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Desgaste entre Tarcísio e Kassab se intensifica e aliados falam em saída do secretário até abril

Relação entre governador de São Paulo e presidente do PSD chega ao ápice após disputas por espaço político, vice na chapa e troca pública de declarações

Glberto Kassab, presidente do PSD (Foto: Divulgação/PSD)

247 – O desgaste na relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD), se aprofundou nas últimas semanas e já é tratado como insustentável por interlocutores de ambos os lados. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, aliados afirmam que o presidente nacional do PSD deve deixar a gestão estadual em breve, possivelmente até abril.

De acordo com a publicação, o clima entre os dois, que já vinha se deteriorando desde o ano passado, chegou ao ápice em meio a disputas políticas internas, articulações partidárias e declarações públicas que tornaram explícito o mal-estar.

Disputa por espaço e crescimento do PSD

Um dos principais focos de tensão é a atuação de Kassab para ampliar o PSD em São Paulo. À frente da Secretaria de Governo — pasta responsável pela articulação política e pela gestão de emendas e convênios com prefeituras — o secretário teria multiplicado por sete o número de prefeitos filiados ao partido, como mostrou a Folha.

Interlocutores relatam que Tarcísio ficou incomodado com o movimento, que envolveu a filiação em massa de prefeitos e deputados de legendas da própria base aliada. Integrantes de outros partidos passaram a afirmar que Kassab usava sua influência na máquina pública para fortalecer o PSD, inclusive com acusações de facilitação na liberação de convênios para prefeitos da legenda.

Segundo a reportagem, até meados do ano passado, o governador dizia a interlocutores que seu secretário “vendia na praça” um comando da máquina pública que não detinha. O incômodo também reverberou em partidos aliados: em dezembro, o PP chegou a ameaçar lançar candidato próprio ao Palácio dos Bandeirantes, divulgando nota em que mencionava “crescente descontentamento” de prefeitos e queixas sobre falta de atenção do governo.

Vice na chapa e crise interna

Outro ponto de atrito envolve a composição da chapa para a tentativa de reeleição de Tarcísio em 2026. Kassab é apontado como um dos interessados na vaga de vice, que também é disputada pelo atual vice-governador, Felício Ramuth (PSD), e por André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa.

A situação se agravou após o vazamento da informação de que Ramuth é investigado pela Justiça de Andorra sob suspeita de ter lavado mais de US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8,3 milhões), acusação que ele nega. Integrantes da base passaram a especular que o vazamento poderia ter partido de Kassab ou de André do Prado, com o objetivo de enfraquecer Ramuth.

Procurado pela Folha, André do Prado negou qualquer participação no episódio. “Isso não faz parte da minha índole. Jamais faria”, declarou. Kassab também negou envolvimento, por meio de sua assessoria: “Kassab nega e lamenta o baixíssimo nível das intrigas apócrifas que circulam”.

Questionado sobre o caso na segunda-feira (23), Tarcísio afirmou que “fofoca antes de eleição sempre tem” e negou que a investigação influencie na formação da chapa.

Troca pública de declarações

O mal-estar ganhou dimensão pública após entrevista concedida por Kassab ao UOL, em janeiro, quando comentou a relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ao ser perguntado se havia aconselhado o governador a não se amarrar politicamente a Bolsonaro, o secretário afirmou considerar importantes os gestos de gratidão de Tarcísio, mas fez uma ressalva: “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”.

A declaração foi mal recebida pelo governador. No dia seguinte, Tarcísio afirmou que mantém relação de gratidão e amizade com o ex-presidente, “absolutamente nada a ver com submissão”.

Na quinta-feira (19), durante agenda em Itapecerica da Serra, o governador voltou ao tema e declarou: “Acho interessante que as pessoas, às vezes, querem rotular lealdade como submissão. Uma coisa não tem nada a ver com a outra”. Em seguida, acrescentou: “Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros.”

No dia seguinte, Kassab publicou nas redes sociais mensagem afirmando ter sido privilegiado “com bons amigos e conselheiros”, movimento interpretado nos bastidores como resposta indireta ao governador.

Saída considerada iminente

Nos bastidores, a saída de Kassab da Secretaria de Governo é tratada como provável. Segundo interlocutores ouvidos pela Folha, Tarcísio já comunicou a auxiliares que quem permanecer na gestão deverá estar focado exclusivamente na administração, e não na disputa eleitoral.

Dois aliados do governador afirmam que ele soube pela imprensa, no fim do ano passado, da intenção de Kassab de antecipar sua saída para coordenar as eleições. Em conversa posterior, Tarcísio teria pedido que fosse avisado previamente sobre qualquer decisão, para poder escolher um substituto. Kassab teria entendido que, caso deixasse o cargo naquele momento, não poderia indicar o sucessor, o que teria adiado a formalização da saída.

Interlocutores avaliam que Kassab tende a permanecer no posto ao menos até o fim da janela partidária, no início de abril, período em que parlamentares podem trocar de partido sem perder o mandato. A estratégia, segundo relatos, seria evitar que um rompimento público com o governador provoque debandada de deputados do PSD e enfraqueça a chapa da legenda nas eleições.

Ao mesmo tempo, aliados do secretário veem como gesto político relevante a reunião marcada por Kassab com três presidenciáveis do PSD — os governadores Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr. (PR) — interpretada como demonstração de força partidária e recado sobre o peso da legenda na disputa paulista.

Com o ambiente deteriorado e a troca de farpas já exposta publicamente, a permanência de Kassab no primeiro escalão do governo paulista passa a ser considerada questão de tempo, em meio a uma disputa que mistura articulação partidária, ambições eleitorais e controle político da máquina estadual.

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