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'Família em conserva' no carnaval amplia desgaste de Lula com evangélicos

PT tenta conter crise após desfile da Acadêmicos de Niterói e bancada evangélica intensifica críticas ao presidente Lula

Desfile da Acadêmicos de Niterói (Foto: Ricardo Stuckert)

247 - O desfile da Acadêmicos de Niterói no domingo (15), com homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desencadeou forte repercussão política ao exibir uma ala que ironizava grupos conservadores, incluindo religiosos evangélicos. A apresentação passou a ser explorada por parlamentares ligados à bancada evangélica e gerou questionamentos na Justiça Eleitoral por suposta propaganda antecipada. A controvérsia ampliou a tensão entre o governo federal e um dos segmentos mais resistentes ao presidente, informa o jornal O Globo.

A polêmica se concentrou na ala intitulada “Neoconservadores em conserva”, que trouxe integrantes caracterizados como famílias dentro de latas, algumas com referências religiosas. As imagens circularam amplamente nas redes sociais, impulsionadas por lideranças da direita, que divulgaram montagens e criações com uso de inteligência artificial, enquanto parlamentares anunciaram intenção de judicializar o episódio.

De acordo com pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês, a desaprovação de Lula entre evangélicos é de 61%, enquanto 34% aprovam a gestão. No cenário geral, o governo registra 49% de avaliação negativa e 45% de positiva, o que reforça o peso político do segmento religioso.

No programa oficial, a escola descreveu que a ala representava grupos que levantam a “bandeira do neoconservadorismo”, citando “os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos”, que, segundo o texto, “no Congresso, formam um bloco conservador”.

Planalto avalia impacto como "catastrófico"

Segundo Lauro Jardim, de O Globo, pesquisas e levantamentos internos aos quais o Palácio do Planalto teve acesso indicam que o impacto do desfile foi considerado altamente negativo para o presidente. A avaliação interna é de que o episódio prejudicou esforços de aproximação com o eleitorado evangélico.

Integrantes do governo classificaram o efeito como “catastrófico”. Um líder petista afirmou reservadamente que “todo um trabalho de aproximação com os evangélicos foi jogado fora”.

Um ministro de Lula avaliou que a ala polêmica seria a “prova de que o governo não teve qualquer interferência na concepção do desfile”, indicando tentativa de afastar o Planalto da responsabilidade sobre o conteúdo apresentado pela escola.

Deputado aliado vê prejuízo na aproximação

Integrante da Bancada Evangélica na Câmara, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) afirmou que o desfile pode ter prejudicado a estratégia de diálogo com os fiéis. “Fica difícil convencer o eleitorado de que o entorno do presidente não sabia das fantasias, que atacaram os conservadores, os cristãos e a família”, declarou.

Ele também questionou o impacto eleitoral da associação com a escola: “Quantos eleitores dele que são conservadores, cristãos, que ele assustou se associando à escola de samba? Eles atacaram tudo aquilo que boa parte do povo brasileiro acredita como coisas fundamentais. Foi um desastre total”, afirmou.

Na sequência, acrescentou: “Esse movimento provocado pela arrogância do PT ultrapassa a bolha bolsonarista. E isso é ruim para a igreja, porque voltam a endeusar a família Bolsonaro como se fossem enviados de Deus, e demoniza-se Lula como se ele fosse um representante do capeta na Terra".

Escola fala em perseguição; PT defende autonomia

Procurada pelo O Globo, a Acadêmicos de Niterói não respondeu diretamente às críticas. Após o desfile, divulgou nota afirmando: “Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos e enfrentamos setores conservadores".

Diante da repercussão, o PT iniciou movimento para reduzir a tensão. O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, declarou: “A Acadêmicos de Niterói teve e tem autonomia para definir seu enredo e suas alegorias, tentar utilizar uma construção da escola para atacar o presidente Lula chega a ser ridículo; todos sabem do respeito que ele tem pela comunidade evangélica, e pelas suas lideranças".

Em nota anterior, o partido já havia afirmado que o enredo representa “uma manifestação típica da liberdade de expressão artística e cultural” e que o desfile foi organizado de forma “autônoma”, sem pedido de votos que configurasse propaganda antecipada.

Contexto recente de tensão com evangélicos

O episódio ocorre dias após denúncia protocolada na Procuradoria-Geral da República (PGR) pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, pastor da Assembleia de Deus. O parlamentar criticou declaração de Lula em evento do PT, quando o presidente afirmou que “90%” dos evangélicos recebem benefícios do governo. Para Sóstenes, a fala tratou fiéis como “curral eleitoral”.

O professor da USP e autor de História do PT, Lincoln Secco, avalia que a dificuldade de diálogo do partido com o universo evangélico é estrutural. “O PT tem um problema que é combinar a defesa de minorias e a atração dos evangélicos, que são conservadores. O único caminho é pelas pautas sociais e econômicas. Os adversários colam uma imagem negativa no partido sempre que cometem essas derrapagens”, afirmou.

Ao longo do mandato, Lula tem promovido encontros com lideranças religiosas, sancionado propostas de interesse do segmento e indicado o advogado-geral da União, Jorge Messias, como interlocutor do Planalto junto a esse público, inclusive ao indicá-lo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em outubro, o presidente reconheceu dificuldades na relação e declarou que os evangélicos “não são contra nós (esquerda)”.

A repercussão do desfile, no entanto, reacende um dos pontos mais sensíveis da estratégia política do governo e expõe os desafios para reduzir a resistência em um eleitorado considerado decisivo no cenário nacional.

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