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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Stonewall sem Arco-Íris

A retirada da bandeira LGBTQ+ do monumento de Stonewall expõe uma ofensiva conservadora para reescrever a história e silenciar símbolos de resistência

Sara York (Foto: Arquivo pessoal)

Em fevereiro de 2026, a administração de Donald Trump determinou a retirada da bandeira do orgulho LGBTQ+ do Stonewall National Monument, em Nova York. O gesto, apresentado oficialmente como cumprimento de uma diretriz administrativa do National Park Service sobre o uso de símbolos em espaços federais, ultrapassou em muito o campo da burocracia. Tratou-se de um ato profundamente político, com impacto simbólico direto sobre a memória, a visibilidade e a dignidade de uma comunidade historicamente marginalizada.

Stonewall não é um monumento qualquer. Ali, em junho de 1969, travestis, pessoas trans, lésbicas, gays, jovens racializados e corpos dissidentes reagiram à violência policial sistemática que marcava sua existência. A rebelião que começou naquele bar do Greenwich Village não foi apenas um episódio isolado: foi o ponto de inflexão de um movimento global por direitos civis, dignidade e reconhecimento. Em 2016, ao transformá-lo em monumento nacional, o Estado norte-americano reconheceu, ainda que tardiamente, esse legado.

A bandeira do arco-íris hasteada em Stonewall era a materialização de uma história construída com perseguição, exclusão, mortes, resistências e afetos. Representava, no espaço público, a afirmação de que aquelas vidas importam. Sua retirada, portanto, não pode ser compreendida como um simples ajuste técnico. É um gesto de reconfiguração da memória.

Autoridades justificaram a decisão afirmando que apenas bandeiras oficiais podem ser exibidas em áreas federais. No entanto, essa neutralidade aparente esconde uma escolha política: a de privilegiar símbolos estatais em detrimento de símbolos comunitários, identitários e históricos. Ao fazê-lo, o Estado reafirma que determinadas narrativas são legítimas, enquanto outras devem ser contidas, silenciadas ou diluídas.

Não se trata de um episódio isolado. Nos últimos anos, materiais institucionais sobre Stonewall passaram por revisões que reduziram a centralidade de pessoas trans e travestis na narrativa oficial. Termos foram suavizados, identidades apagadas, conflitos esvaziados. O que está em curso é um processo de higienização histórica: transforma-se uma revolta radical contra a opressão em um capítulo neutro da história nacional.

A reação foi imediata. Ativistas, lideranças políticas e moradores de Nova York denunciaram a retirada como tentativa de apagamento simbólico. Protestos se formaram em frente ao monumento. Parlamentares prometeram recolocar a bandeira. Organizações de direitos humanos alertaram para o precedente perigoso que se estabelece quando o Estado passa a controlar rigidamente os símbolos da diversidade.

Mais do que uma disputa sobre um mastro, o episódio revela uma luta pelo controle da narrativa pública. Quem decide quais histórias merecem ser visíveis? Quem define quais corpos podem ocupar o espaço da memória nacional? Quem tem o direito de representar o passado?

Ao mesmo tempo, a controvérsia ocorre em um contexto mais amplo de recrudescimento conservador, no qual políticas anti-LGBTQIA+, ataques a pessoas trans e tentativas de restringir direitos reprodutivos e educacionais avançam em diferentes frentes. A retirada da bandeira se insere nesse movimento: não como exceção, mas como sintoma.

Símbolos importam porque organizam afetos, pertencimentos e imaginários. Apagar um símbolo é tentar reordenar quem pode ser visto, lembrado e reconhecido. Em Stonewall, apagar o arco--íris é tentar esvaziar a radicalidade de uma história que nasceu da desobediência, da coragem e da recusa ao silêncio.

Paradoxalmente, toda tentativa de apagamento produz resistência. A ausência da bandeira tornou visível aquilo que se queria ocultar. Reativou memórias, mobilizou debates, fortaleceu alianças. Mostrou, mais uma vez, que não há política neutra quando se trata de corpos dissidentes.

Stonewall sem arco-íris é um monumento mutilado. Não porque lhe falte um pedaço de tecido, mas porque lhe tentam arrancar o sentido. A história da diversidade sexual e de gênero não cabe nos limites estreitos da burocracia estatal. Ela pulsa nas ruas, nas vidas, nos afetos e nas lutas que continuam.

E continuará.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.