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Governo Lula identifica ofensiva do bilionário Mario Araripe nos bastidores para tentar barrar leilão estratégico de energia

Empresário da Casa dos Ventos é apontado como articulador de ofensiva contra o leilão que é considerado essencial para a segurança energética do País

Governo Lula identifica ofensiva do bilionário Mario Araripe nos bastidores para tentar barrar leilão estratégico de energia (Foto: Brasil 247)
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247 – O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já identificou, nos bastidores do setor elétrico, o principal ator que estaria articulando uma ofensiva para impedir a consolidação do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026, considerado estratégico para a segurança energética nacional, porque é visto como um seguro para a estabilidade do setor elétrico, evitando riscos de apagões. Segundo avaliações internas no governo e relatos de agentes do setor, o bilionário cearense Mario Araripe, ex-dono da Troller, vendida para a Ford, e fundador da Casa dos Ventos, vem sendo apontado como o principal interessado no enfraquecimento ou suspensão do certame.

A avaliação dentro do governo é de que Araripe tenta pressionar o poder público a acelerar um futuro leilão voltado ao armazenamento de energia elétrica por baterias – segmento diretamente ligado aos interesses econômicos da expansão renovável e ao enfrentamento dos efeitos do chamado curtailment, os cortes obrigatórios de geração elétrica impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) quando há excesso de oferta de energia no sistema ou limitações na infraestrutura de transmissão.

Nos últimos anos, o avanço acelerado da geração solar e eólica no Brasil produziu um fenômeno inédito no setor elétrico: em determinados horários, especialmente durante períodos de forte incidência solar ou ventos intensos, há mais energia sendo produzida do que o sistema consegue absorver ou transportar. Para evitar sobrecarga e riscos operacionais, o ONS determina a redução compulsória da produção de usinas renováveis. Esse mecanismo, conhecido como curtailment, passou a afetar diretamente a rentabilidade de empreendimentos solares e eólicos, sobretudo no Nordeste.

Indignação no governo

É justamente nesse contexto que cresce a pressão de grupos ligados às renováveis pela adoção em larga escala de sistemas de armazenamento por baterias, os chamados BESS (Battery Energy Storage Systems), capazes de armazenar o excedente energético para uso posterior. O governo Lula, inclusive, já trabalha na modelagem de um leilão específico para armazenamento, considerado estratégico para o futuro da transição energética brasileira.

Apesar disso, integrantes do setor elétrico relatam forte indignação com a estratégia atribuída ao empresário cearense. A avaliação de técnicos e agentes do mercado é de que estaria em curso uma tentativa de “travar” um leilão já realizado e considerado essencial para garantir potência firme ao Sistema Interligado Nacional (SIN), utilizando pressão política, judicial e institucional. A propósito, leilões desse tipo já são feitos desde 2021 e com acompanhento direto do Tribunal de Contas da União.

Nos bastidores de Brasília, cresce a percepção de que há uma articulação coordenada envolvendo parlamentares, entidades empresariais e ações judiciais para criar insegurança regulatória em torno do LRCAP 2026. O certame é defendido pelo Ministério de Minas e Energia e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico como indispensável para assegurar estabilidade energética em horários críticos — especialmente no início da noite, quando a geração solar desaparece rapidamente e a produção eólica também pode cair devido à redução dos ventos.

O LRCAP 2026 é composto por dois editais — o 2º LRCAP, voltado a gás natural, carvão mineral e hidrelétricas, e o 3º LRCAP, destinado a óleo combustível e biodiesel — cujos leilões, realizados em março, resultaram na contratação de 19,48 GW de potência, com custo estimado superior a R$ 516 bilhões; os certames são monitorados pelo TCU desde o ano passado, e a unidade técnica do tribunal foi autorizada a realizar inspeções nas empresas vencedoras, entre elas Petrobras, Âmbar Energia (J&F), Copel, AXIA Energia, KPS, Engie, Eneva e SPIC. Essa expansão da oferta de energia é também essencial para tornar o Brasil competitivo e capaz de atrair datacenters.

Movimentos coordenados

A tensão aumentou após movimentos simultâneos no Tribunal de Contas da União (TCU), no Cade e na Justiça Federal. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), influenciada pela federação industrial cearense, pediu a suspensão da homologação do leilão, alegando potenciais custos de até R$ 800 bilhões ao longo dos contratos. Paralelamente, ações judiciais passaram a questionar os critérios técnicos do certame e a defender alternativas baseadas em baterias. No entanto, especialistas argumentam que os custos existem porque o que está se contratando é exatamente um seguro para garantir a expansão da oferta de energia no Brasil – e sem risco de apagões. O governo também argumenta que pode haver até redução na conta de energia para o consumidor final, em razão da substituição de contratos emergenciais antigos.

No centro da controvérsia está justamente a Casa dos Ventos, empresa fundada por Mario Araripe em 2007 e hoje uma das maiores desenvolvedoras de energia renovável do Brasil. Em 2026, Araripe entrou na lista de bilionários da Forbes, com fortuna estimada em US$ 3 bilhões. Os empreendimentos da companhia representam cerca de um terço dos parques eólicos em operação no País.

Fontes do setor afirmam que a pressão contra o LRCAP ocorre justamente num momento em que empreendimentos renováveis enfrentam crescente perda de rentabilidade devido ao avanço do curtailment. Na visão de integrantes do governo, a contratação de potência firme via termelétricas e outras fontes despacháveis tende a reorganizar o equilíbrio econômico do sistema elétrico, reduzindo distorções criadas pelo excesso de geração intermitente em determinados períodos do dia.

Um dos episódios que ampliaram a tensão em torno do LRCAP 2026 envolve o deputado federal Danilo Forte (PP-CE). A ofensiva ganhou novo capítulo após a advogada Fernanda Cristinne Rocha de Paula, esposa do parlamentar, assinar uma ação civil pública protocolada na 6ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, em nome da Abraenergias, pedindo a suspensão do leilão e a paralisação de homologações, contratos e demais atos relacionados ao certame. Paralelamente, Danilo Forte acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), alegando supostas irregularidades e formação de cartel no processo. Nos bastidores do setor elétrico, porém, cresce a avaliação de que o enfraquecimento do leilão interessa diretamente a grupos ligados à geração renovável afetados pelo avanço do curtailment — os cortes obrigatórios de geração impostos pelo ONS em momentos de excesso de oferta de energia.

Pressão política amplia insegurança no setor elétrico

A escalada das ofensivas contra o LRCAP 2026 já provoca forte reação entre agentes termelétricos e investidores do setor energético. Segundo informações da Agência Infra, empresas vencedoras do leilão afirmam que os questionamentos políticos e judiciais têm gerado insegurança regulatória e atrasado decisões estratégicas, embora descartem a possibilidade de cancelamento do certame. O presidente da Abraget, Xisto Vieira, classificou as investidas como “imprudentes” e alertou que eventual paralisação poderia comprometer a segurança energética do país, com risco de racionamentos e apagões. 

Estabilidade do setor elétrico

Interlocutores do Ministério de Minas e Energia afirmam que o governo não é contrário ao avanço das baterias e considera o armazenamento peça central da transição energética brasileira. O entendimento, porém, é que o Brasil ainda necessita de fontes firmes e despacháveis para garantir estabilidade ao sistema enquanto amplia a participação de solar e eólica na matriz elétrica.

A irritação no setor aumentou após a Justiça Federal negar pedido de liminar para suspender o LRCAP 2026. A decisão da 6ª Vara Federal Cível do Distrito Federal foi interpretada como uma vitória importante da estratégia energética do governo Lula e como um sinal de preservação da previsibilidade regulatória do setor elétrico brasileiro.

Reservadamente, agentes do mercado afirmam que a tentativa de paralisar um leilão já realizado, com 368 projetos cadastrados e mais de 126 GW de potência ofertada, representa um movimento sem precedentes recentes no setor energético nacional. Para integrantes do governo, trata-se de uma disputa que extrapola o debate técnico e envolve o lobby da Casa dos Ventos e interesses econômicos bilionários associados ao futuro da matriz energética brasileira. A indignação também se deve ao fato de o governo estar trabalhando para realizar o leilão de baterias – cuja data será anunciada em breve. Além disso, o planejamento do setor elétrico prevê a expansão de energias renováveis, com prioridade para projetos solares e, em seguida, eólicos.

Outro lado 

O Brasil 247 entrou em contato com a Casa dos Ventos para ouvir o empresário Mario Araripe, mas até o fechamento desta reportagem não obteve retorno. O espaço está aberto para a manifestação. 

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