PF aponta que Vorcaro enviou R$ 350 mil em espécie para Ciro Nogueira em avião com Beto Louco
Documento da Polícia Federal relaciona repasse em dinheiro ao senador do PP a voo com empresário investigado por ligação com esquema de fraudes
247 - A Polícia Federal (PF) identificou indícios de que o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria enviado R$ 350 mil em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) por meio de um voo executivo realizado entre São Paulo e Brasília. As informações constam em uma representação tornada pública nesta terça-feira (16) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator das investigações envolvendo o Banco Master.
A informação foi revelada originalmente pelo jornal O Globo. Segundo o documento da PF, o transporte do valor teria ocorrido em um jato da empresa Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), aeronave que também era utilizada pelo empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, apontado pelos investigadores como integrante de um esquema de fraudes no setor de combustíveis com suposta ligação ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
De acordo com a investigação, a suspeita surgiu a partir da análise de mensagens trocadas em 6 de agosto de 2025 entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado pela PF como operador financeiro do empresário. Nas conversas, os investigadores identificaram referências diretas a pagamentos relacionados ao senador piauiense.
Conversas analisadas pela PF
Entre as mensagens obtidas pela PF, Vorcaro cobra a regularização de pendências financeiras e escreve: “Resolve Ciro e galerias hoje. Manda agora lá”. Em resposta, Zettel relata dificuldades com uma transferência bancária e apresenta uma lista de valores pendentes.
Segundo o documento policial, nessa relação aparecem as expressões “Nota Ciro mais impostos 2” e “Espécie Ciro 350k”, referência que, para os investigadores, indica um pagamento de R$ 350 mil em dinheiro vivo destinado ao parlamentar.
A PF sustenta que, após a troca de mensagens, Vorcaro orientou que fossem priorizados os pagamentos relacionados a Ciro Nogueira e a outros compromissos identificados como “galerias”.
Voo entre São Paulo e Brasília entrou na mira
Os investigadores cruzaram a data das mensagens com informações prestadas pelo piloto Mauro Caputti Mattosinho, ex-funcionário da Táxi Aéreo Piracicaba. Em depoimentos e entrevistas concedidas anteriormente à imprensa, ele afirmou ter transportado um malote em um voo realizado no mesmo dia entre São Paulo e Brasília.
Segundo a representação da PF, o voo tinha entre os passageiros Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco. Os investigadores destacam que o piloto relatou ter ouvido diversas menções a Ciro Nogueira durante o trajeto.
De acordo com o documento, Mattosinho afirmou que o empresário perguntava repetidamente se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o Ciro já estava os aguardando”, circunstâncias consideradas relevantes pelos investigadores para estabelecer a conexão entre as mensagens e o transporte do malote.
Suspeita de corrupção
Para a Polícia Federal, a análise conjunta das conversas e dos relatos sobre o voo reforça a hipótese de prática de crimes de corrupção ativa e passiva.
A representação afirma que o cruzamento dos elementos reunidos durante a investigação “indica fortemente a prática dos crimes de corrupção passiva e ativa”. O material integra o conjunto de apurações relacionadas ao chamado caso Master.
Beto Louco é apontado como um dos principais alvos da Operação Carbono Oculto, que investiga um esquema de fraudes no mercado de combustíveis. Atualmente, ele é considerado foragido da Justiça brasileira e, segundo a PF, tenta negociar um acordo de colaboração. Seu último paradeiro identificado pelos investigadores teria sido a Líbia, no norte da África.
Uso frequente da aeronave
Ainda segundo a PF, mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro indicam que o empresário utilizava com frequência o jato Gulfstream G150, identificado pela matrícula PR-SMG, para viagens de seu interesse.
Os investigadores também destacam que a aeronave integra o conjunto de equipamentos analisados na Operação Carbono Oculto. O objetivo é verificar a utilização dos voos em atividades relacionadas aos fatos apurados pela investigação.
O relatório menciona ainda que Mauro Caputti Mattosinho declarou ter transportado diversas vezes tanto Beto Louco quanto Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, apontado pela PF como outro líder do esquema de fraudes no setor de combustíveis investigado pela operação.
Relação com aeronaves da TAP
A representação também recupera declarações prestadas anteriormente por Mattosinho a veículos de imprensa. Na ocasião, o piloto afirmou ter ouvido de superiores na empresa que determinadas aeronaves operadas pela Táxi Aéreo Piracicaba estariam ligadas ao presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda.
Segundo o relato reproduzido na investigação, haveria um grupo supostamente liderado por Rueda responsável pela incorporação de um jato Gulfstream G200 à frota da empresa. A aeronave teria sido utilizada em viagens nacionais e internacionais.
Antonio Rueda já negou ser proprietário de aeronaves registradas em nome da Táxi Aéreo Piracicaba. Em declarações anteriores, reconheceu ter utilizado um dos aviões em uma viagem, mas afirmou que viajou como convidado e não revelou quem teria custeado o deslocamento ou quem seria o proprietário da aeronave.



