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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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A ameaça invisível à democracia brasileira em 2026

Por que o maior risco não é um golpe, mas o esvaziamento silencioso da política, do futuro e do próprio lulismo

Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)

Enquanto todos olham para quartéis, fake news e extremistas barulhentos, a democracia brasileira é corroída por um processo muito mais perigoso: a transformação do desencanto cotidiano em antipolítica, a substituição do conflito social pela gestão tecnocrática e a naturalização de uma transição antidemocrática sem ruptura formal. Este texto não aponta fantasmas. Ele nomeia a ameaça real.

Por que a maior ameaça não é a ruptura institucional, mas o esvaziamento silencioso da capacidade democrática de organizar o futuro

O debate político brasileiro às vésperas de 2026 segue comprometido por um erro estrutural de diagnóstico que afeta tanto a análise quanto a ação estratégica. A maior parte das leituras ainda associa o risco à democracia a cenários de ruptura explícita, mobilizações extremas ou tentativas abertas de subversão institucional, como se a instabilidade democrática contemporânea ainda se manifestasse prioritariamente por golpes clássicos ou quebras formais da ordem constitucional. Essa gramática anacrônica funciona como um filtro cognitivo que captura a atenção para eventos espetaculares e impede a percepção dos processos silenciosos, cumulativos e juridicamente compatíveis que hoje produzem degradação democrática real.

O efeito prático desse erro é a subestimação de um tipo de ameaça mais eficaz: aquela que não interrompe o funcionamento das instituições, mas reduz progressivamente sua capacidade de produzir direção coletiva. Democracias do século XXI tendem menos ao colapso abrupto e mais ao esgotamento funcional. Continuam operando, realizam eleições, mantêm estabilidade formal, mas perdem a aptidão para organizar expectativas sociais, mediar conflitos materiais e sustentar um horizonte inteligível de futuro. Quando isso ocorre, a democracia deixa de ser vivida como instrumento de transformação e passa a ser percebida como mecanismo lento de administração da frustração.

No caso brasileiro, a análise do governo Lula frequentemente se ancora em indicadores corretos, porém insuficientes, como normalização institucional, reconhecimento internacional e desempenho macroeconômico agregado. Esses elementos coexistem, contudo, com um fenômeno politicamente decisivo: a dissociação entre estabilidade institucional e percepção cotidiana de avanço. Pesquisas de opinião e indicadores de confiança mostram que a sensação de travamento, insegurança econômica difusa e ansiedade quanto ao futuro imediato pode persistir mesmo em contextos de recuperação macroeconômica, criando um hiato perigoso entre funcionamento do sistema e experiência social concreta.

Esse hiato não gera necessariamente rebelião aberta ou radicalização imediata. Ele produz algo mais funcional aos projetos antidemocráticos contemporâneos: resignação disciplinada, baixa expectativa histórica e disposição crescente para aceitar soluções que prometem eficiência, rapidez ou decisão centralizada em detrimento da mediação política. A política passa a ser percebida como entrave; o conflito social, como disfunção; e a democracia, como custo operacional. Não se trata de rejeição consciente do regime democrático, mas de um rebaixamento silencioso de sua utilidade percebida.

Ignorar essa forma de erosão é persistir em uma leitura confortável, porém inadequada, da ameaça real. O perigo central do ciclo que se abre não reside na quebra explícita das regras, mas na normalização progressiva da ideia de que a democracia funciona, porém não entrega; existe, porém não organiza o futuro; governa, porém não transforma. Quando essa percepção se consolida, a transição antidemocrática já está em curso, mesmo que nenhuma ruptura formal tenha ocorrido.

A forma contemporânea de esvaziamento democrático não atua prioritariamente sobre a macroeconomia nem sobre os grandes indicadores institucionais, mas sobre a experiência cotidiana das maiorias. É nesse terreno, aparentemente banal, que se decide a capacidade real de um governo sustentar legitimidade política. A democracia começa a perder densidade quando a estabilidade formal não se converte em sensação perceptível de movimento na vida concreta, produzindo a impressão difusa de que o sistema funciona, mas não avança.

Esse deslocamento é politicamente decisivo porque a percepção social de progresso não depende apenas de crescimento agregado ou de melhora estatística, mas da relação entre expectativas e experiência material. Mesmo em contextos de recuperação econômica, indicadores como endividamento das famílias, custo de vida, pressão sobre serviços essenciais e insegurança quanto ao futuro imediato podem neutralizar a sensação de avanço. Quando ganhos macroeconômicos são absorvidos por despesas cotidianas ou não se traduzem em melhoria visível no ritmo da vida, instala-se um hiato entre o que o governo entrega e o que a sociedade sente.

Esse hiato não gera automaticamente conflito aberto. Ao contrário, tende a produzir uma forma de frustração silenciosa, marcada por cansaço político e redução da expectativa histórica. A política passa a ser percebida menos como espaço de disputa coletiva e mais como circuito fechado incapaz de responder às urgências do presente. A democracia, nesse enquadramento, não é rejeitada por ser injusta, mas questionada por parecer ineficiente diante de um mundo que promete velocidade, fluidez e soluções imediatas.

A captura desse estado afetivo não exige narrativas ideológicas elaboradas. Ela opera por simplificações eficazes que associam a lentidão da vida cotidiana à própria existência da mediação política. O Estado passa a ser descrito como obstáculo, o conflito social como ruído e a negociação democrática como atraso. Esse discurso ganha força porque dialoga diretamente com a experiência concreta de travamento vivida por amplos setores sociais, independentemente de sua posição ideológica prévia.

Nesse contexto, a guerra de expectativas torna-se a principal arena de disputa. Governos deixam de ser avaliados apenas pelo conteúdo de suas políticas e passam a ser julgados pelo intervalo entre promessa e experiência cotidiana. Quanto maior esse intervalo, maior a abertura cognitiva para soluções que prometem romper o bloqueio, ainda que não apresentem projeto consistente ou compromisso democrático. A eficácia política dessa dinâmica reside em sua ambiguidade: ela não precisa oferecer um caminho claro, apenas sugerir que a política institucional é incapaz de acompanhar o ritmo da vida.

Quando a democracia perde a capacidade de disputar o cotidiano como espaço legítimo de interpretação da realidade social, ela passa a operar em desvantagem estrutural. Não por falhar juridicamente, mas por não conseguir converter estabilidade em expectativa concreta de futuro. É nesse ponto que o desgaste deixa de ser abstrato e se transforma em experiência vivida, contínua e cumulativa, abrindo espaço para formas de poder que se apresentam como alternativas técnicas à mediação democrática, mesmo quando seus custos políticos permanecem ocultos.

Para que o desgaste cotidiano e a frustração silenciosa se convertam em perda efetiva de capacidade democrática, não basta a existência de insatisfação difusa. É necessária uma arquitetura de poder capaz de organizar, amplificar e direcionar esses afetos de modo contínuo. Essa arquitetura não se apresenta como um ator único ou uma conspiração centralizada, mas como a convergência funcional entre estruturas distintas que operam segundo lógicas próprias e se reforçam mutuamente quando o objetivo é reduzir a eficácia da política democrática.

Um dos pilares dessa arquitetura é a infraestrutura informacional privada, concentrada em plataformas digitais que deixaram de ser meros canais de comunicação para se tornarem sistemas ativos de modulação da atenção pública. Seu poder não reside apenas na circulação de conteúdos extremos ou falsos, mas na capacidade estrutural de premiar narrativas simplificadoras, emocionalmente carregadas e hostis à mediação política, ao mesmo tempo em que rebaixam discursos explicativos, processuais ou orientados por conflito social. Essa dinâmica não depende de alinhamento ideológico explícito; ela emerge do próprio modelo de negócios, no qual engajamento se converte em valor econômico e influência política indireta. Tentativas de regulação, por sua vez, costumam acionar reações coordenadas no plano jurídico, legislativo e simbólico, enquadradas como ameaças à liberdade ou à inovação.

Outro pilar opera no plano ideológico, mas não por meio de propaganda direta. Redes de think tanks, fundações e programas de formação de quadros atuam na padronização do vocabulário legítimo do debate público, substituindo categorias políticas por termos aparentemente técnicos. Conceitos como eficiência, modernização e governança passam a ocupar o lugar de conflito, redistribuição e soberania, deslocando a política do campo da disputa social para o da administração. Esse movimento não elimina o conflito, mas o deslegitima, classificando demandas populares como irracionais ou inviáveis e naturalizando a ideia de que decisões centrais devem ser tomadas fora do alcance da deliberação democrática.

A porosidade do Estado constitui um terceiro elemento decisivo. Aparatos de segurança, inteligência e burocracias especializadas operam, muitas vezes, em zonas opacas, sujeitas a disputas internas e usos informais do poder. Quando não plenamente integradas a mecanismos de controle democrático, essas zonas se tornam vetores de vazamentos seletivos, crises artificiais e desgaste político contínuo. Não é necessário um uso massivo desses instrumentos; intervenções episódicas, bem cronometradas, são suficientes para manter governos na defensiva e alimentar a percepção pública de instabilidade permanente, mesmo na ausência de ilegalidade explícita.

Por fim, a securitização do debate público funciona como catalisador. Questões complexas, especialmente ligadas à violência e à ordem social, são enquadradas como ameaças existenciais que exigem respostas imediatas, reduzindo o espaço para mediação, negociação e análise estrutural. O medo opera como atalho político, simplificando diagnósticos e legitimando soluções de exceção. Em contextos federativos, esse enquadramento ainda fragmenta responsabilidades e enfraquece a coordenação nacional, reforçando a percepção de incapacidade do poder central.

O efeito decisivo não está em cada uma dessas estruturas isoladamente, mas em seu acoplamento. A infraestrutura informacional amplifica o discurso tecnocrático; a padronização ideológica fornece linguagem legitimadora; a porosidade estatal produz crises recorrentes; a securitização oferece o enquadramento emocional. O resultado não é a quebra da democracia, mas seu esvaziamento funcional progressivo. As instituições permanecem, as regras seguem válidas, mas a política perde capacidade de organizar expectativas, mediar conflitos e produzir direção coletiva. É nessa convergência silenciosa que se consolida a forma mais eficaz de desestabilização democrática no presente histórico.

Quando essas dinâmicas se acoplam, o que emerge não é uma crise pontual, mas um cenário histórico específico, no qual a democracia continua funcionando formalmente enquanto perde, de maneira progressiva, sua capacidade de governar o tempo. O ciclo que se projeta para 2026 deve ser lido sob essa chave. Não se trata de uma disputa eleitoral convencional, nem de um confronto aberto entre projetos institucionais incompatíveis, mas de um processo de desgaste cumulativo que rebaixa a política à condição de gestão defensiva e transforma o governo em administrador permanente de emergências.

Nesse ambiente, a governabilidade passa a ser medida menos pela capacidade de produzir direção estratégica e mais pela habilidade de sobreviver a sucessivas crises de curta duração. Escândalos, controvérsias e choques simbólicos se sucedem em ritmo acelerado, fragmentando a agenda pública e impedindo a consolidação de marcos claros de transformação. O tempo político se torna curto, reativo e descontínuo. A cada novo episódio, o horizonte é reiniciado, e a política perde a capacidade de construir narrativas de médio prazo que conectem presente e futuro.

Esse deslocamento tem efeitos profundos sobre a percepção social. Governos passam a ser avaliados não pelo conteúdo estrutural de suas decisões, mas pela sensação difusa de eficácia. A pergunta que organiza o julgamento político deixa de ser “para onde estamos indo” e passa a ser “por que tudo parece tão lento”. A política institucional, nesse enquadramento, é comparada a modelos abstratos de eficiência, frequentemente associados ao universo empresarial ou tecnológico, nos quais conflito, negociação e mediação aparecem como custos indesejáveis. O resultado é a naturalização da ideia de que governar bem significa decidir rápido, ainda que isso implique reduzir espaços de deliberação democrática.

À medida que essa lógica se consolida, sinais recorrentes se tornam visíveis. A linguagem pública passa a privilegiar termos associados à urgência e à excepcionalidade. Propostas que concentram poder decisório ganham legitimidade sob o argumento da necessidade imediata. Conflitos federativos são amplificados, responsabilidades se diluem e a coordenação nacional é enfraquecida. A política social e econômica perde centralidade para agendas de impacto rápido, frequentemente orientadas pelo medo, pela punição ou pela promessa de choque de eficiência.

O aspecto mais perigoso desse cenário é sua aparência de normalidade. Não há suspensão formal de direitos, nem ruptura explícita da ordem constitucional. Pelo contrário, o processo se apresenta como adaptação pragmática a um mundo supostamente mais acelerado e complexo. A democracia não é atacada frontalmente, mas progressivamente reclassificada como insuficiente para lidar com as urgências do presente. Quando essa percepção se estabiliza, o terreno já está preparado para soluções que se apresentam como técnicas, neutras ou inevitáveis, mas que operam à margem da mediação política.

Nesse ponto, o risco deixa de ser apenas eleitoral e se torna histórico. Mesmo uma vitória formal pode ocorrer em um ambiente profundamente degradado, no qual o exercício do poder democrático é permanentemente constrangido por expectativas rebaixadas, tolerância crescente à exceção e desconfiança estrutural na política como instrumento de transformação. O perigo de 2026, portanto, não reside apenas no resultado das urnas, mas na consolidação de um arranjo em que a democracia permanece de pé, porém já não organiza o futuro coletivo.

Diante desse cenário, a defesa democrática não pode se limitar à reafirmação abstrata de princípios nem à negação do risco. Ela exige engenharia política capaz de reorganizar o tempo, disputar o cotidiano e fechar as brechas estruturais que permitem a erosão silenciosa do poder democrático. A primeira exigência é recuperar a capacidade de organizar o futuro como experiência social concreta. Democracias não sobrevivem apenas porque funcionam institucionalmente, mas porque oferecem marcos inteligíveis de avanço. Isso implica abandonar a lógica reativa e produzir sinais claros de movimento, conectando decisões políticas a efeitos perceptíveis no ritmo da vida comum. Não se trata de prometer tudo, mas de tornar visível o que muda, em que prazo e por qual razão, reconstituindo a confiança entre expectativa e experiência.

Essa reorganização do horizonte precisa caminhar junto com a politização do cotidiano. O cotidiano não é um espaço neutro de consumo de políticas públicas, mas o terreno onde conflitos materiais se expressam de forma imediata. Quando a política abdica de explicar por que certas transformações não ocorrem, quem bloqueia mudanças estruturais e quais interesses se beneficiam da lentidão, a frustração é capturada por narrativas que prometem eficiência sem mediação. A democracia perde quando aceita que o cotidiano seja interpretado exclusivamente pela gramática da gestão. Recuperar a pedagogia material do conflito é condição para que a política volte a ser percebida como instrumento legítimo de transformação, mesmo quando isso implica tensionar consensos aparentes.

No centro dessa disputa está a dimensão informacional do poder contemporâneo. Governar sem governança sobre os circuitos que organizam a atenção coletiva é governar em terreno inclinado. A defesa democrática exige tratar a integridade informacional como política de Estado, indo além da moderação de conteúdo e enfrentando questões estruturais como transparência de critérios, responsabilização por impactos sistêmicos e construção de capacidades públicas de auditoria e resposta. Não se trata de restringir o debate, mas de impedir que infraestruturas privadas exerçam poder público sem freios democráticos. Democracias que renunciam a essa tarefa aceitam operar sob desvantagem permanente.

Outro eixo decisivo é reduzir a porosidade do Estado. Aparatos de inteligência, segurança e burocracias especializadas precisam funcionar sob controle civil efetivo, com regras claras e responsabilização real. Estados opacos não são mais eficientes; são mais vulneráveis à instrumentalização política. A administração contínua de crises produzidas por vazamentos seletivos, disputas internas não reguladas ou operações informais corrói a governabilidade e rebaixa a política à defensiva. Fortalecer o Estado democrático implica iluminar essas zonas e integrá-las plenamente ao circuito legítimo de decisão.

Por fim, é indispensável reconduzir a segurança ao campo democrático. A securitização permanente do debate público funciona como atalho para a concentração de poder e a normalização da exceção. Enfrentar a violência exige coordenação federativa, inteligência qualificada e políticas estruturais, não a transformação do medo em método de governo. Democracias que governam pelo pânico abrem mão, ainda que gradualmente, da mediação como ferramenta central.

Essas frentes só produzem efeito quando articuladas por uma direção política que reconhece o conflito como elemento constitutivo da democracia. O objetivo não é eliminar tensões, mas organizá-las de forma inteligível e produtiva. A maior vulnerabilidade democrática não está na existência de conflitos, mas na incapacidade de administrá-los politicamente. O alerta que se impõe ao Brasil no caminho de 2026 é direto: a democracia não será derrotada por um gesto abrupto, mas pode ser esvaziada pela soma de concessões à urgência, à eficiência sem política e à antipolítica travestida de solução técnica. Defender a democracia hoje exige menos retórica e mais estratégia, menos negação do risco e mais capacidade de agir sobre ele antes que a normalização do esvaziamento seja aceita como destino.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.