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Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula.

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Escala 6x1: adiamento pode turbinar Lula até segundo turno

Apoio popular à redução da jornada contrasta com resistência empresarial e disputa narrativa no Congresso, analisa o colunista Leopoldo Vieira

Ato pelo fim da escala 6x1, urna eletrônica e Lula (Foto: Divulgação)

A estratégia de lideranças do Centrão, investidores e empresários contrários ao fim da escala 6x1 de votar a matéria depois da eleição, se vitoriosa, oferecerá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma bandeira considerada popular, antissistema e capaz de furar bolhas ideológicas ao longo de todo o ciclo eleitoral. Travada, como já está pelo próprio processo legislativo, pode render mais dividendos políticos do que uma aprovação célere. As pesquisas recentes sugerem que o principal desafio do petista, ainda que por margens irrisórias, é elevar a aprovação acima da desaprovação e sobrepor o medo do retorno de um Bolsonaro ao poder àquele associado à reeleição.

Mesmo com apoio majoritário da população à redução da jornada de trabalho sem redução de salários, segundo pesquisas recentes, esses agentes acreditam que o intervalo temporal permitiria reequilibrar a percepção pública, enfatizando riscos relacionados à medida, como possíveis impactos sobre custos, emprego e produtividade. Trata-se de uma disputa narrativa previsível em conflitos distributivos. Porém, há vetores que sustentam argumentos favoráveis à mudança.

Saúde mental como ativo

Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam conexão entre jornadas extensas, queda de produtividade marginal e aumento de afastamentos por motivos de saúde. Experiências internacionais frequentemente citadas no debate, como iniciativas de semanas reduzidas de trabalho e testes corporativos em economias avançadas, registraram que a redução para quatro dias semanais, sem perda de rendimento, manteve ou aumentou a produtividade, incrementou receitas e consumo e criou novas vagas. Mesmo que não sejam mecanicamente transferíveis para outras estruturas produtivas, esses casos fornecem referências relevantes ao debate.

Enquanto a ideia original alcança um perfil que desperta alta sensibilidade social — trabalhadores pretos, jovens, de baixa remuneração e baixa escolaridade, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) —, a oposição à medida pretende divulgar alternativas, como o pagamento por hora trabalhada e o aumento da jornada de trabalho para 12 horas na Argentina. Tais sugestões, contudo, possuem vieses potencialmente impopulares no Brasil, que atravessa uma espécie de “segunda pandemia”, agora da crise de saúde mental, de acordo com especialistas.

Farialimers ‘in chains’; Gen-Z ‘anticapitalista’

Na própria região da Faria Lima, saúde mental é um tema crítico desde pelo menos 2021, em razão da elevada incidência de burnout e estresse extremo, conectados a cargas intensas de trabalho, prazos apertados, exigência de disponibilidade permanente e relatos de assédios moral, sexual e eleitoral. Há informações de uso de estimulantes e de aumento da procura por terapia. Em paralelo, o fim da escala 6x1 representa a rejeição do modelo de “viver para trabalhar” atribuída à Geração Z, que não vê o emprego como eixo definidor de identidade pessoal e propósito de vida.

“Nós temos muita gente neste país que não quer carteira assinada. Muita gente quer ser empreendedora. Ninguém quer ser mais escravo” , afirmou Lula, em discurso de um ano atrás, em sintonia com o novo zeitgeist do mundo do trabalho.

Processo legislativo e nova governabilidade

Na Câmara dos Deputados, a tendência é que o fim da escala 6x1 tramite inicialmente pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, em seguida, por comissão especial, destinada à ampla escuta social, antes de ir ao Plenário. Em seguida, a matéria terá percurso próprio no Senado.

Em campanha e pilotando uma governabilidade que valoriza a divisão das prerrogativas dos Poderes, o Palácio do Planalto poderá atribuir a setores empresariais e financeiros, à oposição e ao Congresso a responsabilidade política por atrasos e impasses, embora a polarização limite a conversão automática dessas vantagens em uma liderança folgada nas pesquisas. Diante do contexto adverso, nos bastidores do Legislativo já circulam sugestões de redução de danos, como a desoneração da folha de pagamento das empresas. Tal medida, entretanto, elevaria o risco fiscal e poderia ser interpretada como mais um benefício ao que o petista tem chamado de “andar de cima”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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