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Aldo Fornazieri

Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política e autor de "Liderança e Poder"

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PCC e CV terroristas: qual a tática?

Enfrentamento do bolsonarismo e da extrema-direita não ocorre nos parâmetros democráticos normais do debate de ideias e de propostas, mas nos da guerra política

Siglas da facções Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e Flávio Bolsonaro (Foto: Reprodução I Andressa Anholete/Agência Senado)
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A classificação do PCC e CV como organizações terroristas por parte do governo Trump, estimulada por Flávio Bolsonaro e familiares, tornou mais complexa a conjuntura política e eleitoral e criou um grau maior de dificuldade para o governo definir uma tática adequada. A classificação está sendo vendida como um grande feito por Flávio Bolsonaro, que agrega a ideia de que “Lula defende a soberania do PCC e do CV”.

A questão da definição de uma tática adequada pelo governo e pelas esquerdas envolve três elementos principais: 1) como contra-atacar Flávio Bolsonaro e a direita em torno do tema; 2) qual centralidade o discurso político-eleitoral deve adotar; 3) como tratar a classificação por parte do governo dos Estados Unidos.

A iniciativa de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump teve três objetivos principais: tentar sair do corner por conta da relação com Vorcaro, buscar ativos para atacar a campanha de Lula e valorizar sua imagem ao aparecer junto com o presidente americano. Do ponto de vista da conjuntura eleitoral, o segundo aspecto é o mais importante para ele e é o que merece maior atenção por parte do governo e dos partidos de esquerda.

A resposta a ataques políticos comporta duas táticas principais: a tática do confronto e a tática da moderação. Não há consenso entre analistas e marqueteiros acerca da melhor tática. A escolha, no entanto, não deve ser definida em abstrato, mas por uma análise da conjuntura e das circunstâncias.

É preciso entender que o enfrentamento do bolsonarismo e da extrema-direita não ocorre nos parâmetros democráticos normais do debate de ideias e de propostas, mas nos da guerra política. A característica principal da atual conjuntura político-eleitoral é a da polarização extremada. Explicar ou justificar-se num ambiente como este emite uma imagem de hesitação, quando não de culpa.

Numa conjuntura deste tipo, não há dúvida de que a confrontação é a melhor tática, embora não exclusiva. Em comunicação política, Maquiavel ensinou isso à exaustão: a percepção é mais forte do que a realidade. O contra-ataque deve ser mais forte do que o ataque. Assim, mudam-se não só os termos da relação atacante-atacado, mas também o foco do embate.

Deve-se atacar as ações do adversário, suas intenções, sua história. O objetivo do contra-ataque consiste em retomar o controle da narrativa, otimizar a capacidade persuasiva, dominar a agenda pública e da mídia e obrigar o adversário a adotar uma posição defensiva. Por exemplo: deve-se mostrar que Flávio protege o PCC, o CV e o crime organizado, já que o enquadramento como organizações terroristas dificulta a ação da polícia e a própria colaboração com os Estados Unidos, como argumentam vários especialistas.

No contra-ataque, dever-se-ia dizer que Vorcaro operou com dinheiro do PCC, que Flávio usou dinheiro de Vorcaro e que o grupo do Master é a maior organização criminosa do Brasil. Além de todos os crimes cometidos, articula-se com o PCC, com o jogo do bicho e com as milícias. Flávio Bolsonaro não tem moral para fazer demagogia com esses temas.

Quanto ao ponto 2, não há dúvida de que a centralidade da tática a ser adotada deve ser o contra-ataque e a confrontação de Flávio Bolsonaro. Além do que já foi indicado, cabe subsidiar essa centralidade com elementos de reforço. O governo e seus apoiadores deveriam enfatizar as iniciativas práticas de combate ao crime organizado e prometer que, na próxima gestão, ele será enfrentado de forma implacável, com inteligência, tecnologias, estrangulamento financeiro, desarmamento e prisões.

Deve-se agregar ainda todos os prejuízos econômicos e financeiros que as iniciativas de Flávio provocam para o Brasil: fuga de capitais, queda na bolsa, desinvestimentos estrangeiros, possibilidade de penalizações de empresas brasileiras etc.

Quanto ao ponto 3, é preciso observar que, até agora, o governo e as esquerdas adotaram o discurso da defesa da soberania como tática principal. Não é que a soberania não deva ser defendida. Mas, do ponto de vista político-eleitoral, não é o ponto principal.

Soberania é um conceito abstrato e complexo. A maior parte da população não sabe o seu significado. Não é uma afirmação e noção autoevidente e autoexplicativa. Assim, tem menos eficácia política e eleitoral do que o contra-ataque. O governo deveria dizer, ainda, que, embora não concorde com a classificação, vai continuar colaborando com os Estados Unidos nos termos das definições das autoridades brasileiras. E que vai cobrar do governo Trump a prisão e a deportação para o Brasil dos criminosos brasileiros que lá se refugiam e vivem livremente.

A temática da segurança pública, das organizações criminosas e do narcotráfico tornou-se central e, em grande medida, definidora dos processos eleitorais latino-americanos nos últimos tempos. Foi assim no Equador, Chile, Bolívia, Paraguai e está sendo assim na Colômbia e no Peru. Deverá ser assim também no Brasil. É a temática que instrumentaliza o governo Trump para justificar intervenções na região.

A extrema-direita tem radicalizado e bukelizado (Nagib Bukele) o seu discurso. As esquerdas estão na defensiva porque esses temas nunca lhes foram prioritários. O governo Lula acordou tardiamente para o problema e, ainda mais, priorizando a legislação do que a operação. Só nos últimos meses incrementou mais as operações. O problema é grave e as notícias acerca do PCC e do CV mostram o alcance que essas organizações atingiram. Estão infiltradas em várias instâncias políticas e institucionais, em vários ramos de negócios e na Faria Lima.

A campanha de Lula precisa de uma estratégia competitiva e afirmativa acerca dessa temática. Caso contrário, ficará na defensiva numa difícil e polarizada disputa eleitoral. Deveria aumentar as operações contra as organizações criminosas desde já.

A campanha deveria construir um discurso forte e afirmativo, enfatizando soluções operacionais em detrimento das letargias explicativas. Os governos precisam resolver. As explicações devem ser deixadas para os sociólogos. Se a segurança pública é um direito dos cidadãos, o governo deve garanti-la.

Nessa temática não há meio-termo. Ganha mais quem é mais contundente, afirmativo, inteligente, capaz de persuadir o eleitor de que as soluções que apresenta serão mais eficazes do que aquelas dos adversários. A hesitação e a tibieza transmitem a imagem de que não se têm soluções para o problema.

Aldo Fornazieri – Coordenador do curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política (FESPSP).

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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