'O problema maior é o Pix', diz Leonardo Trevisan sobre disputa entre Brasil e Estados Unidos
O professor afirma que a preocupação dos EUA vai além das tarifas e está ligada ao potencial do Pix como alternativa ao sistema financeiro baseado no dólar
247 - O professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan afirmou que o principal ponto de tensão entre Brasil e Estados Unidos não está nas disputas comerciais tradicionais, mas no avanço do Pix e na possibilidade de o sistema brasileiro de pagamentos reduzir a dependência internacional do dólar. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Boa Noite 247.
Ao analisar a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a reunião do G7, Trevisan avaliou que há espaço para entendimento entre Brasília e Washington nas questões tarifárias. Segundo ele, as divergências comerciais tendem a ser resolvidas porque existe forte integração entre as cadeias produtivas dos dois países.
“O X da história é financeiro, não é comercial, é o Pix. O que os americanos têm receio é o quanto o Pix pode significar uma moeda alternativa ao dólar”, afirmou.
Na avaliação do professor, o sistema brasileiro ultrapassou a condição de ferramenta doméstica de pagamentos e passou a despertar interesse internacional. Ele destacou que técnicos do Banco Central brasileiro estão atuando em projetos de cooperação na África e citou iniciativas semelhantes em desenvolvimento na Índia e na China.
Segundo Trevisan, a expansão de plataformas digitais de pagamento inspiradas no modelo brasileiro pode criar uma rede de transações internacionais menos dependente dos mecanismos financeiros controlados pelos Estados Unidos. Nesse cenário, operações de comércio exterior poderiam ser realizadas diretamente entre países, sem a necessidade de recorrer ao dólar como intermediário.
“O que você faz aqui quando compra um produto e paga com Pix poderá acontecer também nas operações internacionais”, explicou.
Para o especialista, essa perspectiva ajuda a entender a preocupação de Washington com o crescimento de sistemas financeiros alternativos. Ele relacionou a questão ao debate dentro do Brics sobre mecanismos de pagamento próprios e à busca de diversas economias por instrumentos que reduzam custos e dependência das estruturas tradicionais do sistema financeiro internacional.
Trevisan argumentou que as questões comerciais entre Brasil e Estados Unidos possuem margem para negociação porque há interesses econômicos compartilhados. Ele citou a presença de milhares de empresas americanas integradas às cadeias produtivas brasileiras e afirmou que setores considerados estratégicos pelos Estados Unidos continuam recebendo tratamento diferenciado nas relações comerciais.
O professor também relacionou o tema ao aumento da presença econômica chinesa no Brasil. Segundo ele, o crescimento dos investimentos da China no país amplia a relevância estratégica brasileira no cenário internacional e aumenta a atenção dos Estados Unidos sobre iniciativas capazes de alterar o equilíbrio financeiro global.
Para Trevisan, o avanço do Pix e de sistemas semelhantes em outros países representa uma transformação que vai além da tecnologia bancária. Trata-se, segundo ele, de uma disputa por influência financeira internacional em um momento de reorganização das relações econômicas globais.



