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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Maduro e o moleton da Nike!

'A roupa de Nicolás Maduro colaborou com as vendas da Nike. Resta saber se vamos aprender criticamente ou consumir mais um símbolo até o próximo escândalo'

Ao ser capturado, Nicolás Maduro vestia um conjunto Nike Tech Fleece cinza (Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Vivemos um tempo em que a política performa. E, nesse regime de hiperimagem, não é o acontecimento em si que produz efeitos, mas a circulação de seus signos. Foi exatamente isso que vimos nas últimas 48h com a viralização de imagens que alegadamente mostram Nicolás Maduro sob custódia, vestindo roupas comuns, esportivas, desprovidas de qualquer solenidade de Estado.

Colocar um "ditador-comunista" vestindo Nike tem sua função…

Resta saber quem produziu e vazou a cena. Vamos conversar!                                                  

Independentemente da veracidade integral dessas imagens — ponto que exige cautela jornalística — o que importa, do ponto de vista semiótico e educacional, é o efeito real produzido por uma imagem simbólica. A roupa associada a Maduro esgotou nas lojas online. No Brasil, fenômeno semelhante foi observado com as Havaianas, também rapidamente esgotadas após serem associadas, nas redes, a imagens e memes derivados desse mesmo circuito imagético.

Não estamos falando de moda. Estamos falando de poder, narrativa e pedagogia visual.

Na semiótica, aprendemos com Barthes que o vestuário nunca é neutro. Lembram do "azul de menino e rosa de menina"? Roupas comunicam posição, pertencimento, hierarquia. Chefes de Estado costumam ser enquadrados visualmente por ternos, uniformes ou símbolos nacionais. Quando uma imagem rompe esse pacto — mostrando um presidente com roupas “comuns”, esportivas, quase banais — ocorre uma deslocação simbólica violenta, aquele corpo do poder é rebaixado à condição de corpo ordinário.

É nesse ponto que a imagem se torna pedagógica. Ela ensina algo, mesmo sem palavras. Ensina que aquele corpo já não representa a soberania, mas a sua perda. Ensina que o poder pode ser “vestido” e “desvestido”.

Em 2020 escrevi um artigo explicando que nunca "travestimos"para o bem em frase coloquiais. O sujeito estava "travestido" de (coloque aqui algo ruim). Por isso não usamos tal palavra como verbo. Precisamos recolocá-la em outra dimensão — vestir, nunca é inocente.

O passo seguinte é conhecido por quem estuda sociologia do consumo: o signo vira mercadoria.

O esgotamento da roupa associada a Maduro — assim como, no Brasil, o rápido desaparecimento de determinados modelos de Havaianas — não se dá por admiração política. Dá-se por apropriação simbólica. As pessoas compram o objeto para participar da narrativa, do meme, do acontecimento histórico imaginado ou fabricado.  É o mesmo mecanismo que transforma camisetas de protesto, bonés políticos ou chinelos “neutros” em objetos altamente politizados. O consumo aqui não é utilitário, mais uma vez é performativo. Comprar é comentar. Vestir é tomar posição, ainda que irônica.

A pedagogia da humilhação visual

Como pesquisadora em Educação, trans e pessoa com deficiência, não posso ignorar um aspecto central: quem pode ser exposto dessa forma e quem não pode? Quem tem dinheiro para acessar tal marca e repercutir no tempo certo?

A história da imagem política é também a história de quem é autorizado a ser ridicularizado, desumanizado ou transformado em meme. Corpos dissidentes, corpos do Sul Global, corpos racializados e corpos fora da norma ou da forma sempre foram mais facilmente convertidos em espetáculo. A roupa “errada”, o chinelo, o moletom, o traje esportivo — tudo isso ativa camadas profundas de colonialidade visual. O problema não é a crítica a Maduro. O problema é quando a crítica política se transforma em naturalização da humilhação como linguagem legítima, algo que depois retorna contra outros corpos considerados descartáveis.

Nesse caso, o status da marca colabora com a imagem controversa do ditador.

Havaianas, soberania e banalização

O caso brasileiro das Havaianas é exemplar. Um objeto historicamente associado à informalidade, ao calor, ao “jeito brasileiro”, passa a circular como signo político global. Não porque o Brasil esteja no centro da narrativa geopolítica, mas porque o mercado captura qualquer imagem que gere engajamento.

Assim, um chinelo vira comentário internacional. Uma roupa esportiva vira símbolo de queda ou de glória. E o consumo passa a ser a forma mais rápida — e mais vazia — de participação política.

O que isso nos ensina?

Ensina que:

a política hoje se disputa no plano da imagem, não apenas das decisões;

o consumo é uma linguagem política central do capitalismo tardio;

imagens falsas, ambíguas ou descontextualizadas produzem efeitos reais, inclusive econômicos;

e que precisamos, urgentemente, de educação midiática e semiótica, para não confundirmos circulação com verdade, viralização com justiça e principalmente, meme com análise.

A roupa de Maduro — real ou não — já cumpriu sua função: ensinou algo ao mundo e colaborou com as vendas da Nike. Resta saber se vamos aprender criticamente ou apenas consumir mais um símbolo até o próximo escândalo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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