Empresa ligada a pré-candidato do PL recebeu R$ 16 milhões no Rio para obras sob suspeitas
Construtora associada a Renato Araújo, aliado de Jair e Flávio Bolsonaro, firmou contratos para reformas de escolas estaduais que são alvo da PF e do TCE
247 - Uma construtora ligada ao empresário Renato Araújo, pré-candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro, recebeu ao menos R$ 16,2 milhões em contratos para reformas de escolas públicas durante a gestão Cláudio Castro (PL). As obras estão no centro de investigações da Polícia Federal que miram o ex-deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e também levaram à prisão do deputado Thiago Rangel (Avante), informa a Folha de São Paulo.
A empresa citada no caso é a Bravo Construções, registrada nos cadastros da Receita Federal em nome de Tainá Nóbrega de Souza, mulher de Renato Araújo. Araújo integrou o quadro societário da construtora ao menos até 2024, quando disputou a Prefeitura de Angra dos Reis, e aparece como diretor-geral da empresa em documentos enviados à Secretaria de Educação em 2025.
As contratações da Bravo Construções também foram questionadas pelo Tribunal de Contas do Estado, que determinou em abril a suspensão de pagamentos a empresas envolvidas nas reformas de unidades escolares. O órgão apontou indícios de irregularidades no modelo adotado para viabilizar as obras.
A investigação sobre as reformas ganhou dimensão política por envolver contratos firmados em meio à ascensão de Renato Araújo no campo bolsonarista do Rio de Janeiro. O empresário mantém proximidade com Jair Bolsonaro (PL) e com integrantes de sua família. Ele foi responsável por supervisionar a reforma da casa do ex-presidente na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis, em 2023.
Araújo também esteve entre os nomes que pediram ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorização para visitar Bolsonaro na Papudinha. No campo eleitoral, recebeu apoio de Jair Bolsonaro e de Flávio Bolsonaro no último dia de sua campanha à Prefeitura de Angra dos Reis. O empresário chegou ainda a ser indicado pelo ex-presidente como vice na chapa de Rodrigo Bacellar, então pré-candidato ao governo do Rio com apoio do clã Bolsonaro, antes da prisão do ex-deputado pela PF no fim de 2025.
Até 2023, a Bravo Construções não tinha contratos com o governo fluminense. Naquele ano, primeiro do segundo mandato de Cláudio Castro, a empresa assumiu duas obras, mas os acordos foram rescindidos antes da conclusão. Já em 2025, a construtora foi escolhida para executar reformas em 15 escolas estaduais, no valor total de R$ 16,2 milhões.
O modelo de contratação passou a ser alvo do TCE e da PF. De acordo com o tribunal, a Secretaria de Educação passou a utilizar, para reformas de grande porte, um mecanismo criado para agilizar pequenos reparos emergenciais em escolas. Pela legislação estadual, recursos do Tesouro podem ser repassados a Associações de Apoio à Escola, conhecidas como AAEs, para serviços de manutenção sem licitação, mediante cotação de preços.
Esse procedimento, segundo os auditores, passou a ser usado em intervenções estruturais de alto valor. Os contratos assinados pelas associações não são publicados no Diário Oficial e não aparecem na lista de fornecedores do Portal da Transparência. A ausência de publicidade ampliou a preocupação de órgãos de controle sobre a fiscalização dos gastos.
Levantamento do deputado Flávio Serafini (PSOL), autor da representação no TCE, aponta que os repasses às AAEs cresceram de R$ 79 milhões em 2020 para R$ 630 milhões em 2024. Em 2025, o montante chegou a R$ 513 milhões.
Ao suspender os repasses, a conselheira substituta Andrea Siqueira Martins afirmou haver sinais de desvio do modelo legal de contratações públicas. “Tais constatações constituem fortes indícios de burla ao regime constitucional e legal das licitações públicas, uma vez que obras de grande vulto e sem caráter de urgência, as quais extrapolam o conceito de pequenos reparos ou intervenções emergenciais, estão sendo executadas através da descentralização de recursos, em detrimento da adoção de procedimento licitatório”, escreveu.
A PF investiga a suspeita de que o modelo de contratação pelas AAEs teria permitido a Rodrigo Bacellar maior influência sobre a escolha das empresas responsáveis pelas obras. O inquérito apura possível repasse de valores dessas firmas ao ex-deputado, que, segundo a investigação, controlava nomeações na Secretaria de Educação e as distribuía a aliados.
Thiago Rangel foi preso sob suspeita de desvio de recursos relacionados a obras em escolas do Norte Fluminense, sua base eleitoral. O relatório do TCE também indicou que a ampliação das intervenções partia de decisões da própria Secretaria de Educação, e não necessariamente de demandas apresentadas pelas direções das unidades escolares.
Em um dos casos citados por auditores, representantes de uma escola em Nova Iguaçu relataram “problemas recorrentes de alagamento, os quais demandariam intervenção hidráulica estrutural”. Segundo o relatório, porém, a Secretaria de Educação direcionou “a contratação para a substituição do telhado da escola, com custo elevado, estimado em mais de R$ 2 milhões”. Essa obra ficou sob responsabilidade da Bravo Construções.
A construtora ligada a Renato Araújo assumiu obras por meio das AAEs em cidades da região metropolitana do Rio. Não há informação disponível sobre quanto a empresa efetivamente recebeu até o momento.
Em nota, a Bravo Construções afirmou que as contratações feitas durante a gestão Cláudio Castro foram um “desdobramento natural de uma trajetória sólida e anterior a qualquer vinculação política”. A empresa declarou atuar no mercado da construção civil há mais de 15 anos, com CNPJ registrado desde 2011, e afirmou ter histórico de obras em diferentes cidades e estados.
“A empresa atua no mercado da construção civil há mais de 15 anos, com CNPJ registrado desde 2011 e histórico comprovado de obras em diversas cidades e estados. Sua experiência com o setor público remonta a 2015, quando executou a construção de uma unidade do Sebrae em Angra dos Reis e, no mesmo ano, realizou obras para a Andrade Gutierrez durante a construção da Usina Nuclear de Angra”, afirmou a construtora.
A Bravo também disse que os contratos com as Associações de Apoio às Escolas estaduais seguiram procedimentos regulares. “Os contratos celebrados com as Associações de Apoio às Escolas estaduais foram obtidos por meio de procedimentos licitatórios regulares, nos quais a Bravo apresentou propostas de preços de forma criteriosa e em estrita conformidade com os elementos técnicos disponibilizados pelas entidades contratantes. A empresa não detinha conhecimento prévio acerca de quaisquer outras limitações dos certames, inexistindo qualquer indício nos autos que sugira o contrário”, declarou.
Ainda segundo a empresa, 90% dos 15 contratos foram executados e aprovados por diretores e coordenadores regionais. A construtora afirmou também que a família Bolsonaro “jamais teve qualquer tipo de relação com a empresa”.
A Secretaria de Educação informou que “vem realizando uma revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual”. Entre as mudanças citadas pela pasta está a limitação das compras feitas pelas AAEs a um teto de R$ 130 mil.
A defesa de Rodrigo Bacellar afirmou desconhecer o tema, mas negou a prática de irregularidades. “Mas podemos garantir que nosso cliente não cometeu qualquer ilicitude”, disseram os advogados Daniel Bialski, Marcos Crissiuma e Rodrigo Mudrovich, em nota.
O caso permanece sob apuração da PF e do TCE, que investigam a forma de contratação das reformas, o volume de recursos repassados às associações escolares e a eventual participação de agentes políticos na escolha das empresas responsáveis pelas obras.



