Uso criminoso de criptomoedas dispara no Brasil
Stablecoins dificultam rastreamento de dinheiro ilícito pelas autoridades; PF apreendeu R$ 71 milhões em criptomoedas em 2025, seis vezes mais que em 2024
247 - O uso de criptomoedas em atividades criminosas cresce rapidamente no Brasil e já movimenta cifras bilionárias, enquanto autoridades enfrentam dificuldades para acompanhar a sofisticação dos esquemas digitais. Em 2025, a Polícia Federal registrou um recorde histórico de apreensões de criptoativos ligados ao crime organizado.
Segundo a Folha de São Paulo, a PF apreendeu R$ 71 milhões em criptomoedas no ano passado. O valor representa mais de seis vezes o total confiscado em 2024, mas ainda está muito abaixo do montante efetivamente movimentado em operações ilegais.
As apreensões ocorreram em investigações sobre tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, crimes ambientais, ataques hackers, violações de direitos humanos e fraudes internacionais.
PF bate recorde de apreensões em 2025
Apesar do crescimento nas apreensões, especialistas avaliam que os números revelam apenas uma pequena parcela do mercado ilegal. Segundo a empresa Chainalysis, especializada em monitoramento de blockchain, carteiras digitais ligadas a atividades ilícitas receberam US$ 154 bilhões — cerca de R$ 755 bilhões — ao longo de 2025 em todo o mundo.
Drey Dias, diretor comercial da companhia, afirma que o Brasil ainda enfrenta dificuldades para rastrear operações suspeitas. “O sigilo das investigações sobre o tema também dificulta esse trabalho.”
Empresas de monitoramento utilizam sistemas de identificação de carteiras digitais para sinalizar endereços associados a grupos criminosos. Essas informações servem de referência para corretoras de criptomoedas bloquearem movimentações suspeitas.
Mesmo assim, especialistas afirmam que o nível de rastreamento no Brasil ainda possui lacunas relevantes quando comparado a mercados mais regulados, como os países europeus.
Crime organizado movimenta bilhões com criptoativos
As investigações recentes da Polícia Federal mostram a dimensão financeira do uso criminoso das criptomoedas.
Em um dos casos, a PF identificou um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 12,2 bilhões entre 2017 e 2020. Outro inquérito investigou ataques hackers contra a infraestrutura do Pix no Banco Central, responsáveis pelo desvio de cerca de R$ 1,5 bilhão.
As criptomoedas são frequentemente utilizadas para ocultar a origem de recursos ilícitos, enviar valores ao exterior e dificultar o rastreamento pelo sistema financeiro tradicional. Embora muitos criminosos apostem no anonimato das operações digitais, investigadores afirmam que as transações realizadas em blockchain deixam registros permanentes.
No caso do desvio de R$ 813,79 milhões de contas mantidas no Banco Central, a PF conseguiu identificar suspeitos após ordens judiciais de quebra de sigilo em corretoras de criptomoedas.
Stablecoins ampliam desafios para investigadores
O cenário do mercado de criptoativos mudou significativamente nos últimos anos. Em 2020, o bitcoin concentrava cerca de metade das transações no Brasil. Hoje, representa menos de 10% das operações declaradas à Receita Federal.
A principal mudança ocorreu com a expansão do USDT, stablecoin pareada ao dólar emitida pela empresa Tether. Desde 2021, ela se tornou a criptomoeda mais usada no país e já responde por aproximadamente dois terços das operações declaradas.
A popularização das stablecoins está ligada à maior estabilidade de preço e à velocidade das transações, liquidadas em poucos segundos. Para investigadores, essa rapidez dificulta o rastreamento do dinheiro ilícito. “No bitcoin, em que há uma transação a cada dez minutos, a gente tem um respiro para trabalhar”, afirmou o delegado da Polícia Civil do Distrito Federal Vytautas Zumas.
O delegado destaca que as forças policiais evoluíram nos últimos anos no combate aos crimes digitais. Segundo ele, até pouco tempo atrás a maioria dos agentes não possuía conhecimento sobre criptomoedas. “Hoje, isso já mudou bastante”, disse.
Brasil avança na regulação das criptomoedas
O crescimento do mercado de ativos digitais também acelerou a discussão sobre regulação no Brasil.
Dados da Receita Federal apontam que mais de R$ 505 bilhões circularam em operações com criptomoedas declaradas no país em 2025. O volume coloca o Brasil como o maior mercado da América Latina e o quinto maior usuário de criptoativos do mundo.
No fim do ano passado, o Banco Central publicou normas para regulamentar o setor, com foco em mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo.
As regras também criaram as Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAVs), empresas autorizadas a operar legalmente no segmento.
Segundo representantes do Banco Central, a fiscalização sobre stablecoins e serviços financeiros baseados em criptomoedas está entre as prioridades da autoridade monetária.



