ou enfrentá-la com mudanças estruturais.

A análise foi apresentada durante o programa Revolução Molecular, exibido pela TV 247. Ao longo da entrevista , Genoino relacionou a crise climática, o impacto das privatizações, a precarização do trabalho e o ambiente político pré-eleitoral, defendendo que apenas transformações profundas podem oferecer respostas duradouras aos problemas enfrentados pelo país. 

Segundo Genoino, episódios recorrentes de chuvas intensas, enchentes, apagões e falhas na comunicação não podem ser tratados como exceções. Para ele, trata-se de uma rotina que evidencia a fragilidade dos serviços essenciais. “Quando tem uma tempestade, milhares de casas ficam sem luz, sem internet, sem telefone”, afirmou, ao criticar o modelo de concessões e a ausência de investimentos em prevenção. Em sua avaliação, nem mesmo tarefas básicas estão sendo realizadas de forma adequada. “Tô me referindo ao básico, ao elementar. E esse elementar não está sendo cumprido”, disse.

O ex-presidente do PT ampliou a crítica ao afirmar que a crise não se restringe à infraestrutura, mas alcança áreas como educação, emprego e organização social. Ele apontou que a deterioração das políticas públicas e a falta de perspectiva se refletem no cotidiano das escolas e das cidades, aprofundando tensões sociais. Para Genoino, esse cenário é resultado direto da redução do papel do Estado e da perda de capacidade de planejamento e gestão.

Ao tratar do mercado de trabalho, ele fez questão de diferenciar crescimento do emprego e qualidade do emprego. Segundo Genoino, a ampliação de postos de trabalho não resolve o problema se vier acompanhada de precarização, jornadas exaustivas e perda de direitos. Ele associou esse quadro às reformas de orientação neoliberal implementadas ao longo dos últimos anos, que, em sua avaliação, fragilizaram a proteção social.

Projetando o debate para o cenário eleitoral, Genoino classificou 2026 como um momento decisivo para o país. “Sem uma mudança estrutural, nós não teremos a solução de alguns problemas graves do Brasil e da população brasileira”, afirmou. Para ele, insistir nos limites do modelo atual significa aprofundar o desgaste político e social, enquanto mudanças estruturais exigiriam enfrentar a concentração de riqueza, redefinir prioridades e fortalecer os serviços públicos.

O ex-deputado também criticou a forma como o debate fiscal costuma ser conduzido no país. Segundo ele, políticas sociais são frequentemente apontadas como responsáveis pela crise das contas públicas, enquanto outros fatores permanecem fora do centro da discussão. “Eles não falam dos juros altos”, disse, ao mencionar o impacto da dívida pública e dos encargos financeiros sobre o orçamento. Na sua avaliação, sem enfrentar esse tema, qualquer discussão sobre investimentos ficará incompleta.

Outro ponto destacado foi a necessidade de qualificar o debate político e ampliar a participação popular. Genoino defendeu que a comunicação política esteja vinculada a um projeto claro de transformação e não apenas à gestão institucional. “A comunicação preside a linha política”, afirmou. Nesse contexto, propôs que a sociedade seja chamada a opinar diretamente sobre temas centrais, como as emendas parlamentares impositivas. “A esquerda devia levantar a bandeira de realizar um plebiscito e consultar a população”, disse, ao defender mecanismos de democracia participativa.

Na parte final de sua análise, Genoino destacou o papel da cultura como espaço de disputa simbólica e política. Para ele, manifestações culturais populares expressam resistência, memória e identidade, funcionando também como formas de mobilização social. “Esse carnaval vai ser uma grande manifestação política, popular e cultural do país”, afirmou, associando cultura, esperança e engajamento coletivo.

Ao concluir, Genoino sintetizou o horizonte que, segundo ele, deveria orientar o país nos próximos anos. “Nós queremos um Brasil feminista, antirracista, sem preconceito, que não negocie a sua soberania”, declarou. Para o ex-presidente do PT, enfrentar a crise brasileira exige mais do que respostas pontuais: passa por redefinir prioridades, reconstruir o papel do Estado e recolocar a vida da população no centro do projeto nacional.