Pernambuco como nação ou a construção de mais um mito
O mito da conciliação em Pernambuco e suas contradições históricas
A nossa terra é pródiga na construção de mitos. Pelo fato de ser muito antiga e palco de muitas insurreições, deu origem a uma epopeia civilizatória coberta de glórias e louvações.
Muitos ideólogos tentaram moldar essa nossa identidade, através de narrativas que se contracenam ao "self-made man" do bandeirantismo dos paulistas. O discurso do hibridismo racial e das relações mais ou menos cordiais entre senhores e escravos ajudou muito a criar um paraíso de brincantes e píncaros, onde facilmente se desenvolveu a ideia de uma sociedade lúdica e emoliente, próxima da concórdia e da harmonia e ser exemplo para o mundo. O Carnaval se apresentou naturalmente como tal modelo, onde ilusoriamente as diferenças sociais desaparecem e todos se dão as mãos para sambar.
Na embriaguez do frevo e da folia. O que chama a atenção é o outro lado sombrio do padrão de violência, poder e impunidade e a formação das oligarquias familiares de políticas tradicionais, embora repaginadas socialmente.
Podemos conviver com esses dois lados e construir a ideia de que vivemos num mundo e numa cultura à parte. Os contrários se sentam à mesa e esquecem essas diferenças. A carnavalização da política representa esse mundo paradoxal, onde os desiguais se igualam na folia, se tratam como iguais ou como.
Nobres e vassalos, em perfeita harmonia. A ideia de Pernambuco como nação naturaliza e apazigua as diferenças, produzindo uma ideologia da conciliação entre classes e raças. A nação Pernambuco tem lugar para todos, pelo menos até a quarta-feira de cinzas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



