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Atual taxa de juros do Brasil pode proteger o real em cenário de guerra no Irã, diz Itaú Unibanco

Diferencial de taxas e menor dependência de petróleo ajudam a conter pressão cambial e impactos inflacionários

Navios-tanque navegam no Golfo, perto do Estreito de Ormuz, vistos do norte de Ras al-Khaimah, próximo à fronteira com a região administrativa de Musandam, em Omã (Foto: Stringer/Reuters)

247 - O patamar elevado de juros no Brasil pode funcionar como um fator de proteção para o real diante de uma eventual intensificação da guerra no Oriente Médio, mesmo em um ambiente de maior aversão ao risco global. A avaliação é de economistas do Itaú Unibanco, que destacam o diferencial de taxas de juros como elemento capaz de atrair capital estrangeiro e sustentar a moeda brasileira.

Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo nesta quinta-feira (19), o banco também aponta a menor dependência do Brasil em relação ao petróleo importado como um fator adicional que ajuda a conter a desvalorização cambial em cenários de crise internacional.

Em momentos de tensão geopolítica, investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros, como o dólar, o que geralmente pressiona moedas de países emergentes. Ainda assim, o economista Pedro Schneider, do Itaú Unibanco, avalia que o Brasil apresenta vantagens relativas nesse contexto. “O Brasil tem uma gordurinha”, afirmou. “Isso faz com que, apesar de quase todas as moedas estarem depreciando, porque existe um movimento de aversão a risco, o Brasil sofre menos no relativo, porque os termos de troca são mais favoráveis e o diferencial de juros também é mais favorável.”

A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente. Esse bloqueio tem pressionado os preços da commodity e ampliado riscos inflacionários em diversos países.

De acordo com estimativas do banco, um aumento adicional de 10% no preço do diesel poderia elevar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em cerca de 0,2 ponto percentual. A economista Julia Gottlieb destacou que, embora o impacto direto do diesel no índice seja limitado, seus efeitos indiretos são significativos devido ao encarecimento do transporte de mercadorias.

“Quanto maior o preço do fertilizante, maior o preço da soja e do trigo. Nossa dependência de fertilizantes é grande, mas achamos que esse efeito será maior para 2027 do que para 2026, uma vez que a safra deste ano já está plantada”, afirmou Gottlieb durante evento realizado em São Paulo nesta quinta-feira (19).

O Itaú também projeta que o fechamento do Estreito de Ormuz deve persistir ao menos até meados de abril, o que mantém o preço do petróleo em patamares elevados. Schneider observa que uma queda abaixo de US$ 100 dependeria de uma solução rápida para o conflito. “Para o preço do petróleo cair abaixo de US$ 100, precisa ter uma solução para a guerra, o que não parece ser o caso no curtíssimo prazo. Acho que não existe a expectativa que a guerra dure o ano todo por conta da importância do local”, disse.

No cenário internacional, o banco avalia que a inflação persistente nos Estados Unidos pode impedir cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) ao longo deste ano. Na quarta-feira (18), a autoridade monetária manteve a taxa básica entre 3,5% e 3,75%, reforçando a cautela diante do atual ambiente econômico.

“Acho que tem aumentado a chance do Fed não conseguir cortar os juros neste ano porque a inflação está alta”, afirmou Schneider. Ele também mencionou fatores estruturais, como o avanço da inteligência artificial, que pode impactar o mercado de trabalho e a dinâmica econômica global, embora ainda sem efeitos macroeconômicos relevantes observados até o momento.

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