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Financial Times vê estado mental de Trump como risco global

Jornal britânico afirma que postura do presidente dos Estados Unidos amplia instabilidade geopolítica e pressiona instituições democráticas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 20 de fevereiro de 2026 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

247 - A atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa um fator de risco para a estabilidade internacional, na avaliação do jornal britânico Financial Times. Em análise publicada nesta terça-feira (24), o veículo sustenta que o comportamento e as decisões do mandatário ampliam incertezas geopolíticas e podem gerar impactos que ultrapassam as fronteiras norte-americanas.

O Financial Times argumenta que, embora psiquiatras norte-americanos evitem comentar publicamente a saúde mental de figuras públicas desde a chamada “regra Goldwater”, criada nos anos 1970, a conduta de Trump levanta questionamentos entre observadores. O jornal afirma que, enquanto o presidente prepara uma mobilização militar dos Estados Unidos no Oriente Médio sem detalhar claramente seus objetivos, uma avaliação honesta dos riscos globais deveria considerar sua psicologia como elemento central.

Segundo a publicação, mentiras frequentes não configuram, por si só, prova de irracionalidade. No entanto, o problema se agrava quando auxiliares e aliados passam a reforçar essas versões, criando um ambiente no qual o presidente pode acreditar nas próprias afirmações. O texto destaca que líderes estrangeiros têm recorrido à exaltação pessoal como forma de influência. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, descreveu Trump como um “papai” que estaria tomando atitudes firmes para proteger a família — gesto interpretado pelo jornal como tentativa de alimentar sua vaidade para direcionar decisões.

No plano interno, o artigo aponta que integrantes do governo competem em elogios públicos. A procuradora-geral Pam Bondi declarou que Trump é “o maior presidente da história dos Estados Unidos”. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, afirmou que ele inaugurou “uma era de ouro americana”. Já o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ao comentar uma operação na Venezuela, classificou a ação como “a operação militar mais poderosa, eu diria, da história mundial”. Para o Financial Times, declarações desse tipo substituem avaliações técnicas realistas por demonstrações de lealdade.

O jornal também destaca reveses institucionais enfrentados pelo presidente. Na sexta-feira (data não informada no texto original), a Suprema Corte decidiu por seis votos a três invalidar a maior parte das tarifas impostas pelo governo. Em reação, Trump chamou dois ministros indicados por ele próprio, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, de “desleais” e “antipatrióticos”, além de insinuar influência estrangeira sobre ambos.

Outro foco de tensão envolve o Federal Reserve. No mês passado (data não especificada), o presidente do banco central, Jerome Powell, fez um pronunciamento público em defesa da independência da instituição após o Departamento de Justiça ameaçá-lo com acusação criminal relacionada a custos de reforma da sede da entidade. O Financial Times avalia que, mesmo com a possível substituição de Powell por Kevin Warsh, não há garantia de alinhamento automático com a Casa Branca, especialmente diante da pressão inflacionária.

A política migratória também enfrenta resistência crescente. Agentes do serviço de imigração (ICE) têm sido alvo de desconfiança pública, enquanto tribunais e organizações civis impõem obstáculos aos planos de deportação. A Suprema Corte deverá analisar, nas próximas semanas, a contestação do governo ao direito à cidadania por nascimento.

Ao mencionar a chamada “regra Taco” — sigla em inglês para a ideia de que “Trump sempre recua” — o jornal reconhece que o presidente tende a retroceder quando enfrenta forças institucionais robustas. Ainda assim, conclui que a combinação entre vaidade, estímulo constante por parte de aliados e decisões de alto impacto estratégico configura um risco que, segundo a análise, não se limita aos Estados Unidos, mas alcança a ordem internacional.

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