O assassinato de Maria Paula Menezes e o “feminismo” da morte!!!
Maria Paula Menezes não morreu, foi assassinada pelas mulheres brancas, racistas a quem ela tanto defendeu
Em 2014 conheci Maria Paula Menezes quando fazia o pós-doutorado no Centro de Estudos Sociais (CES) em Coimbra, Portugal. Solicitei-lhe gentilmente que me concedesse uma entrevista para minha pesquisa — e passamos uma tarde juntos — que me valeu lições de uma vida. Naquela oportunidade, ela me dizia sobre como entendia os estudos africanos na qualidade de intelectual africana [moçambicana]; foi quando perguntei como se entendia como mulher [negra], e ela me respondeu com um questionamento sobre a [in]capacidade dos intelectuais brasileiros de falarem “de” África, de forma romântica, mas não se solidarizarem com os africanos. De lá para cá passei a admirá-la, respeitá-la e me referenciar na sua sabedoria e ensinamentos, dessa que leio como uma das mais importantes pensadoras africanas do século XX/XXI, e uma das principais responsáveis intelectuais por um dos principais centros de pesquisa europeus e mundiais: o CES.
Ao longo de mais de uma década fui vítima de uma organização criminosa instalada nas universidades brasileiras, formada por racistas que tomaram de assalto a administração superior de algumas destas instituições, o que me adoeceu profundamente, e quase me levou à morte [assassinato]. Maria Paula Menezes — como a minha querida amiga Marina Mello — tornou-se uma das minhas principais confidentes.
No período mais recente, recebi uma ligação de uma amiga de Portugal: era Maria Paula Menezes. Queria saber como eu suportei a violência vivida aqui no Brasil, pois estava vivendo uma violência de grande proporção em Portugal, no espaço acadêmico pelo qual tanto lutou — o CES. Naquela oportunidade ratifiquei a minha admiração, respeito e consideração que tinha por ela, mas também disse-lhe de como ela foi cega em face de uma questão central que identifiquei desde o início no CES: uma instituição que desenvolveu estudos inéditos sobre o racismo na Europa e acolheu diversos investigadores antirracistas do sul global — mas que é uma instituição ocupada por diversos/as investigadores/as racistas, que tolerava-a, mas nunca a respeitariam como um/uma deles/delas, pois a viam como uma mulher, negra, africana, e deste lugar, representava uma afronta às mulheres brancas, europeias [racistas], que fariam tudo para destruí-la.
Nessa oportunidade disse-lhe ainda que as acusações em face de Boaventura de Sousa Santos, formuladas pelo grupo de mulheres brancas e racistas, tinham como principal objetivo atingi-la - a ela, Maria Paula Menezes, mulher, negra africana e a Bruno Sena Martins, homem, negro, africano -, pois enquanto Boaventura estivesse à frente da instituição, utilizaria todo seu prestígio para defendê-los, pois sempre teve muito apreço, respeito e consideração por eles e por suas trajetórias; e, portanto, a única forma de atingi-los — Maria Paula e Bruno — de forma mortal, era derrubar Boaventura onde não teria como se levantar: atacando-lhe a moral no campo da sexualidade. Ela me disse com muita humildade que somente naquele momento, conversando comigo, havia percebido o que nunca havia entendido antes.
Lembrei-a que na conversa que tivemos em 2014 ela havia insistido que eu trabalhasse junto com uma pesquisadora branca, europeia do CES, a quem considerava amiga e depositava muita confiança. Naquela oportunidade relatei as situações de racismo de que fui vítima por parte da referida pesquisadora, e que não trabalharia com uma pessoa racista. Ela relativizou, e manteve o foco nos elogios à referida pesquisadora, que se autodenominava “a protegida de Boaventura e de Maria Paula”. Na conversa recente alertei-a que a referida pesquisadora era a principal arquiteta daquilo que era um movimento interno de disputa pelo poder no CES, com vistas à sucessão do legado e prestígio de Boaventura de Sousa Santos, no qual era preciso eliminar dois “empecilhos” na visão desse grupo de racistas: uma mulher, negra, africana e um homem, negro, africano, que eram da total confiança daquele de quem dizia-se pelos corredores do CES “não se podia falar o nome” — o Bartolomeu.
Disse à minha amiga Maria Paula Menezes — mulher, negra, africana — que queria muito ir a Portugal, dar-lhe um abraço de solidariedade, essa que muito me ensinou sobre solidariedade internacional aos/às nossos/as irmãos/irmãs africanos; e que muito aprendeu comigo sobre negritude e racismo, dimensões invisibilizadas na sua sólida formação adquirida nas instituições africanas, da Europa e da antiga União Soviética. No encerrar do ano de 2025 tive a oportunidade de estar pela última vez com a minha amiga, e levar-lhe o meu prometido abraço de solidariedade; não sabia, contudo, que aquela seria a nossa despedida.
Desde quando soube da sua passagem, num domingo de inverno europeu e verão nas américas, fui tomado por um sentimento profundo de tristeza e revolta que me imobilizou. Não consegui responder à minha amiga Marina, e tampouco aos demais que de imediato me procuraram. O silêncio no luto foi meu companheiro.
Hoje, levanto-me desse lugar de tristeza-revolta-luto para dizer: Maria Paula Menezes não morreu, foi ASSASSINADA pelas mulheres brancas, racistas [europeias e eurocêntricas] a quem ela tanto defendeu, em função de um projeto de poder, violência e subjugo. Mas ela vive em nós, negros, africanos — em África ou nas suas diásporas — e nas mulheres e homens comprometidos com uma sociedade antirracista, antipatriarcado e pós-colonial, para além do eurocentrismo, do racismo e do patriarcado.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



