Tragédia e farsa
Reflexão sobre radicalização política, avanço da extrema direita e o esvaziamento do diálogo no Brasil contemporâneo
Um dos princípios básicos do fascismo é não conviver com o diferente. A palavra inicial e final é sempre a deles. Isso só bastaria para encerrar meu artigo. O que mudou no nosso país de um tempo para cá foi que o fascismo se estabeleceu disfarçado de um monte de nomes que não escondem o verdadeiro intuito. São chamados de extrema direita, conservadores, pátria, família e liberdade, tementes a deus e muito mais. O que os une é que não querem ou não sabem como discutir suas ideias. Na realidade não têm muitas ideias. O propósito é um só. Destruir o que foi feito em benefício da sociedade, da população e entregar o que restar para que o mercado financeiro possa explorar. O dinheiro vai sobrar, é claro. Se você não distribui ele sobra. Aí é só sentar no seu gabinete e esperar. E lembrar sempre de não discutir, debater ou dar espaço ao contraditório. Eles se dizem defensores da família. O outro lado são os destruidores desses valores, da família, de deus?
Já tivemos vários exemplos desta falta de argumentação no passado e isso só confirma o que tenho dito. Mas as coisas não foram sempre assim. Eu mesmo já convivi com pensamentos diferentes do meu, já conversei sobre eles já aturei muita besteira, mas como vinham de amigos, pessoas conhecidas não era assim tão grave. Divergíamos, mas mantínhamos um mínimo de atitude humanista que nos ligava.
Trabalhei com Carlos Lacerda um bom período da minha vida. Prestava serviço para a Editora Nova Fronteira e com isso ficamos amigos. Era amigo também de sua filha Cristina e me dava com Sérgio e Sebastião, seus filhos. Dr. Carlos, como era conhecido, gostava muito de mim. Quando morei em Milão veio me visitar algumas vezes. Mandava bilhetes antes ressaltando que talvez seu prazer em nos ver fosse maior que o nosso em vê-lo. Eu gostava dele. Conversávamos, e quando ele se via sem razão dizia que eu era muito jovem que ainda iria aprender. Não sabia ainda de tudo que depois se revelou sobre ele. Nos demos bem e a última vez que falamos ele estava com o general Euler Bentes que se mostrou por um período uma alternativa mais democrática à ditadura. Convidou-me para encontrá-los, mas acabei não indo. Voltei para Milão e em seguida ele morreu em circunstâncias no mínimo suspeitas. Era o ano de 1977.
Essas divergências eram marcantes, mas não suficientes para separar as pessoas. A direita se radicalizou e se aprimorou. A esquerda continuou cega e deixou a vida passar. As big tech foram capitalizadas pela extrema direita e o mundo se transformou nessa coisa inóspita de hoje. Uma direita que manda a favor de um mercado, uma polarização fortíssima que não abre brecha para mudanças e uma impossibilidade de tocar adiante projetos mais sociais.
Discutir com a extrema direita é impossível. Eles não têm argumentos. As posições ficaram sedimentadas e não adianta a razão nem a verdade para que isso mude. Aliás, verdade é uma coisa que não se acha mais por aqui.
Vivemos no Brasil e aqui o diálogo é quase um convite ao tempo perdido. Não me vejo dialogando com quem tem esses dogmas religiosos e políticos tão arraigados, imutáveis. A tentativa de golpe do Jair e agora a iniciativa de Flávio a presidência da república me lembra em todas as características dos golpes dos Bonaparte que inspiraram Marx a escrever 18 de Brumário de Luís Bonaparte e a cunhar a famosa e irrepreensível frase: A história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Napoleão quis e conseguiu terminar com a Revolução Francesa e seus avanços e seu sobrinho quis consolidar essa missão. Parece com o Brasil? Vocês têm como conversar, tentar convencer seus adversários do contrário do que pensam? Fica difícil. Acho árdua a tarefa dos mais jovens que não podem desistir, que têm que continuar lutando para que a verdade volte a ser dita.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



