Cuba condena ofensiva imperialista dos Estados Unidos e reafirma soberania na ONU
O chanceler Bruno Rodríguez rechaça ordem executiva de Washington e diz que país resistirá a qualquer cenário
247 - Cuba voltou a condenar os Estados Unidos por promover uma escalada de medidas contra o país e reafirmou que defenderá sua soberania diante de pressões externas. A declaração foi feita pelo ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, durante o Segmento de Alto Nível da 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, informa o jornal Granma.
No discurso, Rodríguez apresentou uma crítica abrangente à atual configuração da ordem internacional e às políticas adotadas por Washington.
Logo no início de sua fala, o ministro afirmou que “uma ditadura emergiu no mundo globalizado” e sustentou que a ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial “para evitar uma terceira está sendo destruída”. Segundo ele, consolida-se uma lógica em que se proclama “como o direito excepcional e supremo dos Estados Unidos da América de conquistar e usar a força como uma forma inerente, natural e cotidiana de ser”.
Para o chanceler, o cenário não afeta apenas governos com determinadas orientações políticas. “Para além das ideologias, todos os Estados-nação estão em perigo, independentemente de seus modelos culturais ou políticos”, declarou. Ele apontou que recursos estratégicos e territórios de relevância geopolítica estariam sob risco em um contexto de disputas globais.
Ao citar a Venezuela, afirmou que o país sul-americano, “maior detentor de reservas de hidrocarbonetos do mundo, foi brutalmente atacada”. Em seguida, questionou: “O que acontecerá com os depósitos de minerais críticos e terras raras, as reservas hídricas, a floresta amazônica, o fundo do mar, o Ártico e a Antártica, a ocupação de enclaves supostamente estratégicos, as passagens interoceânicas, as rotas comerciais e a fragilidade e o oportunismo que alimentam essa conquista?”
Rodríguez também criticou o uso de instrumentos econômicos e jurídicos como mecanismos de pressão internacional. “Como seria a liberdade de comércio e navegação com o uso de tarifas como instrumento de agressão e com a aplicação extraterritorial das leis dos EUA e a jurisdição dos tribunais americanos?” - indagou diante dos representantes dos Estados-membros.
Ordem executiva e bloqueio energético
Parte central do discurso foi dedicada à recente decisão da Casa Branca. De acordo com o chanceler, “a ordem executiva de 29 de janeiro do presidente dos Estados Unidos declara punição coletiva ao povo cubano e propõe a criação de uma catástrofe humanitária por meio do bloqueio energético”.
Ele questionou a legitimidade dessa medida ao perguntar: “Será que uma grande potência pode se dar o luxo de tentar destruir uma pequena nação pacífica, provocar uma tragédia humanitária, despedaçar sua cultura nacional e submeter um povo nobre e compassivo ao genocídio sob o frágil pretexto da segurança nacional?”
Rodríguez afirmou que, diante desse cenário, a resposta de Cuba será baseada na unidade interna e na mobilização nacional. “O povo cubano defenderá com o máximo vigor e coragem, em estreita união e amplo consenso, seu direito à autodeterminação, à independência, à soberania, à integridade territorial e à ordem constitucional”, declarou.
Ele acrescentou que essa resistência contará também com o apoio da diáspora: “Faremos isso com o concurso dos cubanos que residem em outras latitudes”.
Resistência, privações e soluções criativas
O chanceler reconheceu que o país poderá enfrentar dificuldades adicionais, mas assegurou que haverá esforço para evitar um colapso social. “Impediremos uma crise humanitária em Cuba, embora passemos por privações e sofrimentos”, afirmou.
Rodríguez destacou os recursos e capacidades internas da ilha, citando os sistemas de educação, saúde e ciência. “Somos um povo consciente, instruído e valente, com recursos humanos altamente qualificados, potentes e universais sistemas de educação, saúde e ciência”, disse.
Ele também ressaltou ativos econômicos e energéticos: “Temos terras cultiváveis, águas, reservas minerais, infraestrutura, produzimos quase a metade do petróleo que consumimos, dispomos de capacidade de refino e avançamos em um importante e eficiente investimento em energia solar”.
Ao relembrar as mais de seis décadas de sanções norte-americanas, declarou: “Com sofrimentos, três gerações de cubanos vencemos o bloqueio dos Estados Unidos por mais de 60 anos”. E reforçou: “Ainda no pior cenário, persistiremos. Encontraremos soluções criativas. Diante de todas as dificuldades, mitigaremos o dano humanitário. Seremos solidários”.
Disposição ao diálogo e defesa dos direitos humanos
Apesar das críticas, Rodríguez afirmou que Havana mantém abertura para negociações, desde que baseadas no respeito à soberania. “Também teremos disposição para um diálogo com os Estados Unidos baseado na igualdade soberana e no direito internacional, no respeito mútuo, no benefício recíproco, sem pré-condições nem ingerência nos assuntos internos que se proponha alcançar uma relação civilizada dentro de nossas diferenças e inclusive promover a cooperação nas áreas que resulte possível”, declarou.
O ministro reiterou ainda o compromisso do país com os direitos humanos. “Nosso compromisso com a defesa e promoção de todos os direitos humanos para todos os seres humanos se fortalece”, afirmou. Acrescentou que Cuba continuará defendendo “o direito inalienável do povo palestino” e a integridade dos migrantes.
Também mencionou apoio a iniciativas de resistência comunitária nos Estados Unidos, ao afirmar: “Admiramos o povo de Minnesota em sua resistência comunitária”. E concluiu que o país se oporá “aos duplos padrões e à manipulação política”.
Ao encerrar sua intervenção, em referência ao centenário do nascimento de Fidel Castro, declarou que “nossa determinação de defender a nação é total e a decisão de salvaguardar uma sociedade centrada em alcançar a dignidade plena do ser humano e a mais ampla justiça é irrevogável”.


