Ricardo Nunes demite adjunto do Turismo e troca comando da SPTuris após denúncia de contratos milionários
Prefeito exonera Rodolfo Marinho e anuncia coronel Salles na SPTuris depois de Controladoria apontar procuração ligada à dona formal da agência Quarter
247 – O prefeito Ricardo Nunes (MDB) anunciou nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, a demissão de Rodolfo Marinho, secretário adjunto de Turismo da cidade de São Paulo, e a troca no comando da São Paulo Turismo (SPTuris), após denúncias envolvendo a agência MM Quarter e contratos com a administração municipal.
A informação foi revelada e detalhada pela coluna de Demétrio Vecchioli, no portal Metrópoles, que apurou vínculos societários e a sequência de contratações da Quarter a partir da nomeação de Marinho para a área de Turismo, em 2022, além do volume de contratos vigentes da empresa com a prefeitura.
Demissão anunciada em vídeo e apuração da Controladoria
Em vídeo publicado no Instagram, Ricardo Nunes afirmou que determinou à Controladoria-Geral do Município (CGM) a apuração do caso na sexta-feira, 20 de fevereiro, após a reportagem trazer as denúncias. Segundo o prefeito, documentos encaminhados pela Controladoria teriam apontado uma procuração envolvendo Nathália Carolina de Silva Souza, indicada como dona formal da Quarter, e Rodolfo Marinho.
A fala do prefeito, reproduzida de forma literal, foi a seguinte: “Vocês devem ter acompanhado, no dia 20 saiu uma matéria trazendo denúncias sobre uma empresa fornecedora da prefeitura de São Paulo. Hoje, a controladoria me trouxe documentos referentes a esta apuração. Dentro desses documentos, uma procuração da Nathália para o secretário adjunto Rodolfo Marinho. Por causa disso, estou demitindo, exonerando, o senhor Rodolfo Marinho”.
A decisão, no entanto, deixa em aberto por que o atual secretário municipal de Turismo, Rui Alves (Republicanos), superior de Marinho na estrutura da pasta, foi mantido no cargo. O próprio texto do Metrópoles aponta que Rui Alves é pastor evangélico e deputado estadual, e seguia no comando da secretaria mesmo após a sequência de revelações sobre contratos e renovações.
O que a denúncia aponta sobre a Quarter e os contratos com a prefeitura
De acordo com a coluna, Rodolfo Marinho era sócio de Nathália Carolina de Silva Souza quando ela fundou a agência MM Quarter. A partir do momento em que Marinho foi nomeado por Ricardo Nunes, em 2022, a Quarter passou a ser contratada de forma contínua pela SPTuris e também pela própria Secretaria Municipal de Turismo.
Hoje, segundo a apuração citada, a Quarter soma R$ 232 milhões em contratos vigentes com a prefeitura de São Paulo. O caso ganhou repercussão não apenas pelo volume, mas pela combinação de elementos descritos na reportagem, como o vínculo anterior entre o então secretário adjunto e a pessoa apontada como proprietária formal da agência.
Ainda segundo o Metrópoles, Nathália, identificada como dona “no papel”, informava à Junta Comercial que residia em um cortiço na zona norte desde a fundação da empresa, que começou com capital declarado de R$ 1,2 milhão. A coluna afirma que esteve no local e encontrou Nathália vivendo em um imóvel de quarto e sala, alugado e dividido com outros familiares, mesmo após a Quarter registrar lucro de R$ 14 milhões em 2024.
A Quarter, administrada pelos irmãos Victor e Marcelo Correia Moraes, nega que Nathália fosse “laranja”, segundo a mesma reportagem. E, na segunda-feira anterior à demissão anunciada por Nunes, a dona formal teria informado à Junta Comercial um novo endereço residencial, uma sala comercial na zona sul.
Troca na SPTuris e a nomeação do “coronel Salles”
No mesmo vídeo, Ricardo Nunes anunciou a nomeação do “Coronel Salles” (Marcelo Vieira Salles), ex-comandante da Polícia Militar, para presidir a SPTuris. Com isso, a mudança implica a saída do então presidente Gustavo Pires, que ocupava o posto e, segundo a reportagem, teria chegado ao cargo por proximidade com o ex-prefeito Bruno Covas.
Apesar do efeito direto, Gustavo Pires não foi citado nominalmente por Nunes no vídeo. A troca, porém, foi apresentada como parte do pacote de medidas adotadas após a Controladoria apontar novos elementos na apuração e após a pressão pública criada pela série de reportagens.
Marcelo Vieira Salles, conforme descrito no texto, já foi vereador pelo PSD e subprefeito da Sé. Sua indicação para uma empresa municipal ligada a eventos, turismo e promoção da cidade sinaliza uma reconfiguração política e administrativa no setor, ainda que o prefeito não tenha detalhado critérios técnicos para a escolha.
Renovação sem licitação, pesquisas de mercado e suspeitas sobre preços
Um dos pontos centrais trazidos pela coluna é o mecanismo de renovação contratual sem licitação, com base em pesquisas de mercado. De acordo com a reportagem, sempre que a SPTuris e a Secretaria de Turismo precisam renovar contratos feitos sem concorrência, recorrem a cotações com empresas e pessoas ligadas ao próprio ecossistema da Quarter.
O texto cita, por exemplo, que as pesquisas de mercado costumam incluir a VM Produções, de Victor Moraes, e a Oleiro, de Claudete Santos, identificada como principal coordenadora da empresa. Esse arranjo, segundo a apuração, ajudaria a sustentar renovações sucessivas e valores elevados, mantendo a Quarter no centro da prestação de serviços.
O caso ganhou novo capítulo nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, quando a coluna afirmou que a Secretaria de Turismo, sob comando de Rui Alves, renovou contrato para que a Quarter gerencie o Centro de Informações Turísticas (CIT) por R$ 12 milhões ao ano. A reportagem acrescenta que itens visíveis previstos no contrato, como TV de 85 polegadas e mapa tátil, não estariam sendo entregues, apesar de o custo anual desses itens ser estimado em R$ 200 mil aos cofres do município.
Salários pagos e comparação com a remuneração do prefeito
Outro trecho que ampliou a repercussão do caso envolve a folha de pagamento relacionada ao contrato. Segundo a coluna, no mês anterior, a prefeitura teria bancado um salário de R$ 76 mil para Bárbara Moraes, irmã de Victor e Marcelo, dentro do mesmo contrato de gestão do CIT.
A reportagem ainda faz uma comparação direta, ao afirmar que Ricardo Nunes recebe metade desse valor. O dado reforça o contraste entre a remuneração atribuída a uma pessoa ligada à estrutura empresarial citada e a remuneração do chefe do Executivo municipal, ampliando o debate sobre critérios, entregas, fiscalização e custo-benefício.
O que a crise expõe e quais são os próximos passos
A demissão de Rodolfo Marinho e a troca no comando da SPTuris sinalizam tentativa de contenção política diante de um caso que envolve cifras elevadas, relações anteriores entre agentes públicos e privados e contratações contínuas. Ao mesmo tempo, a manutenção de Rui Alves no comando da Secretaria de Turismo levanta questionamentos sobre a extensão das responsabilidades dentro da pasta e sobre o alcance das medidas anunciadas.
A própria fala do prefeito, ao mencionar a existência de documentos e uma procuração, aponta que a CGM teria encontrado elementos que, ao menos politicamente, tornaram insustentável a permanência do adjunto. Ainda assim, como a Controladoria não teve detalhes divulgados no vídeo, o episódio deve se desdobrar em novas cobranças por transparência, acesso aos documentos e explicações formais sobre os contratos vigentes.
Com R$ 232 milhões em contratos atribuídos à Quarter, segundo a reportagem, e com novas denúncias sobre entregas não realizadas e valores de remuneração vinculados aos serviços, a tendência é que o caso siga no centro do debate público em São Paulo, pressionando a prefeitura a detalhar fiscalizações, justificar renovações e demonstrar quais medidas serão tomadas para revisar procedimentos e evitar a repetição de arranjos que concentrem contratos sem concorrência ampla.


