Esteves diz que Brasil não é “terra arrasada” e vê país com “economia muito interessante”
Chairman do BTG Pactual afirma que próximo presidente receberá um país em situação melhor do que em momentos anteriores, mas cobra ajuste fiscal
247 – O presidente do conselho de administração do BTG Pactual, André Esteves, afirmou que o próximo presidente da República assumirá o país em condições econômicas muito mais favoráveis do que em outros períodos da história recente brasileira. As declarações foram feitas nesta terça-feira durante evento promovido pela revista Veja em Nova York, na semana dedicada ao Brasil na cidade americana. As informações foram publicadas pelo jornal Valor Econômico.
Segundo Esteves, o Brasil atravessa um momento estruturalmente mais sólido do que em períodos como 1994, 2002 e 2016, quando, segundo ele, presidentes assumiram o governo em um cenário de “terra arrasada”. “Quem sentar na cadeira em janeiro não vai pegar terra arrasada”, declarou o banqueiro.
O executivo afirmou que o país acumulou um “progresso muito grande” nas últimas décadas e destacou que o cenário econômico brasileiro hoje é mais consistente do que em outros momentos da democracia recente. “O presidente que for eleito em outubro vai pegar um Brasil muito interessante em janeiro. Muito diferente do que quando olhamos os 40 anos de história da nossa democracia”, disse.
Apesar da avaliação positiva sobre a economia brasileira, Esteves afirmou que ainda falta “a última milha” do ajuste fiscal para consolidar um ambiente de estabilidade mais duradouro. Na visão do banqueiro, seria necessário um ajuste equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), algo que ele considera possível diante do tamanho das despesas públicas brasileiras.
Durante sua participação no evento, o chairman do BTG criticou a política de reajuste real do salário mínimo em um contexto de desemprego muito baixo. “Pior, essa política engloba todo o sistema previdenciário brasileiro”, afirmou.
Ele acrescentou que o modelo adotado no Brasil não encontra paralelo em outras economias. “Isso não existe em nenhum lugar do mundo, nem nas sociais democracias europeias. É claro que precisamos corrigir essas distorções”, declarou.
Para Esteves, um avanço consistente na área fiscal abriria espaço para uma queda expressiva da taxa de juros no país. Segundo ele, se houver liderança política do Executivo na condução das reformas, o Congresso Nacional apoiará as medidas necessárias.
“Se a liderança política do Executivo apontar a direção, o Congresso vai estar lá”, afirmou.
O banqueiro avaliou ainda que a taxa Selic poderia cair para um patamar entre 7% e 8% ao ano em um cenário de maior confiança fiscal. “Isso vale vinte vezes um Bolsa Família, ter um patamar de juros civilizado”, disse.
Esteves também comentou o funcionamento das instituições brasileiras e afirmou não considerar problemático o fortalecimento do Congresso Nacional e do Judiciário. “Eu prefiro do que um ambiente em que o Congresso está submisso ao Executivo e o Judiciário está ausente”, declarou.
Na avaliação do executivo, o atual arranjo institucional reduz os riscos de instabilidade política e econômica mais profunda. “A chance de ter preocupação de virar uma Argentina ou Venezuela seria muito maior se não tivéssemos esse arranjo no Brasil”, acrescentou.
O chairman do BTG também destacou que a reorganização global dos fluxos de capital vem beneficiando países emergentes, especialmente da América Latina. Segundo ele, investidores internacionais passaram a enxergar a região como geopoliticamente estável e mais amigável aos negócios.
“Estávamos lá atrás na fila do pão e, de repente, as pessoas se tocaram de uma combinação muito interessante”, afirmou.
Ele citou ainda mudanças políticas recentes em países como Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Peru e Colômbia. “Em todos esses países as sociedades decidiram ir nessa direção”, declarou, ao defender um ambiente mais favorável ao mercado e aos investimentos privados.



