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Produtora de 'Dark Horse' nunca lançou nenhum filme

Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, teve registro confirmado na Ancine em 2025 e ainda não cadastrou a obra na agência

Produtora de 'Dark Horse' nunca lançou nenhum filme (Foto: Divulgação )
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247 - A Go Up Entertainment, produtora responsável por Dark Horse, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, nunca lançou uma obra audiovisual no Brasil ou no exterior, segundo levantamento feito pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) a pedido do blog de Malu Gaspar, em O Globo.

De acordo com O Globo, Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up, também aparece vinculada a outras duas entidades cadastradas na Ancine, a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil, que igualmente não têm registros de obras lançadas em cinema, TV aberta ou TV fechada no país.

A informação amplia a controvérsia em torno do longa, que voltou ao centro do noticiário após a revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do PL à Presidência, captou R$ 61 milhões junto ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, supostamente para financiar a produção.

Após reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu a captação dos recursos, que teriam sido repassados por meio de uma empresa ligada a Vorcaro para um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. A intermediação do fundo não foi explicada pelos envolvidos, o que levantou suspeitas sobre a real finalidade do dinheiro, incluindo a hipótese de financiamento do autoexílio de Eduardo nos Estados Unidos.

Segundo a Ancine, a Go Up teve o registro confirmado em 9 de julho de 2025 e está regularizada, mas não possui obras lançadas. A empresa também ainda não registrou Dark Horse perante a agência. O blog afirma que a estrutura da produtora indica que ela pode ter sido organizada para viabilizar especificamente o filme sobre Bolsonaro.

Documentos da Junta Comercial de São Paulo mostram alteração no objeto social e nas atividades econômicas da empresa em junho de 2025. Karina Ferreira da Gama nega que a produtora tenha sido criada apenas para Dark Horse, mas reconheceu que os recursos para a obra começaram a ser recebidos em março de 2025, vindos do fundo mantido pelo advogado Paulo Calixto, no Texas.

A Go Up só conseguiu seus registros na Ancine e na Receita Federal depois da entrada dos recursos. Na Receita, a empresa passou a constar como ativa em maio de 2025, dois meses após o início dos repasses relatados pela produtora.

Segundo Karina, a produção e a pós-produção de Dark Horse já custaram cerca de US$ 13 milhões, equivalentes a R$ 65,7 milhões na cotação atual. O valor chamou atenção no mercado audiovisual por superar o orçamento de filmes brasileiros recentes de grande repercussão, como O agente secreto, estimado em R$ 28 milhões, e Ainda estou aqui, de R$ 45 milhões.

Um profissional renomado do setor ouvido reservadamente pelo blog questionou o custo informado. “É um filme caro para burro. E o Jim Caviezel é um ator decadente, nível C”, afirmou.

Karina rebateu a avaliação e atribuiu parte expressiva do orçamento ao elenco internacional. “Quase cinquenta por cento desse orçamento é elenco. Eu tinha 11 atores americanos e 36 semanas de filmagem”, disse. Ela afirmou ainda que o projeto original era mais caro, mas precisou passar por cortes. “O projeto tinha um orçamento ainda maior. A gente cortou muitas cenas, teve que economizar e o Cyrus reajustou as cenas pra gente conseguir.”

Dark Horse, cujo título pode ser traduzido como Azarão, tem o ator norte-americano Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. Apoiador de Donald Trump, Caviezel gravou no Brasil por cerca de três meses. O elenco também inclui Esai Morales, conhecido por interpretar o vilão de Missão: Impossível – O acerto final.

Karina declarou que não participou da captação dos recursos e afirmou não saber quem são os investidores além de Daniel Vorcaro, cujo nome disse ter conhecido apenas após as reportagens do Intercept Brasil. Ela também sustentou que Dark Horse não foi sua primeira tentativa no cinema.

Segundo a produtora, a Go7 já havia registrado projetos na Ancine, incluindo uma produção infantil e um documentário sobre atletas chamado Atletas de Cristo, mas nenhuma iniciativa avançou por falta de apoio. “Ela [a Go7] tem registro na Ancine bem mais antigo e tem projetos na Ancine”, afirmou.

A Ancine confirmou que a Go7 foi registrada em 2005, mas informou que não há obra concluída ou finalizada devidamente registrada pela empresa. A agência também confirmou que Karina cadastrou um projeto e se inscreveu em um edital, mas nenhuma das iniciativas prosperou.

“Me qualifiquei nas regras da Ancine, me qualifiquei tudo certinho, como todo produtor tem que fazer. Mas eu sou uma produtora muito pequena. As grandes empresas, elas não, não olham pros pequenos, elas querem trabalhar com as produtoras grandes”, disse Karina.

Além disso, a Ancine informou que a Go7 e o Instituto Conhecer Brasil estão em situação irregular desde janeiro de 2026, com registros suspensos por falta de renovação de documentação. Na prática, as duas entidades não podem registrar obras, apresentar projetos nem solicitar financiamento público perante a agência.

Fontes ouvidas pelo blog afirmaram que a suspensão dos registros indica não apenas ausência de produção audiovisual no Brasil, mas também falta de atualização cadastral das entidades para novas iniciativas na área.

A controvérsia também chegou à Justiça Eleitoral. Na terça-feira (19), aliados do presidente Lula acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar impedir a estreia do filme até as eleições. O argumento é que Dark Horse poderia funcionar como “peça de comunicação política de enorme impacto” e configurar propaganda eleitoral “dissimulada”, financiada com recursos milionários de “origem suspeita”.

Em outra frente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de uma apuração preliminar sobre supostas irregularidades na destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas a Karina, entre elas a Go Up e o Instituto Conhecer Brasil.

A iniciativa no Supremo partiu da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), integrante da base aliada do presidente Lula. Ela pediu investigação sobre possível direcionamento de recursos públicos por parlamentares para financiar a cinebiografia de Bolsonaro.

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