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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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"Narcisismo maligno" e um Trump em "declínio cognitivo"

New York Times acende alerta inédito — e análises convergem para um diagnóstico cada vez mais explícito sobre a possível insanidade do presidente

Donald Trump (Foto: Molly Riley/White House)

O que antes era tratado como estilo passou a ser visto como fator de instabilidade global. E o Brasil pode estar no centro dessa engrenagem.  

A reportagem publicada em 16 de abril de 2026 pelo NYT marca mais do que uma mudança de tom. Marca uma ruptura. Pela primeira vez de forma consistente, o jornal que melhor expressa o pensamento do establishment americano deixa de tratar o comportamento de Donald Trump como excentricidade política e passa a descrevê-lo como variável de risco. 

Sem recorrer a termos clínicos, o NYT registra um padrão inequívoco: decisões erráticas, impulsividade crescente, escalada simultânea de tensões internacionais e esvaziamento dos mecanismos tradicionais de contenção. Mais importante do que a descrição são as fontes — assessores, diplomatas, especialistas em segurança e relatos internos do próprio processo decisório. 

O que emerge não é opinião. É percepção institucional. E ela aponta para um fato incômodo: a previsibilidade — base mínima de qualquer sistema internacional estável — está se dissolvendo no centro do poder. 

Da instabilidade ao risco sistêmico 

Não se trata de episódios isolados, mas de recorrência. Irã, China e América Latina aparecem como frentes simultâneas de tensão, articuladas por uma lógica de confronto permanente. Ameaças sobrepostas, recuos abruptos, contradições públicas e decisões desalinhadas formam um padrão que não estabiliza — intensifica. 

Em termos estratégicos, isso significa aumento do risco de erro de cálculo. Em termos reais, significa a possibilidade concreta de crises produzidas não por necessidade, mas por descontrole. O que está em jogo já não é apenas a política externa americana. É a estabilidade do sistema internacional. 

“Profundamente desinformado” e “sem compreensão das consequências” 

Se o NYT abriu a porta, são vozes como Jeffrey Sachs e John Gartner que expõem o que há por trás dela — sem mediação, sem eufemismo, sem concessão. 

Sachs, economista de renome internacional, professor da Columbia University, Nova York, e ex-conselheiro de organismos como a ONU, tem sido direto: Trump é “extremamente perigoso” em matéria de guerra e paz. Não por estratégia, mas por incapacidade de operar dentro de parâmetros racionais estáveis. Em suas análises, Sachs afirma que Trump “é de um líder profundamente desinformado” e “sem compreensão das consequências”, cuja impulsividade converte decisões de Estado em apostas de alto risco. Não há cálculo consistente. Há volatilidade. 

Trump apresenta traços de “narcisismo maligno” e “declínio cognitivo” 

John Gartner, psicólogo clínico e ex-professor da Johns Hopkins University, além de um dos articuladores do movimento Duty to Warn (Dever de Alertar) vai além da política e entra no território mais sensível: o da estrutura psíquica do poder. Ele sustenta que Trump apresenta traços de narcisismo maligno — um padrão descrito na psicologia como a combinação de grandiosidade extrema, ausência de empatia, paranoia e impulso para dominar ou destruir adversários. 

Mais grave ainda: Gartner identifica sinais de declínio cognitivo — perda progressiva de capacidade de concentração, coerência e processamento de informações complexas. Em um líder comum, isso já seria um problema. No comando da maior potência militar do planeta, torna-se uma ameaça. 

A convergência entre Sachs e Gartner não é apenas teórica. É estrutural. 

Quando economia e psicologia passam a descrever o mesmo fenômeno — por caminhos distintos — o debate deixa de ser interpretativo. 

Passa a ser um alerta. 

A “Teoria do Louco” saiu do controle 

Durante décadas, a chamada “Teoria do Louco”, associada a Richard Nixon, foi usada para explicar a simulação de irracionalidade como instrumento de pressão geopolítica. 

Mas havia um limite: o controle. No cenário atual, esse limite desaparece. 

A imprevisibilidade não é mais encenação estratégica. 

É padrão de comportamento. 

E isso elimina a última margem de previsibilidade do sistema. 

Brasil 2026: entre autonomia e vulnerabilidade 

Nesse contexto, o Brasil deixa de ser espectador. Passa a ser peça. 

A eleição presidencial de 2026 ocorre sob essa nova lógica global. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva defende uma ordem multipolar, com fortalecimento dos BRICS e aprofundamento das relações com a China, buscando preservar autonomia e ampliar margem de decisão soberana. 

Do outro, o campo bolsonarista — representado por Flávio Bolsonaro — reforça, em fóruns como o CPAC, o alinhamento direto ao projeto político de Donald Trump. Analistas veem nessas posições a disposição de integrar o Brasil a uma estratégia mais ampla de reorganização hemisférica sob liderança americana, inclusive em áreas sensíveis como recursos naturais estratégicos. 

Mas há um problema que atravessa essa escolha: 

o centro dessa estratégia é instável. 

E um eixo instável não organiza. 

Desorganiza. 

A opinião pública já respondeu 

Se há dúvida no plano institucional, ela não existe no plano social. As pesquisas mais recentes mostram que Donald Trump governa sob rejeição majoritária consistente. Levantamentos de abril de 2026 indicam aprovação na faixa de 36% a 40%, enquanto a desaprovação oscila entre 55% e 60%. 

Não se trata de oscilação conjuntural. Trata-se de padrão. 

A queda vem sendo contínua ao longo do ano, impulsionada por fatores concretos: desgaste com a guerra no Irã, pressão inflacionária — especialmente no custo de vida — e perda de apoio em segmentos decisivos, como eleitores independentes e parte da classe trabalhadora. 

O dado central não é apenas a baixa aprovação, mas sua estabilidade negativa. Trump mantém uma base fiel, mas governa com maioria contrária — um cenário que historicamente fragiliza qualquer presidência. Em termos políticos, isso significa uma coisa que: Trump perdeu o país antes de perder o cargo. 

Existe saída institucional? 

A resposta curta é sim. Mas ela é menos jurídica do que política. 

Nos Estados Unidos, há dois caminhos formais para afastar um presidente. O primeiro é o impeachment, previsto para casos de crimes graves e abusos de poder. Foi o mecanismo que levou à queda de Nixon — não por incapacidade, mas por ilegalidades. Esse caminho não depende de diagnóstico psicológico. Depende de maioria política no Congresso. 

O segundo — mais sensível ao debate atual — é a 25ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Ela permite afastar o presidente quando ele é considerado incapaz de exercer suas funções. A formulação é ampla — e pode incluir incapacidade mental. Mas há um ponto decisivo: não se trata de um processo clínico. Trata-se de uma decisão de poder. 

Para que isso ocorra, o vice-presidente e a maioria do gabinete precisam declarar a incapacidade. O presidente pode contestar. E, nesse caso, o Congresso decide. Ou seja: não basta haver instabilidade. É preciso haver ruptura dentro do próprio núcleo que sustenta o presidente. 

Diagnósticos de Gartner não derrubam governos 

É nesse terreno que entram as análises de John Gartner. Seus diagnósticos — narcisismo maligno e sinais de declínio cognitivo — não derrubam governos. Mas corroem o ambiente político, alimentam a pressão pública e ampliam o custo de sustentação de um líder. 

Nos bastidores de Washington, o desconforto já não é discreto. Crescem as discussões, as investigações e as articulações. Ainda não há um processo consolidado capaz de levar ao afastamento imediato de Trump. Mas há algo mais importante — e mais perigoso: a erosão da sustentação política. 

Na história americana, presidentes não caem quando erram. Caem quando deixam de ser sustentáveis. E quando esse ponto é atingido, a queda deixa de ser hipótese. Passa a ser questão de tempo. 

O ponto de não retorno 

A questão já não é se Trump é “insano”. Essa é uma palavra pequena para um problema grande. A questão é outra — e não admite mais fuga: 

o que acontece quando o principal fator de instabilidade do sistema internacional deixa de ser o conflito entre Estados e passa a ser o comportamento do líder da maior potência militar do planeta? 

O The New York Times começou a admitir. Jeffrey Sachs alertou. John Gartner diagnosticou. E o mundo, lentamente, começa a encarar o que durante anos evitou dizer. 

Não se trata mais de divergência política. Não se trata mais de estilo de liderança. Não se trata mais de interpretação. Trata-se de risco. 

Risco real. Risco crescente. Risco concentrado. 

E, pela primeira vez em décadas, um risco que não nasce do confronto entre nações — mas da instabilidade no topo do poder global. Se isso não for contido, o próximo erro não será apenas mais um episódio. Será um ponto de ruptura. E, quando esse tipo de ruptura acontece, a história não pergunta quem estava certo. 

Ela cobra quem ignorou os sinais.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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