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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Parem de falar em dinheiro para filme

O tema é dinheiro. De onde saiu. Por onde passou. E onde foi parar

Cartaz do filme Dark Horse- Jair Bolsonaro-Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro (Foto: Dark Horse-Flávio Bolsonaro-Jair Bolsoanro (Foto: Divulgação/Jair Bolsonaro/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Flávio Bolsonaro/Adriano Machado/Reuters/Daniel Vorcaro/Reprodução/ Montagem/IA Dall-e))
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Existe uma regra elementar em qualquer investigação séria: siga o dinheiro. Não siga a cortina de fumaça, não siga a versão combinada em grupo de WhatsApp, não siga a narrativa fabricada para redes sociais. Siga o dinheiro. E, quando seguimos o dinheiro no escândalo envolvendo o clã Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, a conversa sobre “filme” começa a parecer menos uma explicação e mais um roteiro mal escrito.


Durante dias, militantes profissionais e desavisados digitais repetiram como papagaios a mesma ladainha: “era dinheiro para produção audiovisual”, “era para filmagem”, “era um projeto de mídia”. Curioso. Porque tudo foi filmado aqui, produzido aqui, gravado aqui. Mas o dinheiro, ao que tudo indica, fez turismo internacional. O dinheiro foi para lá. Follow the money.


A velha desculpa do “audiovisual” serve como biombo para esconder algo muito mais incômodo: a impressionante coincidência entre a circulação de recursos, a vida nababesca de certos personagens fugitivos e a montagem de uma estrutura política instalada a partir dos Estados Unidos. Enquanto a militância tenta convencer o público de que estamos diante de cineastas incompreendidos, surgem mansões milionárias no Texas, despesas incompatíveis, redes de proteção financeira e uma confortável vida americana bancada, sabe-se lá exatamente por quais “produtoras culturais”.


Eis o ponto central que muitos fingem não perceber: ninguém está discutindo cinema. O debate real é sobre origem, destino e finalidade do dinheiro. Porque quando uma operação financeira atravessa fronteiras, encontra paraísos de opacidade e coincide com movimentações políticas, o cheiro deixa de ser de pipoca de cinema e passa a lembrar lavanderia industrial.


A extrema-direita brasileira criou uma curiosa estética da vitimização milionária. São perseguidos que vivem em condomínios de luxo. Exilados que frequentam mansões. Patriotas que transferem patrimônio e estabilidade para fora do país enquanto inflam seguidores pobres a “resistirem” aqui dentro. O sacrifício, como sempre, é terceirizado para os outros.


E parte da imprensa ainda alimenta esse teatro. Alguns por preguiça intelectual; outros por medo; outros porque aprenderam que tratar escândalos financeiros da família Bolsonaro com excesso de profundidade costuma render ataques coordenados. Então preferem simplificar tudo em manchetes frouxas sobre “dinheiro para filme”, como se estivéssemos discutindo edital da Ancine e não relações perigosas entre poder político, sistema financeiro e proteção global de patrimônio.


A pergunta que precisa ser repetida é simples: se era apenas dinheiro para produção de conteúdo, por que os rastros apontam para estruturas pessoais no exterior? Por que o padrão de vida cresce tão rapidamente? Por que aparecem conexões financeiras tão nebulosas? E por que sempre existe um banqueiro amigo, um operador discreto ou um empresário patriota disposto a “ajudar”?


O Brasil já viu esse filme antes. Aliás, esse sim é um filme nacional clássico: empresários financiando projetos de poder, políticos usando influência para abrir portas financeiras e uma legião de fanáticos encarregada de espalhar versões convenientes nas redes sociais.


Por isso, parem de falar em “dinheiro para filme”. Isso não esclarece nada. Isso apenas infantiliza o debate. O tema nunca foi cinema. O tema é dinheiro. De onde saiu. Por onde passou. E onde foi parar.

Porque, no fim, a câmera pode até estar aqui. Mas a conta parece estar lá fora.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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