Wang Yiwei e a coragem de imaginar um mundo compartilhado
Trata-se de uma reflexão que desafia o fatalismo histórico e convida a imaginar um futuro humano compartilhado, possível, pacífico e cooperativo global
Tenho acompanhado com atenção, nos últimos meses, o pensamento do professor Wang Yiwei, uma das vozes intelectuais mais consistentes da China contemporânea no debate sobre a ordem internacional. Titular da Cátedra Jean Monnet e vice-presidente da Academia do Pensamento de Xi Jinping na Universidade Renmin, Wang vem se dedicando a refletir sobre os limites estruturais do sistema global herdado do pós-guerra e sobre a necessidade de uma transição que seja, ao mesmo tempo, política, ética e civilizatória.
Em artigo publicado em 5 de fevereiro de 2026, no qual analisa a filosofia chinesa de uma ordem mundial multipolar igualitária e ordenada, Wang Yiwei apresenta uma síntese madura de reflexões desenvolvidas ao longo de anos e estabelece pontos de contato evidentes com preocupações que venho expressando de forma recorrente: a defesa do multilateralismo efetivo, a rejeição da hegemonia como método e a centralidade da unidade humana como fundamento duradouro da paz.
O ponto de partida de Wang Yiwei é a percepção de que a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial atravessa um processo de desgaste profundo.
No curto prazo, ajustes institucionais se impõem; no horizonte mais amplo, o próprio modelo vestfaliano revela sinais de esgotamento. Esse modelo, surgido a partir dos Tratados de Vestfália de 1648, consolidou a noção de Estados soberanos, formalmente iguais, organizados em um sistema internacional marcado pela não ingerência e pela competição entre poderes nacionais. Durante séculos, ele forneceu estabilidade relativa, mas também naturalizou conflitos, guerras recorrentes e hierarquias disfarçadas sob a aparência da igualdade jurídica.
No mundo contemporâneo — interdependente, digitalizado e atravessado por desafios globais como paz, clima, tecnologia e saúde — essa lógica mostra-se insuficiente. A multipolaridade emerge, portanto, não como projeto ideológico, mas como fato histórico.
A questão decisiva, como insiste Wang, não é se o mundo será multipolar, mas que tipo de multipolaridade se consolidará.
É nesse contexto que surge a rejeição chinesa à ideia de um “G2”. O termo refere-se à hipótese de um condomínio de poder entre Estados Unidos e China, no qual as duas maiores economias do mundo passariam a coordenar os destinos globais de forma quase bipolar. Wang argumenta que esse arranjo apenas reproduziria, sob nova forma, a lógica hegemônica do século XX, substituindo um centro dominante por outro.
A China, afirma ele, não busca tornar-se um “novo Estados Unidos”, mas questionar a própria noção de liderança concentrada como fundamento da ordem internacional.
A metáfora do I Ching — “um grupo de dragões sem líder” — sintetiza essa visão. Trata-se de uma proposta de coordenação sem dominação, na qual múltiplos polos coexistem sem hierarquias rígidas.
Para quem entende a paz como valor ativo e não como simples intervalo entre guerras, que é o meu caso, essa concepção desloca o debate para um terreno mais promissor: o da cooperação estruturada e da responsabilidade compartilhada.
Wang Yiwei sustenta que a multipolaridade histórica, tal como vivida pelo Ocidente, foi marcada por desigualdade e desordem. Suas raízes estariam em uma visão civilizatória autocentrada, no determinismo teológico que moldou certos “valores universais” e na suposição da maldade intrínseca da natureza humana.
O professor está certo quando afirma que dessa combinação nasceu uma política internacional fundada na desconfiança, na contenção pelo poder e na expansão como sinônimo de segurança. O resultado foi uma ordem hierarquizada, pouco aberta à ascensão do mundo não ocidental e estruturalmente propensa ao conflito.
É aqui que se estabelece uma convergência central com minhas próprias inquietações. A crítica de Wang não se dirige a povos ou culturas, mas a estruturas mentais e institucionais que normalizaram a desigualdade. A multipolaridade que ele propõe busca romper esse ciclo ao recolocar a igualdade no centro das relações internacionais — não apenas como princípio jurídico, mas como prática concreta.
Nesse sentido, a discussão sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos ganha relevância particular. Wang relembra que o texto original falava em seres humanos “criados iguais”, expressão carregada de conotação religiosa. A alteração para “nascidos iguais”, fruto da contribuição intelectual chinesa e do diálogo intercultural, retirou o determinismo teológico e afirmou a igualdade como condição humana compartilhada.
Parece um detalhe linguístico, mas, se pensarmos com certa profundidade, compreenderemos que essa mudança semântica, aparentemente sutil, revela uma concepção mais inclusiva de dignidade, capaz de sustentar um multilateralismo menos seletivo e mais representativo.
A noção de ordem, por sua vez, também é redefinida. Wang critica a ideia de uma “ordem baseada em regras” quando essas regras são formuladas por poucos e aplicadas de maneira assimétrica. Questiona-se quem define as normas, a quem elas servem e com que legitimidade são impostas. A expansão de sistemas de alianças herdados da Guerra Fria, como a OTAN, aparece como exemplo de uma ordem que produz insegurança em vez de estabilidade duradoura.
Em contraste, a ordem multipolar igualitária e ordenada defendida pelo autor apoia-se em ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados. Essa lógica se materializa em experiências como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e em fóruns ampliados como o BRICS Plus e o SCO Plus. O primeiro amplia o diálogo do grupo BRICS para incluir outros países do Sul Global; o segundo expande a Organização para Cooperação de Xangai, incorporando novas economias e atores regionais. Ambos procuram diluir centros de poder e ampliar a representatividade sem impor modelos únicos.
Por fim, Wang Yiwei insiste que essa transformação não pode ser abrupta. A metáfora do ovo chocado de dentro para fora é precisa: ordens quebradas externamente tendem ao colapso; reformas que amadurecem internamente têm maior chance de gerar estabilidade. Em um mundo marcado por crises simultâneas, essa abordagem gradual parece mais compatível com a preservação da paz.
A multipolaridade igualitária e ordenada, se levada a sério, pode representar mais do que um rearranjo de forças.
Pode ser, acrescento, um passo concreto na direção de uma comunidade internacional fundada na dignidade, na cooperação e na unidade humana. Em tempos de polarizações agressivas, essa não é apenas uma discussão estratégica. É, sobretudo, uma escolha necessária e inadiável para assegurar o bem-estar de todos nós, os humanos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
