Quando o salário aumenta, a vida muda: o impacto da isenção do IR na vida das mulheres
Justiça tributária também é justiça de gênero e quem vive de salário não pode continuar pagando a conta da desigualdade.
O debate sobre imposto de renda costuma parecer técnico demais, distante demais, abstrato demais. Mas não é. Ele cabe no carrinho do supermercado, na prestação do material escolar, no gás que acaba antes do previsto. Ele cabe, sobretudo, na nossa vida de mulheres trabalhadoras.
A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda não é apenas uma medida econômica. É uma medida social. É uma medida de justiça. E, na prática, é uma política que dialoga diretamente com a nossa realidade.
Porque somos nós que, majoritariamente, administramos o orçamento doméstico. Somos nós que fazemos o salário render até o fim do mês. Somos nós que seguramos a casa quando a inflação aperta. Somos nós que acumulamos jornadas no trabalho formal, no trabalho informal e no trabalho invisível do cuidado.
Quando o governo decide que quem ganha menos não deve pagar imposto, está dizendo algo muito concreto: quem vive de salário não pode continuar pagando a conta de um sistema injusto.
E isso tem gênero.
Nós estamos concentradas nas faixas salariais mais baixas. Recebemos, em média, menos que os homens. Somos maioria nas categorias profissionais historicamente desvalorizadas como educação, saúde, serviços e comércio. Somos também maioria entre as chefes de família solo.
Para uma professora da rede pública, para uma trabalhadora da saúde, para uma comerciária, que muitas vezes somos nós mesmas ou nossas companheiras de luta, a diferença no salário líquido não é um detalhe contábil. É a possibilidade de respirar um pouco. É reduzir o uso do cartão de crédito. É comprar um alimento de melhor qualidade. É pagar uma conta atrasada. É não precisar escolher entre remédio e transporte.
Política econômica também é política de gênero.
Durante anos, o Brasil aprofundou desigualdades com políticas que favoreciam o topo da pirâmide e comprimiam a base. A correção da tabela do imposto de renda é parte de um movimento inverso: aliviar quem ganha menos e avançar no debate sobre taxação dos super-ricos.
Isso é redistribuição. Isso é compromisso com quem trabalha.
E quando falamos em redistribuição, falamos também em nossa autonomia. Cada real que permanece no nosso salário amplia nossa margem de decisão. Amplia nossa capacidade de sair de relações violentas. Amplia nossa independência. Amplia nossa possibilidade de investir em nós mesmas e nos nossos filhos.
A autonomia econômica é uma das bases do enfrentamento à violência de gênero. E ela começa, muitas vezes, em medidas que parecem técnicas, mas que são profundamente políticas.
Não se trata apenas de números na tabela da Receita. Trata-se de reconhecer que justiça tributária é justiça social. E justiça social, no Brasil, precisa necessariamente ser feminista.
Quem muda a vida do povo não é o mercado. É política pública. É decisão de governo. É projeto de país.
A isenção ampliada do Imposto de Renda não resolve todas as desigualdades estruturais que nos atravessam, especialmente quando falamos de nós, mulheres negras e periféricas. Mas é um passo concreto na direção de um Estado que olha para quem vive do próprio trabalho.
E isso importa.
Porque quando o salário aumenta, a vida muda.
E quando a nossa vida melhora, o país inteiro avança.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



