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Mário Maurici

Jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha, ex-vice-presidente da EBC e ex-presidente da Ceagesp. Atualmente, deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

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Qual o preço da eleição de Flávio Bolsonaro?

"O pré-candidato à Presidência fez um pedido claro, quase explícito, de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras"

Discurso de Flávio Bolsonaro na CPAC (Conservative Political Action Conference) (Foto: Reprodução)

O discurso de Flávio Bolsonaro na CPAC (Conservative Political Action Conference) foi uma das mais graves manifestações de defesa do intervencionismo dos Estados Unidos e de subordinação dos interesses brasileiros àquele país. Seu conteúdo revela uma orientação política clara, que coloca em risco a soberania nacional. O evento é considerado o maior encontro de líderes, ativistas e organizações da extrema direita no mundo. Diante dessa plateia, o pré-candidato à Presidência fez um pedido claro, quase explícito, de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

Trata-se de um flerte perigoso com situações que, no passado, já resultaram em inúmeras tragédias na América Latina e no Caribe. Um movimento que ganha densidade histórica quando observado à luz da Doutrina Monroe, formulada em 1823, e que enxerga a América Latina como "quintal" dos Estados Unidos. Sob Donald Trump, essa tese, agora renomeada de doutrina Donroe, voltou a ser adotada de modo explícito, com sinais recorrentes de interferência, direta ou indireta, em dinâmicas políticas da região, como aconteceu recentemente nas eleições presidenciais de Honduras e legislativas na Argentina. Com o presidente Lula, temos resistido com êxito, como se viu na imposição do tarifaço. Mas a postura seria oposta em uma eventual ascensão de Flávio Bolsonaro.

Um dos pontos mais sensíveis do discurso dele foi sobre as chamadas terras raras. Delas, são extraídos elementos essenciais para tecnologias avançadas, como inteligência artificial, equipamentos militares e a transição energética, o que nos coloca no centro da disputa global por poder e autonomia tecnológica. Foi o equivalente a passar com um cachorro em frente a um açougue com carnes suculentas. Nesse momento, Flávio pôs sobre a mesa a recompensa por uma eventual ajuda estadunidense à sua campanha.

Para Flávio Bolsonaro, o Brasil poderia ser "a solução" para que os Estados Unidos reduzam sua dependência da China no fornecimento de minerais críticos. Ao apresentar o nosso país como alternativa estratégica para a segurança nacional estadunidense, ele desloca o eixo da discussão: os recursos naturais brasileiros deixam de ser considerados como instrumentos de desenvolvimento nacional e passam a ser tratados como ativos a serviço de uma potência estrangeira.

Esse posicionamento ganha ainda mais peso quando associado a outros elementos do seu discurso. Flávio Bolsonaro também defendeu que países estrangeiros acompanhem e pressionem o funcionamento das instituições brasileiras e o processo político nacional. Pediu que os Estados Unidos exerçam "pressão diplomática" para que o pleito ocorra sob "valores democráticos americanos". Talvez ele entenda como valores democráticos a invasão do Capitólio estimulada por Trump para tentar reverter sua derrota eleitoral e replicada na fracassada tentativa de golpe de 8 de janeiro no Brasil. A combinação desses fatores — oferta de recursos estratégicos e apelo à intervenção externa — dá as cores do que será um eventual retorno da extrema direita ao comando do nosso país.

Não foi só na CPAC que o discurso de Flávio Bolsonaro caiu bem. Estes absurdos receberam apoio de deputados estaduais da Assembleia Legislativa de São Paulo, alinhados com o governador Tarcísio de Freitas, que se afastaram de seus mandatos para participar presencialmente do evento nos Estados Unidos. É a extrema direita unida, entreguista, portadora do complexo de vira-lata, mostrando que, nesse jogo, vale até mesmo abrir mão da nossa soberania.

É justamente esse ponto que estrutura a reação crítica e a posição oposta defendida por Lula. O presidente tem reiterado que o Brasil não aceitará qualquer forma de tutela externa e que sua política internacional deve ser guiada pela autonomia e pelo interesse nacional. Em meio a tensões com os Estados Unidos, Lula afirmou que o país não aceitará interferências e que a soberania brasileira é um princípio inegociável.

Recursos estratégicos, como as terras raras, não podem ser explorados apenas como commodities voltadas à exportação. Muito menos ceder o seu controle por meio de acordo de preferência para um determinado parceiro comercial. Precisamos utilizá-los como base para o desenvolvimento industrial e tecnológico interno, agregando valor e reduzindo a dependência histórica do Brasil na divisão internacional do trabalho. É a nossa oportunidade de inverter a lógica de subordinação que os Estados Unidos tentam nos impor e ocupar novos espaços no tabuleiro geopolítico internacional.

Dar asas às ambições imperialistas estadunidenses é um jogo arriscado. A chilena Marcela Rios Tobar, diretora para a América Latina no Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral, esteve recentemente no Brasil para participar de um evento da União Europeia sobre combate à desinformação e avaliou existir uma preocupação real de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

E essa não é uma ameaça enfrentada apenas por nós. Peru e Colômbia também vão às urnas para escolher seus presidentes em cenários bastante acirrados. Certamente, eles também estão na mira de Trump. Mas o Brasil é a "joia da coroa" pelo peso que tem na América e no mundo, pela sua população, economia e dimensão territorial.

Estamos diante de uma encruzilhada. A depender de suas escolhas, a América Latina pode desempenhar um papel subalterno, exportando riqueza bruta e importando dependência, ou assumir o protagonismo que nossos recursos e nossa capacidade histórica permitem. A extrema direita que sustenta Flávio Bolsonaro já escolheu o seu lado, assim como os partidos progressistas que apoiam Lula.

Proteger as nossas riquezas estratégicas, fortalecer a nossa soberania e blindar as nossas instituições contra interferências externas não são somente opções ideológicas: são pilares para que o Brasil e a América Latina decidam seu próprio destino.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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