Porque incluir a fonte nuclear nas discussões sobre transição energética
Reimont defende conclusão de Angra 3 e propõe debate nacional
O Brasil precisa encarar com urgência o debate sobre o papel da energia nuclear como fonte de soberania, desenvolvimento tecnológico, energia limpa e sustentável, aceleração de soluções médicas avançadas e fortalecimento da independência nacional.
O conhecimento e o domínio da tecnologia nuclear interessam não apenas ao desenvolvimento econômico e industrial do país, como têm impactos estratégicos no bem-estar da sociedade e são cruciais para a soberania nacional. Países que detêm o domínio do ciclo nuclear constroem alicerces sólidos para sustentar a autonomia essencial para barrar pressões externas historicamente conhecidas.
A preocupação com uma transição energética eficiente e segura tem protagonizado os debates no governo Lula. Nesse caminho, a energia nuclear merece toda a atenção.
A fonte pode ser uma importante resposta para as urgências e para as necessidades que a crise climática vem impondo ao mundo. O fato de não lançar gases poluentes na atmosfera tem sido um dos mais fortes argumentos a favor.
O nosso governo sabe disso e, com essa perspectiva, retomou a agenda nuclear, o que inclui a assinatura de acordos internacionais de cooperação, como os assinados no ano passado, com a França.
Recentemente, o Brasil passou a integrar o maior centro de física do mundo. Após 14 anos de negociações, nos tornamos o primeiro país latino-americano a entrar para a Organização Europeia para a Investigação Nuclear, conhecida como CERN, como membro-associado. Na área de pesquisa e desenvolvimento, a academia tem contribuído intensivamente, como nos convênios e estudos da UFRJ.
Mas ainda precisamos avançar em pontos como a conclusão de Angra 3. Com 60% das obras já finalizadas, a construção da unidade está parada há 10 anos, gerando gastos anuais de cerca de R$ 1 bilhão, em manutenção e outras despesas correlatas.
No local, vive-se uma situação bizarra.
Terceira unidade da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, no Rio de Janeiro, Angra 3 tem potencial de gerar 12 milhões de megawatts-hora, por ano, suficiente para atender 4,5 milhões de pessoas. Hoje, a unidade mantém cerca de 400 empregos, mas, se a obra for retomada, pode chegar a 3.500 trabalhadores.
Segundo a Eletronuclear, o projeto necessitaria de mais R$ 20 bilhões para ser concluído e entrar em operação até 2029/ 30.
Por outro lado, para fechar a unidade, haverá necessidade de investimentos também pesados, da ordem de R$13,6 bilhões de reais, envolvendo rescisão de diferentes contratos, desmobilização da parte construída, limpeza do ambiente, compensações ambientais e renúncias fiscais.
A busca por maior segurança certamente é um ponto indispensável neste debate, que deverá envolver investimentos e pesquisas na busca das melhores soluções para pontos sensíveis, como a gestão dos resíduos nucleares, altamente radioativos e com longos períodos de decomposição. Universidades, institutos de pesquisa e iniciativa privada devem ter assento na mesa de discussões, em torno de um projeto público soberano e de empresas estratégicas como a Eletronuclear, a INB/Indústrias Nucleares do Brasil e a Nuclep/ Nuclebras Equipamentos Pesados.
Eletronuclear, INB e Nuclep constituem um sistema indivisível, que precisa ser fortalecido por um programa nuclear convergente, que também assegure a valorização e a retenção dos nossos talentos, neste setor que depende de profissionais altamente especializados e de cadeias produtivas sensíveis ao interesse nacional.
Acredito que a transição energética do Brasil precisa incluir uma base nuclear sólida, estável e respeitada, para que possamos avançar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



