Sob bloqueio dos EUA, Cuba mergulha em crise de energia e brasileiros prestam ajuda à ilha caribenha
Secretária-geral da UNE relata apagões diários, transporte paralisado e lixo nas ruas de Havana em meio ao bloqueio de Donald Trump
Brasil de Fato - Parlamentares de esquerda, dirigentes sindicais e representantes estudantis brasileiros participam de uma caravana internacional de solidariedade a Cuba que levou cerca de 20 toneladas de produtos para ajuda humanitária. A delegação integra o Nuestra América Convoy a Cuba, que reúne comitivas de 10 países em três continentes, com o objetivo de romper o bloqueio dos Estados Unidos, intensificado pelo governo de Donald Trump.
Neste sábado (21) deve ocorrer um ato internacional com a chegada de doações vindas do México. Entre os itens enviados estão alimentos, medicamentos, produtos de higiene e equipamentos de energia solar, com foco em hospitais e serviços essenciais.
A meta da caravana brasileira é reunir ao menos meia tonelada de medicamentos. Parte dos materiais está sendo transportada em voos e embarcações, enquanto voluntários também levam remédios em bagagens pessoais. A distribuição deve ser feita por organizações locais.
A mobilização ocorre em meio à crise energética no país, provocada pelas sanções impostas pelos Estados Unidos, que foram agravadas pelo bloqueio quase total do comércio de petróleo à ilha, determinado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Nesta sexta (20), o presidente cubano, Miguel Diaz-Canel, disse que o país se prepara para sofrer um ataque estadunidense, já que toda pressão possível pela via do embargo já foi feita.
Em 16 de março, Cuba registrou um apagão que atingiu todo o sistema elétrico nacional e afetou aproximadamente 10 milhões de pessoas. Nas semanas anteriores, as falhas já haviam deixado grande parte do território sem energia. A falta de combustível dificulta a recuperação da rede, em um cenário marcado por restrições no fornecimento de petróleo e impactos sobre os serviços públicos.
Integrante da delegação brasileira, a secretária-geral da União Nacional dos Estudantes (UNE), Camila Moraes, chegou a Havana nesta sexta-feira (20) e relatou dificuldades no cotidiano dos cubanos, em meio à intensificação do bloqueio dos Estados Unidos, determinado por Trump. “Todos os dias tem apagões. Eles são em blocos, mas não tem hora para acontecer e nem para acabar”, diz.
“A questão do transporte está realmente muito delicada. O transporte público não está funcionando em função da escassez de combustível. O que tem mais funcionado aqui são táxis e o preço está muito acima do normal, também devido ao problema da escassez dos combustíveis”, afirma.
Moraes relata que a falta de combustível provocada pelo impedimento quase total do trânsito de navios à ilha, realizado pelos EUA, também afeta a limpeza urbana e o funcionamento de serviços. Em alguns casos, caminhões militares realizam a coleta de lixo. “A cidade está bem suja, porque não tem combustível nem para limpar o lixo. Às vezes encontramos caminhões da força militar fazendo isso, mas bem pouco e limitado”, relata.
Camila acrescenta que há filas para deslocamento dentro da cidade e que o abastecimento de produtos segue restrito pelo sistema de cadernetas. Os preços em restaurantes são elevados em relação à renda. “O sistema de cadernetas está ainda mais rígido, comprar também está difícil. Os preços nos restaurantes também são bem caros, uma refeição chega a custar 10% do salário”, complementa.
Segundo ela, até mesmo a Universidade de Havana está sem aulas. Ainda assim, atividades organizadas por estudantes estão ocorrendo. “A Universidade da Havana não tem aula porque não tem eletricidade. E várias coisas públicas também não estão funcionando. Mesmo assim, todas as sextas os estudantes treinam tiro nas províncias”, diz.
Sobre o ambiente político, Camila afirmou que há tensões por conta da situação, mas que, no geral, a população mantém apoio ao processo iniciado após a revolução. De acordo com a secretária-geral da UNE, tem ocorrido mobilizações para denunciar o bloqueio econômico e ampliar a solidariedade internacional.
A comitiva brasileira reúne parlamentares, dirigentes sindicais e representantes estudantis. Participam nomes como Paula Nunes, Iza Lourença, Bernardo Lima, João Daniel, Valmir Assunção, Orlando Silva e Gustavo Petta. Também integram a delegação a presidenta da UNE, Bianca Borges, e o presidente da Ubes, Hugo Silva.


