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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Evangélicas nas mãos de seus violadores

Após ser agredida pelo marido, ela pede desculpas em vídeo e expõe como fé, culpa e silêncio podem deslocar para a mulher a responsabilidade pela violência

Evangélicas nas mãos de seus violadores (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Circula nas redes sociais o vídeo de uma mulher que tenta explicar uma agressão sofrida pelo companheiro. Na gravação, ela afirma que houve “uma discussão”, que não é algo recorrente e que o episódio foi uma “fatalidade”, ocorrida porque ela teria dito algo que “ligou muito ele” e que “não deveria ter falado”.

A narrativa não é isolada. Ela segue uma estrutura conhecida nos estudos sobre violência doméstica.

Segundo a pesquisadora Dra. Dayana Brunetto, da Universidade Federal do Paraná, a fala reforça precisamente o enunciado clássico do agressor, aquele que desloca a responsabilidade e sugere que a mulher provocou o ato violento. Para ela, a análise precisa ser criteriosa, porque o discurso da vítima não surge de forma espontânea ou individualizada, mas dentro de um sistema simbólico que transfere a culpa da agressão para a conduta feminina.

Há três movimentos claros nesse tipo de declaração, recorrentes nas análises.

O primeiro é a minimização. A agressão vira “discussão”, a violência é tratada como acidente, e o termo “fatalidade” dilui a intencionalidade.

O segundo é a relativização pela frequência. Ao afirmar que “não é sempre”, a agressão é enquadrada como exceção tolerável, não como ruptura de um limite inegociável.

O terceiro é a autoincriminação implícita. Ao dizer que falou algo que não deveria, a mulher assume parte da responsabilidade pelo comportamento do agressor. A violência deixa de ser ato unilateral e passa a ser apresentada como reação.

Brunetto observa que, em contextos religiosos evangélicos, a igreja exerce um efeito de poder singular sobre essas mulheres. Paradoxalmente, é muitas vezes no espaço buscado como acolhimento que a narrativa da autoridade masculina é reiterada. O marido aparece como senhor do lar, e a mediação pastoral pode priorizar a preservação do casamento em detrimento da segurança.

Em entrevista ao Programa TECHTALK, a pastora baiana Gicélia Cruz trouxe elementos que tensionam esse cenário por dentro do próprio campo religioso. Ela afirmou que a Bíblia narra um tempo anterior à escravização do povo negro, que estruturou países como o Brasil, sugerindo que a leitura bíblica precisa ser historicizada e não pode ser usada como justificativa para opressões modernas.

Ao comentar o trecho bíblico que contrapõe a mulher sábia e a mulher tola — aquela que edifica o lar e aquela que não o faz —, Gicélia propôs uma interpretação deslocada da submissão. Para ela, a mulher sábia é aquela que utiliza os instrumentos da lei dos homens para sua proteção. Acionar a Justiça, buscar delegacias especializadas e conhecer seus direitos não seria sinal de rebeldia, mas de sabedoria. Já a mulher tola seria aquela que permanece presa a promessas vazias e esperanças desmedidas, sustentadas por homens que reiteradamente falham.

A pastora também conclamou as mulheres da Bahia a participarem da Marcha das Mulheres Evangélicas, marcada para 7 de março de 2026, na Praça do Campo Grande, em Salvador. O ato ocorre em um momento em que as lutas femininas, em diferentes espaços sociais e religiosos, ganham novo fôlego contra a misoginia.

Dados recentes ajudam a compreender o contexto dessa dinâmica.

Levantamentos da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, atualizados em 2025, indicam que cerca de 40% das mulheres que sofrem violência doméstica no Brasil se declaram evangélicas, percentual superior à representação desse grupo na população geral, estimada em torno de 31%.

Outra pesquisa aponta que mulheres evangélicas levam, em média, o dobro do tempo para denunciar o agressor quando comparadas a mulheres sem religião. Entre os fatores citados estão o receio de romper com a doutrina do matrimônio, a pressão comunitária e o medo de desobedecer lideranças espirituais.

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em parceria com o Instituto Nexus, em 2025, mostra ainda que 69% das mulheres evangélicas procuram a igreja como primeiro espaço de apoio após a agressão. A família aparece com 58%, e a delegacia, com menos de 30%.

Isso revela uma tensão estrutural. A igreja pode ser rede de proteção, mas também pode funcionar como espaço de mediação que reforça a manutenção do vínculo conjugal.

Brunetto destaca que cursos e formações difundidos nos últimos anos por lideranças religiosas e figuras públicas conservadoras reforçam a ideia da boa esposa que edifica o lar. Nesses discursos, a submissão feminina é frequentemente associada à responsabilidade de não provocar a ira do marido. A consequência simbólica é clara: a mulher passa a ser vista como gestora das emoções masculinas.

Ao mesmo tempo, a leitura proposta por Gicélia Cruz insere outra possibilidade no debate interno ao campo evangélico. Se a sabedoria é agir com prudência e proteção, então buscar amparo jurídico e romper ciclos de violência pode ser, justamente, um ato de fé aliado à responsabilidade civil.

A pesquisadora propõe ainda uma reflexão sobre a plasticidade dos discursos. Narrativas semelhantes atravessam fronteiras ideológicas. Em um contexto de avanço conservador, certos enunciados circulam tanto em ambientes religiosos quanto em espaços que se autodeclaram progressistas. Mulheres que se identificam como feministas, quando expostas à violência, podem mobilizar estruturas discursivas muito próximas às observadas em contextos evangélicos tradicionais.

Isso indica que o problema não se restringe à religião. Trata-se de uma gramática social profundamente enraizada, que transforma agressão em reação e culpa feminina em explicação plausível. Quando uma mulher afirma publicamente que não deveria ter falado, o que se evidencia não é apenas a defesa do agressor. É a internalização de uma lógica que disciplina a fala feminina e naturaliza a violência como consequência previsível de um suposto excesso.

O vídeo que circula nas redes é um caso concreto. Mas a estrutura que o sustenta é coletiva. E, enquanto a responsabilidade continuar sendo deslocada da mão que agride para a boca que fala, o ciclo permanecerá intacto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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