Dia da Libertação do Líbano relembra fim da ocupação israelense, enquanto ameaças de agressão persistem
Data celebrada em 25 de maio marca a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano em 2000, mas tensões militares persistem
247 – O Líbano celebra neste 25 de maio o chamado Dia da Resistência e da Libertação, data que marca a retirada das tropas israelenses do sul do território libanês no ano 2000, após quase duas décadas de ocupação militar. O episódio é considerado um dos momentos mais simbólicos da história contemporânea do país e consolidou-se como um marco político e emocional para amplos setores da sociedade libanesa, especialmente para os movimentos de resistência que atuaram contra a presença militar israelense.
A retirada israelense ocorreu após anos de confrontos no sul do Líbano, região que permaneceu sob ocupação desde a invasão de 1982. Naquele período, Israel justificava sua presença militar como uma forma de combater grupos armados palestinos e, posteriormente, o Hezbollah, organização político-militar xiita que ganhou força justamente durante os anos de ocupação.
O dia 25 de maio passou então a ser celebrado oficialmente como feriado nacional no Líbano sob o nome de “Dia da Resistência e da Libertação” (“Eid al-Muqawama wal-Tahrir”, em árabe). Para grande parte da população libanesa, a retirada foi interpretada como uma vitória histórica da resistência nacional contra uma potência militar regional.
Ocupação, guerra e resistência
A história que culminou na retirada israelense começou em meio às turbulências da guerra civil libanesa. Em 1982, Israel lançou uma ampla invasão ao Líbano sob o argumento de neutralizar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), então baseada no território libanês. A ofensiva resultou na ocupação de extensas áreas do país, incluindo Beirute.
Mesmo após a retirada parcial israelense em 1985, Israel manteve o controle de uma “zona de segurança” no sul do Líbano, apoiando milícias locais aliadas. A ocupação provocou forte rejeição popular e alimentou o crescimento do Hezbollah, movimento que passou a liderar ações de resistência armada contra as forças israelenses.
Durante os anos 1990, os confrontos se intensificaram. Ataques, bombardeios e operações militares tornaram-se frequentes na fronteira sul libanesa. A resistência armada, por sua vez, ampliou sua capacidade militar e política.
Em maio de 2000, diante do desgaste militar, político e humano da ocupação, o então primeiro-ministro israelense Ehud Barak determinou a retirada unilateral das tropas israelenses do sul do Líbano. A saída ocorreu de forma acelerada e foi recebida com celebrações em diversas cidades libanesas.
Hezbollah transformou retirada em símbolo político
O Hezbollah consolidou a retirada israelense como um dos principais pilares de sua legitimidade política e militar. O movimento passou a apresentar o episódio como prova de que a resistência armada foi capaz de impor uma derrota estratégica a Israel.
Anualmente, discursos de líderes do grupo lembram a data como um símbolo da soberania libanesa e da necessidade de manter capacidade de defesa diante de ameaças externas.
Ao longo dos anos, o 25 de maio também se transformou em um elemento central da narrativa política regional envolvendo Irã, Síria e grupos alinhados ao chamado “Eixo da Resistência”.
Ameaças de novos conflitos permanecem
Apesar da celebração histórica, o Líbano continua vivendo sob permanente tensão militar. A fronteira sul segue sendo uma das regiões mais instáveis do Oriente Médio, marcada por frequentes violações do espaço aéreo libanês por aviões israelenses, bombardeios esporádicos e confrontos envolvendo o Hezbollah.
As tensões aumentaram dramaticamente após a guerra de Gaza iniciada em outubro de 2023. Desde então, houve uma escalada de trocas de ataques entre Israel e Hezbollah ao longo da fronteira libanesa, elevando o temor de uma guerra regional em grande escala.
Diversas cidades do sul do Líbano foram atingidas por bombardeios israelenses nos últimos meses, provocando mortes, deslocamentos populacionais e destruição de infraestrutura. O Hezbollah respondeu com lançamentos de foguetes e drones contra posições militares israelenses.
Autoridades israelenses têm feito repetidas ameaças de ampliar operações militares contra o território libanês. Líderes políticos e militares de Israel afirmam que o Hezbollah representa uma ameaça estratégica crescente, especialmente devido ao arsenal de mísseis acumulado pelo grupo nas últimas décadas.
Do lado libanês, autoridades e setores da resistência argumentam que o país permanece vulnerável a agressões externas e que a manutenção da capacidade militar do Hezbollah continua sendo vista por seus apoiadores como um elemento de dissuasão.
Crise interna amplia fragilidade do Líbano
O cenário de tensão externa ocorre enquanto o Líbano enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história moderna. O país sofre com colapso financeiro, hiperinflação, desemprego elevado e grave deterioração dos serviços públicos.
A instabilidade política interna também dificulta a construção de consensos nacionais sobre defesa, soberania e relações internacionais. Enquanto parte da população considera o Hezbollah essencial para proteger o país, opositores acusam o grupo de arrastar o Líbano para conflitos regionais.
Ainda assim, o simbolismo do 25 de maio permanece profundamente enraizado na memória coletiva libanesa. Para muitos cidadãos, a data representa não apenas o fim da ocupação israelense, mas também a afirmação do direito à soberania nacional diante de ameaças externas persistentes.
Passados 26 anos da retirada israelense do sul do Líbano, a celebração da libertação continua coexistindo com um sentimento permanente de insegurança regional. O país segue vivendo entre a memória da resistência e o temor de novas guerras.



