Tensão no Oriente Médio volta a pressionar o petróleo
“O choque atual age de forma ambígua sobre a economia brasileira”
As negociações de paz no Oriente Médio fracassaram neste fim de semana. A comitiva americana, que havia realizado conversas com autoridades iranianas e paquistanesas nos dias anteriores, não conseguiu avanços concretos. Em resposta, os Estados Unidos anunciaram que navios que atraquem em portos iranianos ficarão sujeitos a bloqueio e sanções — criando, na prática, um duplo bloqueio no Estreito de Ormuz: americano de um lado, iraniano do outro. O preço do petróleo voltou a subir. A situação não representa o grau de conflito aberto visto semanas atrás, mas tampouco aponta para qualquer solução diplomática no horizonte.
O Relatório Focus divulgado hoje trouxe um dado preocupante: a inflação esperada para 2025 saltou para 4,71%, bem acima do teto da meta. O ano começou com expectativas em torno de 3,70%–3,80%, o que representa uma alta de cerca de 100 pontos-base nas projeções. A discussão agora se volta para o Banco Central: ele interrompe o ciclo de cortes ou avança com passos menores? A avaliação é que o BCB deve seguir com mais dois ou três cortes de 0,25 ponto percentual e encerrar o ciclo próximo a 14% ao ano — nível consideravelmente mais alto do que o inicialmente projetado. O mercado de juros futuros já precifica a Selic nessa faixa, embora o Focus ainda aponte 12,50%.
Apesar do cenário inflacionário, há notícias positivas para os ativos brasileiros. O real fechou a R$ 5,01 na sexta-feira, mesmo diante do IPCA de 0,88% no mês e do PPI americano de 0,9% em março. É a moeda que mais se valoriza no mundo em 2025, com ganho próximo de 10%. A bolsa acumula alta de 20% no ano — o que representa, em dólares, uma valorização de aproximadamente 30%. A explicação está na posição do Brasil como um dos maiores produtores mundiais de petróleo, entre o 6º e o 7º do ranking global. Na cabeça dos investidores internacionais, o choque do petróleo beneficia o Brasil, e a balança comercial de março confirmou isso, vindo forte puxada pelas exportações do setor.
O choque atual age de forma ambígua sobre a economia brasileira. Há um canal negativo — a alta da gasolina, do diesel e do querosene de aviação, pressão inflacionária que a Petrobras por ora segura — e um canal positivo: a valorização do real e o fluxo de capital estrangeiro atraído pela condição de exportador líquido de petróleo e pelo enorme diferencial de juros, com a Selic a 14,75%. Esse segundo canal ajuda o Banco Central a controlar a inflação pela via cambial.
Na agenda da semana, os destaques são a Pesquisa Mensal de Serviços e a Pesquisa Mensal do Comércio no Brasil, além do PPI americano, após o salto registrado no CPI de sexta-feira. O acompanhamento dos desdobramentos no Oriente Médio segue essencial. O cenário já está em boa parte desenhado: alguns cortes adicionais de juros ainda devem vir, o ciclo se encerra em breve, e o real tende a continuar se valorizando, beneficiado pelo pré-sal e pela nova condição do Brasil como grande player global de petróleo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



