Paradoxo geopolítico de Trump
A política comercial americana passa a operar sob lógica de dissuasão: mesmo quando juridicamente fragilizada
247 - A decisão de Donald Trump de substituir parte de sua política tarifária, considerada ilegal pela Supreme Court dos EUA, por uma tarifa global uniforme de 15% produziu um efeito paradoxal: países duramente criticados pela Casa Branca, como Brasil e China, tornaram-se os maiores beneficiários relativos do novo regime.
Segundo levantamento da Global Trade Alert, o Brasil registra a maior redução na tarifa média ponderada aplicada às suas exportações para os EUA: queda de 13,6 pontos percentuais. A China aparece em seguida, com redução de 7,1 pontos. Em contraste, aliados tradicionais dos EUA - como Reino Unido, União Europeia e Japão - enfrentam aumentos marginais.
O dado é politicamente eloquente. O Brasil, que chegou a enfrentar tarifas que alcançavam 40% ou 50% sobre determinados produtos, passa a operar sob um regime significativamente mais brando. Produtos agrícolas estratégicos - como café, carne bovina e frutas - já haviam obtido suspensões parciais; agora, a tarifa uniforme representa, comparativamente, uma melhora relevante.
O presidente Lula reagiu com cautela, afirmando estar “aliviado por não ter se precipitado”. A leitura é pragmática: a volatilidade jurídica e política da política comercial da era Trump recomenda prudência.
O maior prejudicado proporcionalmente é o Reino Unido, cuja tarifa média sobe 2,1 pontos percentuais. A União Europeia enfrenta aumento de 0,8 ponto percentual, com países como Itália e França particularmente expostos quando consideradas categorias antes isentas.
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, observou que o custo das tarifas tende a recair sobre importadores e consumidores americanos - uma lembrança de que o protecionismo não é isento de efeitos domésticos.
A tensão atinge também o chamado Acordo de Turnberry entre EUA e UE, cuja ratificação enfrenta questionamentos no Parlamento Europeu.
A decisão da Suprema Corte invalidou tarifas impostas com base na IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional). Trump reagiu rapidamente, recorrendo à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para impor tarifa de 10% - elevada para 15% - válida por 150 dias sem aprovação do Congresso.
Analistas como Simon Evenett argumentam que a alavancagem americana não diminuiu; apenas mudou de instrumento. A possibilidade de novas investigações sob a Seção 301 mantém parceiros comerciais sob pressão permanente.
Ou seja: o regime atual é transitório e estrategicamente ambíguo. Trata-se menos de estabilização e mais de reorganização do poder de barganha.
O segundo conteúdo analisado reforça essa leitura. Apesar da decisão judicial, governos dificilmente romperão acordos firmados com Washington. O receio de retaliações em setores sensíveis - aço, automóveis, semicondutores - e em áreas extracomerciais, como defesa e segurança, atua como freio.
A política comercial americana passa a operar sob lógica de dissuasão: mesmo quando juridicamente fragilizada, mantém capacidade coercitiva por meio de múltiplos instrumentos legais (Seções 232 e 301).
O paradoxo é evidente. Países acusados de práticas desleais ou superávits excessivos - Brasil, China, Vietnã - acabam proporcionalmente beneficiados. Já aliados históricos, cujas exportações concentram-se em setores já tarifados (aço, alumínio, automóveis), sofrem maior impacto.
Isso sugere que a política comercial de Trump não é meramente econômica, mas geopolítica: busca redefinir hierarquias e forçar renegociações contínuas, mantendo todos os parceiros em estado de incerteza calculada.
Para o Brasil, o momento é de oportunidade cautelosa. A redução tarifária melhora competitividade relativa, mas o horizonte permanece volátil. O regime é temporário (150 dias) e sujeito a novas reconfigurações legislativas ou judiciais.
No tabuleiro global, o que se vê não é o fim da guerra comercial, mas sua metamorfose: menos baseada em decretos emergenciais amplos e mais estruturada em instrumentos legais fragmentados, porém igualmente eficazes como mecanismos de pressão.
O comércio internacional, sob Trump, deixa de ser arena de previsibilidade normativa e transforma-se em instrumento permanente de negociação estratégica. O jogo não terminou - apenas começou de novo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



