Quintais, hortas e lajes regeneram territórios e revelam a potência invisível das periferias
Comunidades periféricas transformam espaços esquecidos em áreas de vida, cultura e sustentabilidade, desafiando o abandono estatal
Beatriz Bevilaqua, 247 - No episódio desta semana do “Brasil Sustentável”, na TV 247, recebemos Eduardo Gontijo Oliveira, cientista social e presidente da organização “Arquitetas Sem Fronteiras Brasil”. Militante das lutas urbanas por moradia e direitos socioambientais, Gontijo traz uma reflexão contundente: as periferias não são apenas espaços de carência, mas territórios vivos, capazes de criar alternativas sustentáveis mesmo diante da ausência do Estado.
No Brasil, milhões de famílias constroem suas casas “onde dá e como dá”. A chamada autoprodução da moradia é a regra, não apenas nas favelas, mas também em grande parte do espaço urbano formal. O problema é que, dentro da lógica capitalista, os terrenos desprezados pelo mercado como topos de morro, fundos de vale, áreas de risco se tornam destino forçado de comunidades inteiras.
É daí que surgem os deslizamentos, os alagamentos e a vulnerabilidade cotidiana. Em Minas Gerais, a situação é agravada pela presença das barragens de mineração, estruturas que transformam regiões inteiras em áreas de risco permanente, inclusive ameaçando o abastecimento de água de cidades como Belo Horizonte.
“Como vamos garantir segurança hídrica diante desse cenário?”, provoca Gontijo. A resposta, para ele, não pode vir de cima para baixo: precisa nascer do diálogo e da participação direta das comunidades periféricas.
Quintais, lajes e a potência invisível
Apesar de negligenciadas, as periferias não estão inertes. Pelo contrário: nelas florescem quintais que produzem alimentos, hortas comunitárias, árvores frutíferas e lajes que viram espaços de convivência, trabalho e sonho. São territórios que carregam a memória do êxodo rural e uma relação direta com a terra e a água.
Essas práticas cotidianas mostram que o cuidado ambiental não é exclusividade de elites urbanas. Ao contrário: é nas bordas da cidade que muitas vezes se planta, se preserva e se regenera.
Um exemplo emblemático é o de Hélio, conhecido como o “plantador de árvores” na zona leste de São Paulo. Ele transformou, com esforço próprio, um antigo lixão em um dos maiores parques verticais da América Latina. O caso revela que iniciativas populares têm força transformadora, mesmo quando enfrentam resistência do poder público.
A Arquitetas Sem Fronteiras Brasil atua justamente nesse ponto de encontro entre técnica e vida cotidiana. Inspirada na metodologia de Assessoria Técnica para Habitação de Interesse Social (ATIZ), a organização oferece apoio a comunidades periféricas, assentamentos rurais e famílias atingidas por projetos de urbanização excludentes.
O trabalho envolve mapear demandas, traduzir a linguagem técnica de projetos, propor alternativas e, sobretudo, garantir que os moradores sejam protagonistas das transformações em seus territórios.
Entre as conquistas, está a articulação de uma nova linha de ônibus ligando o Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, ao metrô, resultado de anos de escuta, diálogo e mobilização comunitária. Também se destacam projetos de capacitação de mulheres na construção civil e a atuação junto a grupos que acessaram o programa “Minha Casa Minha Vida Entidades”.
Floresta social: um futuro possível
O conceito central que emerge da entrevista é o de floresta social. Não se trata apenas de plantar árvores, mas de reconhecer e fortalecer os sujeitos que já cuidam do território. Uma política pública verdadeiramente sustentável precisa olhar para os quintais, lajes e hortas como centros de reprodução da vida e não como espaços residuais a serem apagados pelo cimento.
“É fundamental reconhecer e ampliar o que já existe, ao invés de impor soluções externas que desconsideram a inteligência cotidiana dos territórios periféricos”, diz Gontijo.
A ideia da floresta social é muito poderosa. Não se trata de reflorestar apenas com mudas, mas de reflorestar com gente, com cultura, com memória. É plantar árvores junto com quem já planta, com quem já cuida, com quem já vive numa relação de troca com a terra, mesmo que seja num quintal pequeno, com uma jabuticabeira, um pé de limão, ou uma horta improvisada.
Essa transição da “área de APP como zona proibida” para “área de regeneração partilhada” só é possível se a comunidade for autora do processo. A política pública precisa deixar de ver o território como “área degradada” e passar a ver como território vivo, potente, em disputa, e com acúmulo de saberes.
“A lógica é inverter a prioridade: não se trata de levar a natureza para a periferia, pois a natureza está lá. O que falta é reconhecer e fortalecer os agentes que a mantêm viva, que resistem ao cimento, ao abandono e à negação”, alerta, Gontijo.
Se parques, praças, áreas verdes e processos de urbanização forem construídos a partir dos quintais, dos Hélios, dos Adãos, das lajes, das hortas, da cultura de cuidado, então sim, serão sustentáveis. Porque serão feitos por quem vive ali. “Não é floresta ou cidade. É floresta na cidade. E cidade que respeita sua própria floresta”, resume Gontijo.
Assista à entrevista na íntegra:
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