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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Púlpitos ou palanques?

"Talvez a ironia maior seja esta: acusam artistas de instrumentalizar a cultura, enquanto instrumentalizam a fé sem corar"

Púlpitos ou palanques? (Foto: Reprodução)

A falsa polêmica em torno do desfile da escola de samba de Niterói é um primor de seletividade moral. Bastou que o enredo homenageasse o retirante que virou presidente para que surgissem doutores instantâneos em direito eleitoral, brandindo expressões como "propaganda antecipada", "abuso de poder político" e "abuso de poder econômico", como se estivessem diante de um comício clandestino na Marquês de Sapucaí. De repente, alegorias viraram palanques e fantasias passaram a ser tratadas como santinhos.

Convém lembrar que o Carnaval sempre foi palco de crítica social, política e cultural. Escolas já exaltaram líderes, denunciaram injustiças, celebraram resistências. Mas, curiosamente, a indignação jurídica só desperta quando o personagem homenageado não é o preferido do condomínio ideológico de plantão. Se a homenagem fosse a um "mito" qualquer, talvez fosse apenas "liberdade artística". Como não é, vira caso de polícia.

Diante desse zelo tão aplicado, ouso fazer uma sugestão respeitosa à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público Eleitoral: que usem parte de seu precioso tempo para investigar a campanha eleitoral permanente que ecoa de milhares de púlpitos espalhados pelo país. Não se trata de fé — que merece respeito de todos, inclusive dos ateus —, mas de palanque com aura de blindagem celestial. Há templos onde o nome de Luiz Inácio Lula da Silva é citado com mais frequência que o dos evangelhos, sempre como sinônimo de ameaça apocalíptica. Já os de Bolsonaro, agora com o Zero 1 como versículo da vez, surgem envoltos em loas messiânicas, como se tivessem descido do Sinai com as tábuas da moral e dos bons costumes sob os braços.

Ali, sim, há campanha negativa permanente. Ali, sim, há pedido explícito ou implícito de voto, demonização de adversários, construção de narrativas políticas embaladas em capítulos e versículos. E tudo isso não por uma noite de desfile, mas 52 semanas por ano, com transmissão ao vivo, dízimo garantido e imunidade tributária assegurada. Se a preocupação é com o equilíbrio do pleito, talvez valha olhar para onde a influência é contínua e organizada — e não para uma comissão de frente coreografada.

É curioso como certos guardiões da moral pública se calam diante de escândalos envolvendo rachadinhas, joias roubadas que atravessam fronteiras sem declarar amor à Receita, violência contra mulheres tratada como "assunto doméstico", racismo relativizado, golpismos romantizados como "patriotismo". Para esses pecados, sempre há uma exegese conveniente. Já para uma escola de samba que canta a trajetória de um retirante nordestino, aplica-se o Código Eleitoral com fervor inquisitorial.

Talvez a ironia maior seja esta: acusam artistas de instrumentalizar a cultura, enquanto instrumentalizam a fé sem corar. Invocam a defesa da família enquanto fecham os olhos para crimes cometidos dentro e fora dela. Clamam contra o "uso político" do Carnaval, mas naturalizam o uso político do altar.

Se a lei deve valer para todos — e deve — que valha para todos. Que se investigue com o mesmo afinco o carro alegórico e o púlpito, o samba-enredo e o sermão eleitoral. Do contrário, ficará a sensação de que não se combate abuso de poder; combate-se apenas quem ousa cantar fora do coro dos convertidos. E aí, convenhamos, não é a Justiça que desafina — é a própria democracia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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