Quem investe em pesquisa e inovação nesse país é o setor público, destaca Lula
Em visita ao Instituto Butantan, presidente anuncia R$ 1,4 bilhão para ampliar produção de vacinas, modernizar fábricas e fortalecer autonomia do SUS
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (9), em São Paulo, que o setor público é o principal responsável por sustentar investimentos em pesquisa e inovação no Brasil. A declaração foi feita durante visita ao Instituto Butantan, onde o governo anunciou ações para ampliar a infraestrutura e a capacidade produtiva de vacinas e insumos biológicos no país.
No discurso, Lula criticou o que chamou de “apologia do setor privado” em detrimento do Estado e defendeu o papel das instituições públicas no desenvolvimento científico e tecnológico. Segundo ele, a realidade brasileira mostra que “quem investe em pesquisa nesse país” é o setor público e que o país não dispõe de um verdadeiro sistema privado de capitalismo de risco.
Ao comentar o cenário político e social, Lula afirmou que o Brasil e o mundo atravessam “um momento político muito complicado, muito raivoso”, marcado por “sectarismo negacionista” e por uma “loucura digital” que, em vez de solucionar problemas, estaria criando novos desafios para a humanidade. Ele também disse que frequentemente atribuem seus governos à sorte, mas reforçou que o país “está provando que tem tudo para dar certo”.
Em uma das partes centrais do pronunciamento, o presidente ressaltou a contradição de setores que exaltam o mercado enquanto tentam deslegitimar a atuação estatal. “Existe um setor da sociedade que fica fazendo apologia do setor privado e tentando destruir o setor público”, declarou. Na sequência, reforçou a dependência do país do investimento estatal em inovação: “Quem investe em pesquisa nesse país se não é o setor público? O Brasil é o único país do mundo que não tem capitalismo de risco.”
Lula argumentou ainda que empresários não costumam aplicar recursos próprios em projetos de alto risco tecnológico e que, no Brasil, essa função é exercida pelo Estado. “Qualquer empresário, por mais rico que seja, ele não colocará dinheiro do lucro dele no investimento. O capitalismo de risco é com o dinheiro do Estado brasileiro”, afirmou.
O presidente também citou o peso histórico da Petrobras nesse campo. “Lembro que uma vez fomos fazer uma pesquisa sobre inovação e a Petrobras era responsável por quase 80% de tudo que se investia em inovação no país”, disse, ao defender que o investimento público segue sendo o motor do avanço tecnológico nacional.
Investimento de R$ 1,4 bilhão no Butantan
Durante a visita ao Instituto Butantan, Lula esteve acompanhado do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. No evento, o presidente assinou ordens de serviço para a construção de duas novas fábricas e para a modernização de outras duas unidades da instituição.
O investimento do Governo do Brasil anunciado para o pacote de obras é de R$ 1,4 bilhão. Os recursos fazem parte do Novo PAC Saúde e têm como objetivo ampliar a autonomia nacional na produção de soros e vacinas avançadas, incluindo imunizantes desenvolvidos com tecnologia de RNA mensageiro (RNAm).
De acordo com as informações divulgadas, a estratégia busca colocar o Brasil em um patamar de excelência em inovação biotecnológica, permitindo respostas mais rápidas diante de crises sanitárias e eventuais pandemias.
Vacinação contra dengue começa para profissionais do SUS
Outro anúncio importante do evento foi o início da vacinação contra a dengue, em todos os estados, voltada inicialmente a profissionais de saúde da Atenção Primária. A ação foi viabilizada a partir do desenvolvimento de uma vacina totalmente nacional pelo Instituto Butantan.
A previsão é imunizar cerca de 1,2 milhão de trabalhadores que atuam na linha de frente do Sistema Único de Saúde (SUS). Apenas no estado de São Paulo, o público-alvo supera 216 mil profissionais. As primeiras 650 mil doses já foram enviadas aos estados, e novas remessas devem ser entregues nas próximas semanas.
Segundo o cronograma apresentado, a ampliação da vacinação para outros públicos, entre 15 e 59 anos, deverá ocorrer no segundo semestre, começando pelas faixas etárias mais velhas, à medida que o Butantan aumente sua capacidade produtiva.
Até agora, foram adquiridas 3,9 milhões de doses, com investimento federal de R$ 368 milhões. O Ministério da Saúde informou que vem comprando toda a produção disponível para acelerar a proteção da população.
Parceria com a China pode multiplicar produção
O plano de expansão também prevê aumento expressivo da fabricação por meio de parceria estratégica entre Brasil e China, com transferência de tecnologia para a WuXi Vaccines. A expectativa divulgada é que essa cooperação permita multiplicar a produção em até 30 vezes.
A iniciativa faz parte da estratégia do governo de ampliar a autonomia brasileira na cadeia produtiva da saúde e reduzir a dependência de importações, especialmente em momentos de emergência epidemiológica.
Plataforma de RNAm coloca Brasil na vanguarda biotecnológica
Entre os investimentos detalhados, R$ 76,1 milhões serão destinados à implantação de uma nova plataforma de produção de vacinas de RNA mensageiro. O modelo é considerado mais ágil e capaz de acelerar a adaptação de imunizantes para novos vírus, com menor custo operacional e maior rapidez no desenvolvimento.
A estrutura deverá permitir que o país produza imunobiológicos de última geração, reforçando a capacidade nacional de resposta a crises sanitárias.
Novas fábricas para DTPa e HPV fortalecem produção nacional
Com a construção e reforma das novas plantas, o Brasil também passará a produzir o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) de vacinas estratégicas para o calendário de imunização. Uma das unidades será voltada à fabricação do IFA da vacina DTPa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche.
A obra terá investimento de R$ 550,7 milhões e capacidade estimada de fornecimento de 6 milhões de doses ao ano, reduzindo a dependência de importações e ampliando a segurança sanitária do país.
Outra fábrica será dedicada à produção da vacina contra o HPV, com investimento superior a R$ 495,9 milhões e previsão de produção de 20 milhões de doses anuais. O objetivo é garantir oferta em larga escala com fabricação nacional.
Produção de soros e área multipropósito amplia capacidade do Butantan
O pacote inclui ainda investimentos de mais de R$ 232,5 milhões na unidade de produção de soros e em uma área multipropósito. Como resultado inicial, está projetada a capacidade de produzir 1,2 milhão de frascos de soro concentrado por ano.
Após o término das reformas, a previsão é alcançar capacidade de processamento final de 5,5 milhões de frascos de soro líquido ao ano, além de pelo menos 440 mil frascos anuais de soros e vacinas liofilizadas.
Laboratórios públicos e PDPs ampliam domínio tecnológico
O governo também destacou que laboratórios públicos como o Instituto Butantan desempenham papel central na inovação em saúde, especialmente por meio das Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDP). O modelo permite que o Brasil domine todo o ciclo de desenvolvimento tecnológico, da pesquisa à aprovação regulatória, garantindo previsibilidade no fornecimento e sustentabilidade econômica do SUS.
O Butantan é apontado como parceiro estratégico do Ministério da Saúde e participa ativamente das políticas federais voltadas ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), com foco em autonomia tecnológica e atendimento às necessidades do SUS.
Atualmente, o Instituto Butantan mantém 14 projetos vinculados a PDPs e ao Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (Pdil). No âmbito do Novo PAC, são 10 projetos em andamento, sendo oito com investimentos diretos do Ministério da Saúde.
Governo projeta R$ 15 bilhões para o complexo industrial da saúde
O Ministério da Saúde informou que o investimento federal no Complexo Econômico-Industrial da Saúde alcança cerca de R$ 15 bilhões. Desde 2023, com a retomada dessa política, foram firmadas 31 novas parcerias envolvendo empresas públicas e privadas para desenvolvimento de vacinas, medicamentos e insumos estratégicos.
Além disso, o governo também destacou que está investindo R$ 31,5 bilhões por meio do Novo PAC em obras, equipamentos e veículos para fortalecer o SUS, incluindo a construção de 2.600 Unidades Básicas de Saúde (UBS), 334 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), 101 policlínicas, além da aquisição de 4.643 ambulâncias do SAMU 192 e 800 Unidades Odontológicas Móveis.
Instituto Butantan é referência em vacinas e soros na América Latina
O Instituto Butantan é considerado o maior produtor de vacinas e soros da América Latina e o principal fabricante de imunobiológicos do Brasil. A instituição é responsável pela maior parte dos soros hiperimunes utilizados no país contra venenos de animais peçonhentos, toxinas bacterianas e o vírus da raiva.
Também produz integralmente as vacinas contra influenza utilizadas na Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, além de atuar em pesquisas básicas e aplicadas em áreas como agentes patogênicos, inovação em processos produtivos e estudos clínicos e epidemiológicos ligados a acidentes com animais peçonhentos.
Ao defender a centralidade do investimento público no avanço científico nacional, Lula afirmou que o Brasil precisa enfrentar o debate sobre o papel do Estado e reforçou que o fortalecimento de instituições como o Butantan é essencial para garantir soberania sanitária e capacidade tecnológica em áreas estratégicas.


