“A gente precisa muito de uma pessoa como o Lula neste momento”, diz Letícia Sabatella
Atriz fala sobre cultura, ativismo, boicotes, Palestina e defende o teatro como espaço de liberdade e resistência
247 - Letícia Sabatella afirmou que o Brasil e o mundo atravessam um período de forte tensão política, humanitária e cultural, e defendeu a necessidade de preservar a lucidez, a sensibilidade e o compromisso com a vida coletiva. Em uma entrevista extensa, a atriz falou sobre arte, ativismo, guerras, boicotes profissionais, saúde emocional e o papel do artista diante da violência e da escalada de intolerância.
Em conversa com Hildegard Angel, na TV 247, Letícia também comentou sua trajetória no teatro, no cinema e na televisão, relembrou montagens inspiradas em Edith Piaf e Bertolt Brecht e sustentou que, em tempos de perseguição e silenciamento, o palco continua sendo um dos principais espaços de liberdade para quem vive da criação artística.
Ao longo da entrevista, a atriz associou sua experiência artística a uma visão profundamente humanista. Ao falar de Piaf e Brecht, nomes que marcaram um de seus trabalhos de palco, destacou a dimensão humana e a força interior de ambos. “São dois humanistas de algum modo”, afirmou. Para Letícia, os dois artistas atravessaram períodos duros, viveram entre reconhecimento e apedrejamento público e deixaram como marca uma grande capacidade de resistência.
Ela lembrou ainda que a montagem em que trabalhou a partir desses universos buscava conciliar emoção e reflexão crítica. Segundo a atriz, a peça criava interrupções e rupturas de linguagem para provocar o público sem abrir mão da sensibilidade. “Você pega as pessoas pelo humano, pela empatia, pela sensibilidade”, disse, ao explicar como o espetáculo articulava política, humor e emoção.
Questionada sobre ser vista como uma artista ativista, Letícia respondeu de forma direta: “Não tem como negar”. Na avaliação dela, o posicionamento público não surgiu como estratégia, mas como consequência natural de uma exigência ética. “Acho que meu maior objetivo da vida em sociedade é a questão da coerência com o que eu acredito”, declarou.
A atriz também disse que não separa cidadania, sensibilidade e responsabilidade humana. Ao ser perguntada sobre qual causa considera prioritária no presente, afirmou que sua atuação começa pelo que está ao seu alcance. “É aquela que tá mais ao alcance da minha mão”, resumiu. Em seguida, explicou que sua ação passa por aquilo que pode fazer concretamente no cotidiano, na vida prática e na relação com as pessoas próximas.
A entrevista ganhou tom mais duro quando o tema passou a ser a Palestina. Letícia rejeitou tratar o cenário como um conflito comum entre lados equivalentes e defendeu que a reação diante da morte de civis é uma obrigação moral. “As crianças não, as mulheres grávidas, as crianças não, isso não, isso é muito urgente”, afirmou. Para ela, calar diante desse quadro seria uma forma de omissão insustentável.
Ao explicar por que decidiu se manifestar, a atriz rejeitou a ideia de protagonismo pessoal e afirmou que seu impulso nasce de uma urgência íntima. “Não é uma ambição, é uma necessidade. É uma necessidade beber água, respirar”, disse. Na mesma resposta, sustentou que não pretendia assumir o papel de “paladina da justiça”, mas apenas se recusar a permanecer indiferente diante do que chamou de algo medonho.
Letícia relatou que suas posições públicas tiveram impacto direto sobre sua vida profissional. Segundo ela, houve perdas concretas de trabalho e rompimentos no meio artístico. “Perdi trabalho, sim, perdi uma empresária, perdi um trabalho que estava para ser feito”, declarou. Também contou ter sofrido ameaças e hostilidade por causa de seu posicionamento, embora tenha deixado claro que considera essas consequências menores diante da gravidade do que denunciava.
Quando a conversa avançou para os conflitos internacionais e a escalada militar envolvendo potências globais, a atriz expressou preocupação com a normalização da barbárie. Em sua avaliação, o mundo vive um processo perigoso de erosão dos direitos humanos e do respeito às normas internacionais. “A gente tá numa escalada de soberba sobre direitos internacionais, de suplantar direitos internacionais, direitos humanos”, afirmou. Em seguida, completou: “Uma naturalização muito perigosa também”.
Foi nesse contexto que Letícia mencionou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao falar da complexidade diplomática do momento e da vulnerabilidade de países como o Brasil diante das tensões globais, a atriz ressaltou a importância de uma liderança experiente. “A gente precisa muito de uma pessoa como o Lula nesse momento para lidar”, disse.
Ainda sobre o cenário internacional, ela afirmou que não se considera alguém com domínio técnico para falar de geopolítica em todos os detalhes, mas deixou claro que acompanha com inquietação a escalada de violência e as ameaças que recaem sobre países do Sul Global. Para Letícia, trata-se de um momento em que é preciso responsabilidade, atenção e firmeza diplomática.
A atriz também relacionou esse ambiente de tensão global à sua saúde física e emocional. Disse que sua hipersensibilidade produz efeitos concretos no corpo e relatou dificuldades crescentes para se recuperar de certas pressões. “Eu tenho cada vez mais dores reflexas dessa situação, fibromialgia”, afirmou. Em outro trecho, reconheceu que a busca por lucidez é permanente e desgastante: “Eu tô lutando o tempo inteiro para manter uma lucidez”.
No plano pessoal, Letícia descreveu uma rotina marcada por responsabilidades familiares e pela necessidade de construir uma rede de apoio sólida. Ela afirmou que hoje precisa de cuidadoras para ajudar no cuidado com a mãe e disse que se sente responsável também pela qualidade de vida das pessoas que trabalham com ela. Segundo a atriz, esse esforço cotidiano exige empatia, organização e constante administração de crises.
Ao falar do que mais a desequilibra nas relações humanas, foi categórica ao apontar a falsidade. “Quando uma pessoa não é aquilo que ela diz ser, não é aquilo que se propõe a ser”, declarou. Para Letícia, esse tipo de comportamento rompe qualquer possibilidade de proximidade, especialmente porque ela se define como alguém muito transparente e leal.
Na área da cultura, a atriz criticou a fragilidade histórica das políticas públicas para o setor no Brasil. Ao comentar a extinção e posterior retomada do Ministério da Cultura, afirmou que um país não deveria admitir esse tipo de descontinuidade institucional. “Uma coisa que não pode existir é você pensar num país que não tem o seu ministério da cultura”, disse. Para ela, a cultura deve ser tratada como dimensão estrutural da vida nacional, e não como área secundária sujeita a rupturas conforme o governo de ocasião.
A conversa também abordou a polarização política e os desafios da democracia brasileira. Sem apresentar uma fórmula pronta, Letícia defendeu mobilização contínua e atenção ao funcionamento das instituições. “A gente tem que batalhar por um bom Congresso”, afirmou. Na visão da atriz, a esperança é importante, mas não pode andar sozinha. “A esperança e mãos mangas arregaçadas”, resumiu.
Ao comentar a articulação de artistas e pessoas públicas nos últimos anos, Letícia disse se orgulhar de integrar um coletivo que se apoiou nos momentos mais difíceis. Segundo ela, essa rede de solidariedade foi essencial quando muitos profissionais da cultura se sentiram atacados, isolados ou abandonados. “A gente conseguiu se reunir coletivamente, perceber que não estávamos sozinhos e a gente se segurou, se deu as mãos”, relatou.
Apesar do peso dos temas políticos, a entrevista também abriu espaço para o futuro criativo da atriz. Letícia afirmou que deseja ampliar sua atuação como autora e diretora, deixando de depender apenas de convites para atuar. “Eu tenho muita vontade de dirigir, muita vontade de escrever”, disse. Ao comentar a fase atual da carreira, afirmou que se sente madura para assumir projetos mais amplos e com maior controle sobre sua própria obra.
O teatro apareceu como um dos pontos centrais de sua fala. Para a atriz, é nele que o artista preserva uma forma mais direta de liberdade, mesmo quando enfrenta restrições em outras frentes do mercado audiovisual. “O teatro é a nossa liberdade”, afirmou. Em seguida, reforçou a ideia de que o palco permanece como refúgio e trincheira quando o artista é alvo de boicotes ou tentativas de silenciamento.
Letícia também citou trabalhos recentes e futuros, mencionando filmes já realizados e ainda não lançados, projetos musicais e uma série que deverá gravar em São Paulo. Ao resumir sua relação com o ofício, destacou que nunca deixou de trabalhar e que a profissão de atriz, para ela, reúne várias dimensões da experiência humana. “Ela é educação, ela é medicina, ela é entretenimento, ela é diversão, ela é psicologia, ela é filosofia”, afirmou.
No fim da entrevista, Letícia Sabatella voltou a enfatizar que sua relação com a arte não se limita à carreira ou à visibilidade. Para ela, atuar é uma forma de existência, elaboração e permanência. “Para mim ela é vital”, declarou, ao definir o sentido mais profundo que encontra no trabalho artístico em um tempo marcado por violência, desgaste e disputa de valores.