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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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Preconceito social

Entre olhares atravessados e endereços envergonhados, o texto expõe como raça, roupa e bairro revelam o preconceito social cotidiano

Preconceito social (Foto: Divulgação )

Conversando no café da manhã com Francêsca, descobrimos pontos em comum. Algumas das nossas melhores conversas ocorrem no café da manhã ou num bar, no Peneira de preferência. Mas as conversas no bar às vezes são segredos de Estado, de tão sérias e fundamentais. 

Mas no café desta manhã, conversávamos sobre preconceitos de raça, de cor e social. Então ela se lembrou de que ela, pessoa de pele clara, muitas vezes sentia olhares atravessados, de desprezo pelas roupas que vestia, quando estava em lugares que a sociedade de classes não recomenda aos pobres. Os olhares para ela queriam dizer: “O que você faz aqui? Como se atreve?”. Eram aqueles mesmos primeiros olhares que as pessoas da classe média dirigem aos negros quando os encontram, ou melhor, quando são vistos de repente no mesmo lugar que os bem-nascidos. No shopping, no avião, nos restaurantes bacanas, no caso dos negros os olhares vêm acompanhados do medo que significa “Cuidado! Olhem o assalto!”. 

Eu próprio, quando era professor particular de matemática, recebi o insulto em forma de estranheza. Certa vez, ao me dirigir ao apartamento de um engenheiro, dono de construtora, na portaria recebi do porteiro, ao lhe informar que ia ao apartamento do poderoso. E o porteiro: 

- É o homem do gás?

E eu não carregava botijões. 

E volto à nossa conversa de hoje de manhã. Com Francêsca ocorreu o preconceito também social, quando ela revelava o lugar onde morava: Prazeres, Rio Doce... Os companheiros de trabalho estranhavam a origem da colega que morava no fim do mundo, e não reprimiam o comentário: “Prazeres?!”. Oh, que dor, poderiam acrescentar. 

Daí que lembrei o quanto no Recife as pessoas mudavam de bairro quando se referiam ao lugar onde moravam. Quem morava em Brasília Teimosa, dizia que morava no Pina. Quem era do Pina, dizia ser de Boa Viagem. Assim também os moradores da Imbiribeira, que se transferiam para Boa Viagem. Tudo era praia. Quanto a mim, que morava em Água Fria, o meu bairro inesquecível, porque ali se fez toda a minha formação intelectual e afetiva, sempre senti a reação que seria o mesmo que dizer “por que não diz que mora na Encruzilhada ou no Arruda?!”. Eu sentia, mas não era atingido, tamanho era o meu amor pela origem social que dignifica a gente. Era como se estivesse protegido com as armas de Jorge da Capadócia.  

É claro que o fenômeno de mudança do bairro onde se mora, sempre para um espaço de melhor status social, não é exclusivo do Recife. Então na conversa lembrei do amigo Otaciel, que chamávamos de Bocage. Ele, formado no Recife, mas professor da Universidade Federal do Ceará, dizia sobre o crescimento de um bairro tido como de elite:  

- Aldeota é o maior bairro do mundo! Aldeota ainda vai engolir Fortaleza! 

Por fim, como expressão do que nos forma, vem o caso de um professor da UFPE, que fez seu doutorado nos Estados Unidos. Ali, quase era atropelado por um carro. Na hora da morte, pulou de lado e gritou em português, lembrando o seu bairro no Recife:

- Lugar é Bibiribe! 

Ainda bem que os trumpistas do tempo não o entenderam.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.