Vidas instagramáveis
As vidas instagramáveis representam a uma espécie de prisão contemporânea e são caminho para uma padronização que transforma todos em consumidores e em produto
Instagramável” é um termo recente, mas revelador. Ele designa tudo aquilo — lugares, objetos, comidas, pessoas — que possui um apelo visual tão forte que parece existir para ser fotografado, curtido e compartilhado. É o belo calculado, pensado para gerar engajamento e, não raro, alguma dose de inveja social.
A primeira vez que ouvi a expressão foi de um jovem empreendedor de Sumaré, Jefferson Douglas, durante a inauguração de sua esmalteria. Orgulhoso, apontou para uma parede coberta de plantas e explicou: “esse é um espaço instagramável”. Demorei a compreender. Tratava-se, afinal, de um cenário pensado menos para ser vivido do que para ser exibido. Um lugar perfeito demais para ser real - e exatamente por isso, desejável.
Esse pequeno episódio cotidiano ajuda a pensar um fenômeno maior: a ficcionalização da vida nas redes sociais.
Um texto de Michel Foucault sobre as chamadas “vidas paralelas” oferece um contraste poderoso para entender o que hoje chamamos de vida “instagramável”. Em ambos os casos, estamos diante de narrativas de si, mas que operam sob regimes radicalmente distintos de verdade, poder e visibilidade.
As vidas que interessam a Foucault são vidas sem glória: esquecidas nos arquivos, marcadas pela exclusão, pela condenação e pelo silêncio. Elas emergem apenas no instante em que são esmagadas pela ordem social e deixam, antes do apagamento, um rastro fulgurante — um texto, um gesto, uma fala que resiste.
A vida das redes sociais é o oposto simétrico disso. Ela nasce para ser vista, calculada para circular, pensada desde o início como imagem, performance e consumo. Não é resgatada do arquivo; é produzida em tempo real como vitrine. Se as vidas paralelas de Foucault “divergem indefinidamente”, a vida instagramável é construída para convergir: para padrões de sucesso, narrativas de felicidade e identidades reconhecíveis e monetizáveis.
Em Foucault, a autobiografia não é expressão de um “eu verdadeiro”, mas um efeito de práticas discursivas — que, paradoxalmente, pode tornar-se um gesto de resistência quando escapa às identidades que o poder tenta impor. Já nas redes sociais ocorre o inverso. A autobiografia cotidiana — stories, posts, reels — raramente resiste ao poder; ela colabora com ele.
Trata-se de uma escrita de si profundamente integrada aos dispositivos contemporâneos de poder: métricas de engajamento, algoritmos que premiam certas formas de vida e silenciam outras, e a exigência permanente de coerência identitária — “seja autêntico”, mas sempre do mesmo jeito. Aqui, a narrativa de si não é um rastro antes do silêncio, mas a manutenção contínua da visibilidade.
As redes sociais reinventam a confissão em chave secular e mercantil. Não se confessa mais ao padre ou ao médico, mas ao público difuso, ao algoritmo, ao mercado. É uma confissão sem absolvição e sem fim. Não busca purificação nem verdade, apenas permanência no fluxo.
As vidas foucaultianas são irredutíveis: não servem de exemplo, não são inspiracionais, não podem ser reunidas num modelo. Por isso, inquietam. A vida instagramável, ao contrário, precisa ser traduzível, replicável e compartilhável. Não suporta a singularidade radical; exige uma singularidade domesticada, formatada como estilo de vida.
Se as vidas paralelas nos perturbam porque escapam, as vidas instagramáveis nos anestesiam porque se ajustam. As primeiras revelam a violência dos dispositivos de poder quando falham em capturar um sujeito. As segundas revelam algo talvez mais inquietante: a eficácia contemporânea desses dispositivos ao produzir sujeitos que se narram, voluntariamente, segundo as regras do próprio controle.
As vidas instagramáveis representam a uma espécie de prisão contemporânea e são caminho para uma padronização que transforma todos em consumidores e em produto, uma simbiose mortal para a construção de vidas originais e transformadoras.
Essas são as reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
