HOME > Cultura

Um diário aberto sobre a Palestina e a memória ferida

Em livro publicado pela Cosac, Lena Bergstein une palavra, imagem e investigação histórica para refletir sobre a Nakba, o exílio e o silenciamento

Um Diário em Aberto - frontispício do livro (Foto: Frontispício do livro )
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - Em Um Diário em Aberto: Palestina, publicado neste ano pela Cosac Edições, Lena Bergstein estreia na ficção brasileira. O livro se apresenta como diário, ensaio, investigação histórica, caderno visual e escrita poética, compondo uma travessia intelectual e afetiva em torno da questão palestina. A autora, consagrada nas artes visuais, leva para a literatura uma linguagem marcada pela combinação entre palavra, desenho, fotografia e memória.

A força da obra está justamente nesse cruzamento de formas. Bergstein constrói um percurso de aproximação diante de uma história atravessada por expulsões, perdas e apagamentos. Inspirada por autores como Edward Said, Mahmoud Darwish e Emile Habiby, a autora busca compreender a Nakba de 1948, a destruição de vilas palestinas, a impossibilidade do retorno e as marcas deixadas por esse trauma coletivo oriundo de um crime continuado.

O livro ganha densidade particular porque parte da perspectiva de uma cidadã judia-brasileira, que distingue judaísmo, associado à lei e à fé, de judaicidade, entendida como cultura, pertencimento e experiência histórica, Bergstein propõe uma reflexão por meio de uma escrita que se aproxima de uma investigação moral sobre memória, responsabilidade e solidariedade, focando temas centrais, como : diáspora, silenciamento e deslocamento. 

A edição da Cosac parece dialogar diretamente com a trajetória visual de Lena Bergstein. A artista, que já teve reconhecimento no campo gráfico e editorial, inclusive com o Prêmio Jabuti por Enlouquecer o Subjétil, em parceria com Jacques Derrida, transfere para este livro uma experiência acumulada com imagem, superfície, traço e fragmento. Por isso, Um Diário em Aberto: Palestina não se limita à prosa: ele opera como objeto artístico, no qual o aspecto gráfico também participa da elaboração do sentido.

A apresentação de Silviano Santiago, que define o trabalho como extraordinário, ajuda a situar a obra em um campo mais amplo. Para ele, o livro supera o simples depoimento e se torna um gesto artístico e político. Essa leitura é precisa: Bergstein não pretende apenas narrar uma comoção pessoal, mas produzir uma intervenção estética sobre histórias frequentemente apagadas. Sua escrita dá forma a uma solidariedade que passa pela escuta, pelo estudo e pela recusa do esquecimento.

Um dos méritos do livro é evitar a simplificação. A autora se aproxima da Palestina pela via da memória e da dor histórica, mas também pela exigência de reflexão. O resultado é uma obra que combina delicadeza e rigor, sem abandonar a dimensão política de seu tema. A investigação da Nakba, o olhar sobre o povo palestino e a crítica ao apagamento de suas experiências aparecem como elementos estruturantes de uma literatura comprometida com a memória dos vencidos.

Como estreia literária, Um Diário em Aberto: Palestina revela uma autora já madura. A maturidade vem de sua trajetória anterior nas artes visuais, mas também de sua disposição de transformar pesquisa, leitura e inquietação em linguagem. Lena Bergstein constrói um livro que desafia fronteiras entre arte e literatura, testemunho e ficção, diário íntimo e documento histórico. É uma obra de impacto evidente: um convite à leitura da Palestina não como abstração geopolítica, mas como território de vidas, perdas, vozes e imagens que insistem em permanecer.

De origem judaica e escrevendo a partir de uma posição de reflexão ética sobre sua própria tradição, Lena Bergstein constrói uma obra de solidariedade ao povo palestino e de crítica ao regime de ocupação israelense. Seu livro não se limita à denúncia: transforma memória, pesquisa histórica e linguagem visual em uma tentativa de restituir voz a histórias marcadas pela expulsão, pelo exílio e pelo silenciamento.

O  livro contém uma crítica ao regime de ocupação israelense e às narrativas oficiais que ocultam ou minimizam a expulsão e o sofrimento palestino. Essa crítica, no entanto, não aparece como panfleto simplificador, mas como gesto artístico, ético e memorialístico. Silviano Santiago, responsável pela apresentação, afirma que o trabalho vai além do depoimento, do libelo, da prosa e da poesia, ultrapassando inclusive a vivência da autora como cidadã judia no Brasil e no mundo.

Sobre a autora

Lena Bergstein, nascida em 1946, é uma artista plástica brasileira cuja trajetória se desenvolveu inicialmente a partir da gravura em metal, linguagem que ela transformou em espaço de memória, inscrição e elaboração poética. Ao migrar para a pintura, manteve a palavra como elemento central de sua produção visual, construindo uma obra situada na fronteira entre imagem, escrita e pensamento crítico. Desde 1989, Bergstein dialoga com a obra de Jacques Derrida, relação que resultou no livro Enlouquecer o subjétil, publicado em 1998 e vencedor do Prêmio Jabuti em 1999 na categoria Produção Editorial. A autora também atua como professora e conferencista, refletindo sobre os vínculos entre arte, linguagem e escrita na história da arte.