Coaf atua com apenas 93 servidores no combate à lavagem de dinheiro
Órgão central de inteligência financeira processa milhões de operações com apenas 93 servidores e levanta debate sobre capacidade institucional
247 - O Brasil processa milhões de informações financeiras para combater crimes como lavagem de dinheiro por meio de uma estrutura institucional considerada limitada. Em 2024, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) recebeu cerca de 7,5 milhões de comunicações de operações suspeitas e produziu 18.762 relatórios de inteligência encaminhados a autoridades de investigação, segundo Gustavo Pessoa, em artigo na Folha de São Paulo.
Apesar do volume expressivo de dados analisados, o trabalho foi realizado por apenas 93 integrantes, evidenciando um contraste significativo entre a responsabilidade do órgão e sua capacidade operacional.
Coaf concentra inteligência financeira no Brasil
O Coaf ocupa posição estratégica no sistema nacional de prevenção à lavagem de dinheiro. A instituição atua como unidade de inteligência financeira, recebendo comunicações obrigatórias de diversos setores, como bancos, corretoras, fintechs, seguradoras e casas de câmbio.
A partir desse fluxo de dados, analistas realizam cruzamentos e identificam padrões suspeitos, transformando grandes volumes de informações em relatórios que podem subsidiar investigações criminais e administrativas. O órgão, no entanto, não conduz investigações diretamente, limitando-se à produção de inteligência.
Estrutura enxuta levanta questionamentos
O volume de informações processadas anualmente é elevado, com milhões de registros submetidos a triagem e análise. Nesse cenário, chama atenção o tamanho reduzido da estrutura institucional. O Coaf não possui carreira própria consolidada, sendo composto majoritariamente por servidores requisitados de outros órgãos públicos.
Além disso, o orçamento disponível é considerado modesto diante da relevância estratégica da instituição no sistema de integridade financeira do país.
Comparação com modelo dos Estados Unidos
A análise ganha outra dimensão quando comparada ao modelo norte-americano. Nos Estados Unidos, a função equivalente é desempenhada pelo FinCEN (Financial Crimes Enforcement Network), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro.
Assim como o Coaf, o FinCEN recebe comunicações obrigatórias, analisa dados financeiros e compartilha informações com autoridades regulatórias e policiais. No entanto, a diferença está na escala: o órgão norte-americano conta com mais de 300 funcionários em tempo integral e um orçamento anual superior a US$ 200 milhões.
Além disso, sua base de dados reúne centenas de milhões de relatórios, com milhões de novos registros sendo incorporados todos os anos.
Embora o sistema financeiro dos Estados Unidos seja maior e possua uma estrutura regulatória distinta, a comparação evidencia a diferença de robustez institucional. No caso brasileiro, a atuação do Coaf demonstra eficiência analítica, já que um número reduzido de profissionais lida com um volume massivo de dados.
Ainda assim, o cenário levanta um debate sobre os limites dessa eficiência. A capacidade estatal necessária para enfrentar crimes financeiros não depende apenas de desempenho técnico, mas também de estrutura, recursos e pessoal compatíveis com a complexidade das operações analisadas.


