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José Luís Fiori

Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Sobre a Guerra (Vozes, 2018)

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Uma grande derrota estratégica

O impasse militar no Oriente Médio e as evidências históricas de um sistema capitalista que depende da iminência da guerra para ordenar o poder global

Destroços de suposta aeronave norte-americana destruída no Irã (Foto: Redes sociais via Reuters)
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1.

Fazem três décadas, pelo menos, que Benjamin Netanyahu conspira continuamente para convencer o governo norte-americano a participar de um ataque conjunto, massivo, relâmpago, e devastador, contra o Irã. E acabou conseguindo persuadir o presidente Donald Trump de que obteria uma vitória rápida e uma mudança quase instantânea do regime iraniano depois que a aviação israelense assassinasse – nos primeiros minutos do combate – as principais lideranças religiosas, civis e militares do povo persa. Promovendo a instalação de um governo títere que destruísse o programa nuclear e o sistema de defesa balístico iraniano, e que suspendesse seu apoio ao “eixo da resistência” à Israel, no Líbano, no Iraque e no Iêmen.

Mas nada disto aconteceu depois do ataque surpresa do dia 28 de fevereiro de 2026. Pelo contrário, passados quase três meses do início do conflito, pode-se dizer – do ponto de vista dos objetivos declarados pelas potências agressoras – que Israel e Estados Unidos sofreram uma grande derrota estratégica. As autoridades assassinadas foram substituídas rapidamente, o programa nuclear iraniano não foi desativado, seu sistema de produção e defesa balístico não foi destruído, as suas reservas de uranio enriquecido não foram localizadas, e o Irã segue apoiando seus aliados do “eixo da resistência”.

Além disto, os mísseis e drones iranianos atingiram, destruíram ou danificaram pesadamente todas as bases americanas ao redor do Golfo Pérsico, além de terem “vazado” o sistema de defesa aérea de Israel – o Iron Dome, que era considerado indevassável.

Por outro lado, apesar do bombardeio, massivo e contínuo do território iraniano, durante mais de um mês de combate o Irã ainda mantém – segundo a inteligência americana – 70% de seus lançadores móveis em todo o país, e conserva cerca de 70 % do seu arsenal do pré-guerra. E além disto, conseguiu restabelecer o acesso operacional de 30 de seus 33 locais de mísseis ao longo do Estreito de Ormuz, tendo recuperado o acesso a 90% de suas instalações militares subterrâneas. E apesar da destruição causada pelos bombardeios, o Irã conquistou uma vitória extraordinária ao assumir o controle militar e a soberania econômica sobre o Estreito de Ormuz.

Por tudo isto, os norte-americanos, mais do que os israelenses, encontram-se neste momento num “beco sem saída”, sem o apoio de sua própria população e divididos entre a alternativa de prosseguir indefinidamente uma guerra impopular, ou aceitar uma retirada e um acordo de paz que eles consideram humilhante. Uma posição estratégica extremamente desconfortável, agravada pelo fato que neste momento é o Irã que está “dando as cartas” nas negociações de paz intermediadas pelo Paquistão, e sustentadas pela China.

Neste momento paira no ar uma enorme incerteza om relação ao desfecho desse conflito, mas o mais provável é que a guerra prossiga por tempo indeterminado. Assim mesmo, o terremoto mundial provocado pela vitória estratégica do Ira, e sobretudo pelo seu controle do Estreito de Ormuz, produziu três sequelas, pelo menos, que já são irreversíveis.

A primeira, é que ficaram explícitos os limites do poder militar norte-americano, mesmo no caso de uma guerra assimétrica, o que atinge em cheio o projeto de supremacia militar global de Donald Trump. A segunda, é que Israel perdeu a aura de sua invencibilidade, depois que sua estratégia dos assassinatos seletivos fracassou, e depois que seu sistema de defesa foi vazado, e depois que suas bases militares foram atingidas, dentro do próprio território israelense. E a terceira é que o Irã já conquistou uma nova posição hierárquica dentro do mapa geopolítico do Oriente Médio que nascerá desta guerra, com relação aos países árabes, e com relação a Israel.

Mais além destas consequências imediatas, os efeitos em cadeia desse grande erro estratégico norte-americano foram bem além do Oriente Médio. Parece não haver dúvida, por exemplo, que cresceu em todo mundo a desconfiança dos países que dependem da “proteção militar’ dos EUA, como é o caso exemplar de Taiwan. Haja vista que durante a guerra, a líder do principal partido de oposição de Taiwan, (o partido nacionalista Kuomitang (KMT) fundado por Sun Yat-sen, em 1912) a senhora Cheng Li-Un fez uma visita oficial de cinco dias – absolutamente inusitada – à Pequim onde discutiu pessoalmente com o presidente Xi Jinping a possibilidade de uma reaproximação pacífica entre o continente chinês e sua “ilha rebelde”. Um acontecimento difícil de ser imaginado sem ter em conta a fragilização americana frente aos seus “protetorados militares”.

E o mesmo pode ser dito com relação à posição do presidente Donald Trump, durante sua visita oficial de dois dias à Pequim, quando foi obrigado a tratar a China de igual para igual e teve que ouvir em silencio a ameaça do presidente Xi Jinping de que haverá guerra se os EUA intervierem a favor da independência de Taiwan. Neste sentido, não há dúvida que a impotência dos EUA frente ao fechamento iraniano do Estreito de Ormuz acelerou o processo em curso de deslocamento do centro do poder político e econômico do Sistema Mundial, na direção da Ásia, em particular na direção da China.

Mas isto não significa, de forma alguma, o fim do “poder americano”, nem muito menos que os EUA deixarão de ser uma grande potência durante o Século XXI. Mesmo derrotados no Vietnã, no Afeganistão e agora no Irã, os EUA mantêm sua capacidade global de atacar, punir e destruir seus “desafetos”, e isto lhe assegura lugar central dentro da ordem multipolar que estará sendo construída ao longo deste novo século. Além disto, apesar do panorama geral ser extremamente sombrio, não é impossível que as negociações em torno à “Paz de Ormuz” possam se transformar na primeira grande negociação da nova era multipolar do sistema mundial.

Neste ponto não cabe dúvida sobre a posição belicista dos europeus que se preparam atualmente para uma grande guerra contra a Rússia. E não se deve esperar que Israel abdique de sua estratégia de “guerra permanente’ contra os povos islâmicos e contra o Irã em particular. E portanto, todas a questão é saber se os EUA acabarão aceitando sua nova posição como uma entre outras potencias equivalentes.

Neste ponto, apesar de todos os sinais contrários, Donald Trump talvez ainda seja o líder norte-americano com maior possibilidade de dar este passo rumo a um novo equilíbrio mundo de poder. Neste momento, o Partido Democrata está sem nenhum projeto alternativo, e se voltarem, ao poder o mais provável é que se alinhem com os europeus numa guerra geral com os russos. E dentro do Partido Republicano, se Donald Trump for sucedido por David Vance ou por Marco Rubio, o que seve esperar é um a estratégia internacional igualmente agressiva e baseada na força, mas complementada por uma visão ideológico-religiosa fundamentalista de defesa da civilização ocidental, branca e cristã, e de promoção de uma “guerra entre civilizações”, como foi antecipado por Samuel Huntington, na década de 90 do século passado, e que agora aparece defendida de forma explícita, no manifesto de 22 pontos publicado no jornal New York Times, no dia 18 de abril de 2026, por Alex Karp, CEO da Empresa Palantir, estreitamente associada ao Pentágono e muito próxima do vice-presidente norte-americano, e David Vence.

Neste contexto, paradoxalmente o realismo pragmático, quase cínico e sem pretensões catequéticas, próprias de um jogador e negocista, admirador da força e do dinheiro representa uma rara “janela de oportunidade” (por curto espaço de tempo), para uma negociação com a China e com a Rússia, incialmente, das bases estratégicas deste novo mundo multipolar, começando pela definição de algumas de suas linhas vermelhas intransponíveis comumente aceitas, no Oriente Médio, no Pacífico, no Atlântico, e na própria Europa. Mas nesse momento, esta possibilidade depende quase inteiramente da capacidade do presidente norte-americano se impor frente à figura conspiratória, fanática e belicista do seu sócio Benjamin Netanyahu. Isto será possível? Sim, é possível, ainda que seja pouco provável.

2.

Charles Tilly, destacado sociólogo, historiador e cientista político norte-americano, publicou – no início dos anos 1990 – uma obra muito importante sobre o papel das “guerras” na origem dos Estados nacionais europeus. Nesse livro, Charles Tilly apresenta alguns números impressionantes – por exemplo, que entre os anos 1400 e 1800, foi travada no mundo, em média, uma nova guerra a cada três anos; entre 1800 a 1944, uma a cada um ou dois anos; e a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos uma a cada quatorze meses.

Na sequência, logo depois do fim da Guerra Fria, na década de 90, os EUA participaram de 48 “intervenções militares” em todo o mundo, segundo Andrew Bacevich, outro historiador americano, especialista em segurança internacional. E a partir de 2001, os EUA e seus aliados europeus estiveram envolvidos numa guerra contínua no Oriente Médio, chegando a bombardear até seis países simultaneamente. Até o momento em que a guerra voltou ao coração da Europa, em 2022, envolvendo a Rússia, a Ucrânia, e a OTAN, antes de retornar, uma vez mais, ao Oriente Médio, com os ataques mais recentes de EUA e Israel contra o Irã, em julho de 2025, e em fevereiro de 2026.

Hoje o mundo convive com duas “grandes guerras”, na Ucrânia e no Irã, e mais um conflito regional entre Paquistão e Afeganistão, que envolvem, direta ou indiretamente, cinco potências atômicas. Esta é uma das razões pelas quais o Conselho de Segurança da ONU se encontra inteiramente esvaziado e impotente. Uma situação próxima do caos que recoloca, em caráter de extrema urgência, a questão milenar da origem das guerras e da transitoriedade dos “acordos de paz” assinados periodicamente pelas potências envolvidas nos infinitos conflitos travados ao redor do mundo, e muito em particular, dentro do “sistema interestatal” criado pelos europeus e que se universalizou na segunda metade do século XX.

Já faz tempo que a pesquisa antropológica e arqueológica acumula evidências de que a “violência” nasceu junto com os primeiros primatas, e foi companheira inseparável do Homo sapiens, através de todo o seu processo evolucionário. Mas a guerra, como forma regular, organizada e estratégica de exercício da violência entre os povos, só surgiu muito mais tarde, junto com as fronteiras territoriais e o nascimento dos primeiros grandes impérios e civilizações, em torno do terceiro milênio antes da “era cristã”. A partir daí, a guerra se generalizou e se transformou no principal instrumento de conquista e dominação entre as cidades, repúblicas e os impérios.

Na Europa, entretanto, depois do “Longo Século XIII”, entre 1150-1350 mais ou menos, a guerra passou a ocupar lugar cada vez mais central e dinâmico na competição entre os reinos e “feudos medievais”, sendo responsável pelo processo de centralização do poder que culminou com a formação dos primeiros “Estados nacionais”, entre 1450 e 1650. Nasceram ali também, simultaneamente, o “sistema interestatal europeu” e seus primeiros “impérios marítimos e coloniais” que se alargariam nos três séculos seguintes.

Nessa nova organização do poder territorial que se formou na Europa, a guerra com os vizinhos e contra os “povos colonizados” se transformou numa espécie de “correia de transmissão”, conectando o poder dos Estados com a expansão de suas “economias nacionais”, responsáveis pelo “financiamento” da própria guerra. Criou-se um circuito de acumulação de poder e riqueza que passou a funcionar automaticamente, como se fosse um mecanismo de relógio cada vez mais acelerado, até a formação do “modo de produção capitalista” propriamente dito, que nasceu também à sombra das guerras infinitas deste sistema de Estados nacionais e impérios coloniais.

Do ponto de vista histórico, portanto, se pode dizer que a guerra foi, desde o início, o principal instrumento a serviço da expansão do poder e da riqueza europeia. E a forma particular como se articularam o poder, a guerra e a acumulação da riqueza no território europeu talvez tenha sido a marca diferencial da Europa e de sua expansão vitoriosa nos séculos seguintes. Sobretudo depois que suas guerras se associaram de forma indissolúvel com o modo de produção e acumulação da riqueza capitalista.

Além disso, foram as guerras também que criaram as primeiras hierarquias de poder dentro da própria Europa. Na verdade, a guerra acabou se transformando na condição básica de sobrevivência de cada uma de suas unidades territoriais de poder. E foi ela também que as aproximou, integrando-as, primeiro, em várias sub-regiões e, depois, dentro de um mesmo sistema unificado e interestatal.

Por isso, todas as suas unidades estão sempre obrigadas a se expandir, porque a guerra é uma possibilidade constante, e um componente essencial do cálculo político e estratégico de todas elas. Para todas essas unidades territoriais – sobretudo as mais poderosas –, existe sempre uma guerra possível, real ou imaginária, que justifica sua “preparação permanente” para o conflito. A presença contínua dessa “guerra futura” atua como estímulo para a mobilização interna de recursos destinados à pesquisa e à inovação da tecnologia militar e para a ampliação dos arsenais de cada um desses “Estados-economias nacionais” guerreiros. Uma mesma energia que esteve na origem do capitalismo, como já dissemos, e que depois se transformou na mola propulsora de seu processo de acumulação infinita de capital.

Essa “compulsão expansiva”, que se universalizou na segunda metade do século XX, aponta na direção inevitável do monopólio. Isto é, todas as unidades competidoras se propõem, em última instância, a conquistar um poder global e incontrastável que possa ser exercido sobre um território cada vez mais amplo e unificado, sem fronteiras. Ao mesmo tempo, se alguma dessas unidades conseguisse se impor, de forma imperial, a todas as demais, implicaria a eliminação de todos os demais poderes territoriais concorrentes.

Caso isso viesse a ocorrer, estaria suspenso – automaticamente – o próprio processo de acumulação do poder e de capital. Se a exclusividade fosse alcançada e se criasse uma situação de monopólio absoluto, o sistema entraria em crise, e tenderia a um estado de entropia por causa do desaparecimento das hierarquias, da competição e da guerra. Por isso se pode concluir que nem a hegemonia unipolar, nem o império são capazes de ordenar e pacificar o “sistema interestatal capitalista”. Mais do que isto, a única força que parece capaz de mantê-lo hierarquizado e pacificado temporariamente é a possibilidade permanente de uma nova guerra.

Resumindo o argumento: na medida em que as primeiras unidades de poder territorial europeias foram dando origem a estruturas de poder mais amplas e complexas por causa das guerras e da centralização do poder, duas coisas foram ficando cada mais claras: em primeiro lugar, foram as guerras que aumentaram os laços de integração e mútua dependência entre os poderes territoriais desse sistema político; em segundo, do ponto de vista estritamente lógico, os poderes vencedores não podem destruir seus concorrentes/adversários.

Mais que isto, se não houver uma “concorrência espontânea”, seus “poderes expansivos” terão que gerar seu próprio concorrente ou inventar adversários que permitam que o mecanismo desse relógio não pare jamais. Um segredo muito bem guardado pelos “senhores do mundo”: são eles mesmos que criam ou inventam, em última instância, seus adversários, que são indispensáveis para sua própria acumulação de poder e de riqueza.

E a chamada “potência hegemônica”, em particular, precisa estar sempre à frente de todos nesse processo, mesmo que seja obrigada a destruir as regras e instituições que ela mesma criou, num momento em que se sinta ameaçada, como está acontecendo, de forma extraordinariamente clara, na relação dos EUA com seus antigos aliados europeus, e com todo o sistema internacional.

Nunca houve, nem haverá “paz perpétua” nesse sistema interestatal, porque ele e seus líderes, em particular, precisam da guerra para expandir seu poder. E o que é mais paradoxal, ele precisa da guerra para poder se “ordenar”, “hierarquizar” e “pacificar”. Nesse contexto, a luta pela paz se transformou numa bandeira e numa utopia dos que lutam para construir barreiras éticas e jurídicas de contenção do “rolo compressor” das grandes potências.

*José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Uma teoria do poder global (Vozes) [https://amzn.to/3YBLfHb]

Publicado originalmente no Boletim do Observatório internacional do século XXI, no. 17, maio de 2026.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.