Trump, Netanyahu e a metáfora da realeza
Trump e Netanyahu ameaçam democracias, pois representam um sério risco de fusão entre mito e autoritarismo, sugere Oliveiros Marques
A metáfora da realeza, tal como elaborada por Northrop Frye em suas leituras da tradição bíblica, oferece uma chave interpretativa poderosa - e inquietante - para compreender certas formas de poder na modernidade. Para Frye, em a Bíblia e os mitos clássicos, o rei não é apenas um governante no sentido administrativo; grosso modo, ele é uma figura simbólica que concentra em si a identidade coletiva, funcionando como mediador entre o povo e a ordem do mundo. Trata-se menos de um indivíduo e mais de um arquétipo: alguém que encarna, representa e, em certa medida, substitui a totalidade da nação.
Importa, no entanto, um cuidado interpretativo: em Frye, essa metáfora pertence ao campo do mito e da estrutura narrativa, não sendo uma prescrição política. O problema emerge quando essa lógica simbólica transborda para o plano concreto da política e passa a operar como fundamento de legitimidade. Nesse deslocamento, o que era mediação simbólica pode se converter em fusão literal - e é aí que a metáfora adquire contornos sombrios.
É sob essa chave que a figura de Benjamin Netanyahu pode ser analisada. Ao longo de sua trajetória, sua retórica frequentemente tensiona os limites entre liderança política e identificação existencial com o Estado de Israel. Em diversos momentos, a defesa de suas decisões – em especial quando pratica o genocídio em Gaza, a destruição do sul do Líbano e ataca o Irã - e de sua permanência no poder aparece associada à própria sobrevivência nacional. Ainda que essa associação em alguns momentos não seja sempre explícita, ela se constrói discursivamente: governar deixa de ser uma função contingente e passa a sugerir uma missão quase ontológica.
Quando essa equivalência se intensifica, o risco é claro: a oposição política deixa de ser compreendida como parte constitutiva da democracia e passa a ser enquadrada como ameaça à própria existência coletiva. Aqueles que atacam sua decisão são rotulados de antissemitas. Nesse ponto, a metáfora da realeza abandona seu caráter simbólico e assume uma forma que pode ser descrita, em termos literários, como “demoníaca”.
Em Frye, o “demoníaco” não se refere ao mal moral no sentido simplista, mas a uma distorção dos símbolos - quando aquilo que deveria mediar e organizar a experiência humana passa a aprisioná-la. O líder, nesse registro, deixa de representar o povo para reivindicar ser o próprio povo. A mediação se dissolve; resta apenas a identidade absoluta entre governante e nação.
Essa lógica não é inédita. A história oferece exemplos claros de sua manifestação. Em Adolf Hitler, a ideia de que o Führer encarnava a vontade do povo alemão eliminava qualquer distinção entre Estado, nação e liderança individual. A crítica tornava-se, por definição, traição. De forma distinta, mas estruturalmente semelhante, Benito Mussolini também cultivou a imagem de intérprete exclusivo do destino italiano, fundindo sua figura ao mito de uma Itália restaurada. Em ambos os casos, a metáfora da realeza - ainda que não nomeada como tal - operava como princípio organizador de um poder que recusava mediações institucionais.
O elemento comum nesses exemplos, e que ilumina a análise contemporânea, é a transformação da política em uma narrativa de unidade orgânica. O líder não governa entre diferenças: ele afirma sintetizá-las e superá-las em si mesmo. Essa pretensão produz um efeito corrosivo: enfraquece instituições, esvazia o pluralismo e converte o Estado em extensão de uma vontade singular.
O aspecto mais inquietante dessa construção reside em sua força de sedução. Em contextos de crise, ela oferece clareza onde há complexidade, unidade onde há conflito, direção onde há incerteza. Promete segurança, identidade e propósito. Mas o preço é elevado: a substituição do debate pela adesão, da diversidade pela homogeneidade, da política pela fidelidade.
Ao revisitar Frye, somos lembrados de que os mitos não desaparecem - eles apenas se reconfiguram. A metáfora da realeza continua operando, não mais como narrativa sagrada, mas como estrutura latente de poder. E quando um governante passa a ocupar esse lugar de encarnação simbólica da nação, talvez não estejamos diante de força política no sentido democrático, mas de uma forma de poder que flerta com a negação da própria política.
Nesse sentido, o perigo não está apenas no líder, mas na aceitação coletiva dessa lógica. Porque, quando o povo passa a se ver refletido em um único rosto, a diversidade que sustenta a vida democrática começa, silenciosamente, a desaparecer. As pesquisas de opinião nos Estados Unidos demonstram resistência a isso em relação a Donald Trump. A queda em sua popularidade entre os norte-americanos despenca.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



