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Sob Caiado, governo de Goiás pagou R$ 209 milhões a grupo ligado ao PCC

Governo de Goiás pagou R$ 209 milhões a empresas ligadas a investigado por suspeita de atuação com o PCC

Ronaldo Caiado (Foto: Wesley Costa / Flickr Governador Ronaldo Caiado)
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247 - O governo de Goiás pagou R$ 209 milhões a empresas ligadas a Thiago Telles Batista de Souza, empresário investigado por suspeita de atuação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), em contratos relacionados à área da saúde durante a gestão de Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência, relata Andreza Matais, do Metrópoles.

Os repasses ocorreram entre 2020 e 2025 por meio do Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (Imed), organização social contratada pelo governo goiano para administrar unidades de saúde. O instituto tinha como fornecedoras empresas vinculadas a Telles, apontado pela Polícia Civil de São Paulo (PC-SP) como “beneficiário final” de um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.

De acordo com a investigação, o esquema seria abastecido por recursos provenientes do tráfico de drogas, de jogos ilegais e de golpes contra consumidores. Telles foi alvo de busca e apreensão em dezembro passado, no âmbito da Operação Falso Mercúrio. A apuração teve novos desdobramentos na quinta-feira (28), com a Operação Falsa Las Vegas.

Apelidado de “Tom Cruise”, em referência ao ator do filme “Top Gun”, Thiago Telles teria comprado grandes volumes de dinheiro em espécie de intermediários da facção criminosa em período coincidente com seus contratos públicos, conforme o inquérito e documentos citados pela reportagem. A suspeita é que a prática permitisse a circulação de valores fora do alcance do Banco Central e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Em Goiás, os recursos públicos chegavam às empresas ligadas a Telles por meio da intermediação do Imed. O governo estadual contratava a organização social, que, por sua vez, terceirizava a gestão de hospitais e unidades de saúde para outras empresas. Entre 2019 e 2025, o Imed recebeu R$ 1,4 bilhão do estado de Goiás, de acordo com registros do Portal da Transparência citados pela reportagem.

Caiado culpa falta de alerta do governo federal

Em nota, Ronaldo Caiado afirmou que autoridades federais de controle deveriam ter informado o governo de Goiás sobre eventuais vínculos de fornecedores de organizações sociais contratadas pelo estado com o narcotráfico. O pré-candidato defendeu que o alerta poderia ter sido feito pelo Coaf aos órgãos estaduais de controle.

“Se essas pessoas têm vínculo com o narcotráfico, isso deveria ter sido preventivamente informado ao governo do Estado, já que apenas o Coaf do governo federal tem acesso a dados do sistema financeiro que permitiriam a identificação e a ação preventiva”, afirmou Caiado.

O posicionamento foi dado após a reportagem apontar que Caiado esteve em evento com empresário fornecedor de seu governo com vínculos investigados com o PCC. O pré-candidato disse que caberia ao governo federal prestar informações “para apontar quem tem problema ou não”.

Secretaria de Saúde diz que fornecedores são responsabilidade das OSs

A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) afirmou que os contratos firmados pela organização social se referem exclusivamente a serviços de apoio operacional e administrativo necessários ao funcionamento das unidades, como tecnologia da informação, fornecimento de insumos, suporte técnico e capacitação profissional.

“A contratação de fornecedores pelas Organizações Sociais é de responsabilidade exclusiva da entidade gestora, não dependendo de autorização prévia da Secretaria de Estado da Saúde. À SES-GO cabe fiscalizar rigorosamente a execução do contrato de gestão, o cumprimento de metas, indicadores de desempenho, qualidade da assistência prestada e a correta aplicação dos recursos públicos — atribuições exercidas permanentemente e com absoluto rigor técnico”, declarou a pasta.

A secretaria também afirmou que já encaminhou denúncias e informações a órgãos de controle e investigação em situações anteriores, contribuindo para a deflagração de operações policiais. Segundo a SES-GO, isso demonstraria “o compromisso da atual gestão com a transparência, o fortalecimento dos mecanismos de controle e a política de tolerância zero contra qualquer indício de irregularidade ou mau uso do dinheiro público”.

A pasta acrescentou que a SES-GO e a Controladoria-Geral do Estado mantêm monitoramento contínuo sobre os contratos de gestão em vigor. Desde 2023, segundo a secretaria, o governo ampliou a estrutura de fiscalização com a criação da Subsecretaria de Controle Interno e Compliance e com a atuação direta de um delegado da Polícia Civil no âmbito da pasta para apuração de suspeitas envolvendo recursos públicos.

Imed nega conhecimento de ilícitos

O Imed informou que os contratos de gestão hospitalar firmados com o estado foram precedidos de chamamento público e pautados por metas, indicadores e regras públicas verificáveis. A organização social também afirmou que suas contratações seguem processo de seleção pública previsto em regulamento aprovado pelos órgãos de controle.

“Toda contratação com terceiros obedece a processo de seleção pública, previsto em regulamento de compras aprovado pelos órgãos de controle – e se encontram disponibilizados nos portais oficiais de transparência”, declarou o instituto.

O Imed afirmou ainda não ter conhecimento de atos ilícitos eventualmente atribuídos a terceiros.

“O Imed não tem conhecimento de quaisquer atos ilícitos eventualmente atribuídos a terceiros. A relação do Imed com empresas fornecedoras de serviços médico-hospitalares,bem como com as pessoas mencionadas, sempre ocorreu estritamente no âmbito profissional”, disse a organização social.

O instituto também prestou esclarecimentos sobre a advogada Maria Caroline Lazarini Dias, citada pela reportagem. Segundo a nota, ela não seria dirigente de organização social.

“Por fim, esclarece-se que a advogada citada não é dirigente de qualquer organização social. A Caroline Dias é sócia do escritório de advocacia que atende juridicamente o Imed e, por consequência, atua nas várias unidades que o Imed administra. Em alguns casos ela aparece como Diretora Jurídica”, afirmou o Imed.

Empresas ligadas a Telles receberam mais de 10% dos repasses ao Imed

Com os recursos recebidos do governo de Goiás, o Imed contratou empresas para administrar oito hospitais e unidades de saúde no estado. Entre essas contratadas, firmas vinculadas a Thiago Telles receberam R$ 209 milhões, valor superior a 10% do total pago pelo governo goiano ao instituto.

Os dados públicos citados pela reportagem indicam que o dinheiro abasteceu empresas do investigado por suspeita de vínculo com o PCC e também uma firma em nome de Maria Caroline Lazarini, apontada pelo Imed como sócia do escritório de advocacia que atende juridicamente a organização.

Caiado fez elogios públicos ao Imed em diferentes ocasiões. Em maio de 2021, durante visita ao Hospital de Formosa (GO), a cerca de 80 quilômetros de Brasília (DF), administrado pela entidade, o então governador agradeceu à organização social pela atuação na unidade.

“Agradeço a toda a minha equipe e, principalmente, à administração do Imed, que, como organização social, veio com o objetivo de mostrar que podíamos fazer bem e atender à população”, afirmou Caiado na ocasião. No mesmo evento, Maria Caroline Lazarini disse que o governador tinha “visão de futuro”.

Thiago Telles e TL2 Soluções não prestaram esclarecimentos

O empresário Thiago Telles e a empresa TL2 Soluções não prestaram esclarecimentos. As demais empresas citadas apresentaram respostas negando irregularidades ou afirmando que atuam conforme normas legais e regulatórias.

L2D Telemedicina afirma cumprir critérios técnicos e legais

A L2D Telemedicina afirmou atuar há mais de dez anos no mercado de saúde, com soluções em telemedicina, telediagnóstico e suporte remoto para hospitais e unidades públicas e privadas no Brasil e no exterior. A empresa declarou que todos os seus contratos seguem critérios técnicos e legais.

“A empresa esclarece que todos os seus contratos seguem critérios técnicos e legais de acordo com as normas pertinentes”, afirmou a L2D.

A companhia disse que os procedimentos mencionados pela reportagem tramitam sob segredo de Justiça e que a defesa ainda não teve acesso à íntegra dos autos.

“Sem conhecer o teor integral das apurações e os documentos que as embasam, não é possível, neste momento, prestar esclarecimentos sobre fatos, datas e valores específicos”, declarou.

A L2D também negou ter praticado atos que comprometam sua atuação institucional ou sua reputação profissional.

“A L2D reforça, ainda, que não praticou atos que comprometam sua atuação institucional ou sua reputação profissional e que, portanto, nada tem a esclarecer sobre o exposto em suas perguntas. A companhia segue prestando serviços na área da saúde com foco na qualidade assistencial, inovação tecnológica e segurança no atendimento aos pacientes. Tão logo assegurado o acesso ao conteúdo dos procedimentos, a defesa se manifestará pelos meios adequados”, afirmou.

Medplus nega ato ilícito e relação com Caiado

A Medplus Serviços Médicos afirmou atuar na prestação de serviços médicos para unidades de saúde em diversas regiões do país, incluindo Goiás, e disse manter suas atividades em conformidade com as normas legais e regulatórias do setor.

A empresa declarou que seus contratos com o poder público seguem processos formais de contratação, com critérios técnicos definidos, e estão disponíveis nos portais oficiais de transparência.

“É importante salientar que a empresa não praticou nenhum ato ilícito e pauta sua atuação seguindo rigorosamente os princípios legais vigentes”, afirmou a Medplus.

A empresa também disse que sua relação com a advogada mencionada é profissional e negou qualquer relação com Caiado.

“Destacamos que a relação com a advogada mencionada é de natureza estritamente profissional. Já com o governador Ronaldo Caiado esclarecemos que não existe nenhuma relação, nem pessoal e nem comercial”, declarou.

Medic360 diz não integrar investigação

A Medic360 Serviços Médicos afirmou que não integra investigação, não é alvo de apuração por órgãos de controle e não tem conhecimento de eventual envolvimento ilícito de empresas ou pessoas citadas nos questionamentos encaminhados pela reportagem.

“A Medic360 esclarece que não integra qualquer investigação, não é alvo de apuração por órgãos de controle e não possui conhecimento sobre eventual envolvimento ilícito de empresas ou pessoas citadas no e-mail encaminhado à companhia”, disse a empresa.

A companhia também afirmou que sua atuação é pautada pela legalidade e que os contratos firmados seguem processos formais por meio de termos de referência e critérios técnicos.

“A Medic360 atua regularmente no segmento de serviços médicos e mantém suas operações alinhadas às normas legais, regulatórias e administrativas do setor, sem qualquer relação com os fatos mencionados nos questionamentos encaminhados pela reportagem”, declarou.

Polícia aponta risco institucional em contratos públicos

As investigações da Polícia Civil de São Paulo apontam que empresas ligadas a Thiago Telles, além de serem suspeitas de atuação em lavagem de dinheiro do crime organizado, mantinham contratos com órgãos públicos paulistas, incluindo prefeituras.

Em relatório citado pela reportagem, a polícia afirmou que a presença de empresas sob suspeita entre contratadas do poder público representa risco institucional.

“A presença de empresas sob forte suspeita de crimes e movimentações atípicas no rol de contratadas pelo poder público representa grave risco institucional, pois abre possibilidade concreta de que recursos estatais sejam desviados e utilizados como mecanismo de integração de capitais ilícitos”, diz o relatório.

O documento também aponta possíveis efeitos sobre a lisura dos processos licitatórios e a transparência da administração pública.

“A participação dessas empresas em processos licitatórios compromete a lisura dos certames, fragiliza a transparência da gestão pública e expõe a administração a riscos de inexecução contratual e danos ao erário”, afirma o relatório.

O caso envolve repasses públicos na área da saúde em Goiás, contratos de organizações sociais, empresas fornecedoras citadas em investigação policial e posicionamentos de autoridades, entidades e companhias que negam irregularidades ou afirmam não ter conhecimento dos fatos investigados.

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